segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Sobre as eleições no ano que vem

Como todos sabemos, ano que vem é ano eleitoral. Se vocês acham que estou falando das eleições municipais, esqueçam. Aliás para que eleições municipais se sabemos que todos eles são comandados pela máfia dos transportes (e isso quem disse foia Veja, lá pelos idos de 1992). O finaciamento de vereadores é um escândalo... aliás existe coisa mais escandalosa do que Camara Municipal, o Congresso é pessímo, as assembléias idem, então tente imaginar as camaras municipais. Imaginou é muito, muito pior do que Você pensa. A daqui de BH então é um pavor. Dito tudo isso, vamos ao que interessa. As eleições a que me refiro são as presidenciais norte-americanas, afinal sejamos honestos conosco mesmos, não passamos de quintais deles mesmos. Duvida? Dê uma corrida na net que Você perceberá isso, ou então olhe para o governoi Lula. Dito isso, reproduzo abaixo os minicurriculos de todos os candidatos dos dois grandes partidos norte-americanos (a fonte é o site do Azenha, link aqui do lado). Qual será o menos ruim? Sei lá, para mim todos são péssimos, incluindo ai o Obama Barack (talvez mude de idéia, segundo o mesmo Azenha o cara realmente séria alguém de foram do main stream- a conferir, mas é uma fonte boa, afinal o Azenha morou lá nos states por 18 anos e conhece um bocado da política de lá), mas como o simbolismo importa. E muito. Esse blog já torce para que este afro-americano chegue ao poder. Ainda que tudo isso não passe de um devaneio, ou de um jogo de cena pseuo-democrático para no final, como sempre o eleito ser um representante da velha WASP: ou seja, um anglo americano branco e protestante.

PS: para sermos justos com todos, de fato tem algo de novo no marasmo eleitoral americano, mas todas prévias têm. Ou seja, aquele candidato mais libertario que não tem chance alguma. O dessa vez por incrível que pareça é um republicano, ele se chama Ron Paul e defende um ideario anarquista... em pleno partido republicano.
De qualquer forma atentemos para dois azarões, que devem dar trabalho, apesar de como sempre perderem a indicação de seus respectivos partidos, são eles: o já citado Obama Barack e Mike Huckabee (este do partido Republicano), um daqueles candidatos quadrados e conservadores que a gente acha que só existe na ficção.
Por enquanto este blog, aposta (que horror será os próximos quatro anos) em Hilary pelos Democratas e Rudolph Giulliani pelos Republicanos. Pelo menos com esses dois as crianças não serão obrigadas a ler a bíblia antes das aulas.

DEMOCRATAS:

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SENADORA E EX-PRIMEIRA DAMA HILLARY CLINTON - É a favorita. Senadora por Nova York e ex-primeira dama, faz campanha calcada em sua experiência. Votou a favor da ocupação americana do Iraque. Feito o marido, tenta ocupar o centro político num país polarizado.

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SENADOR BARACK OBAMA - É a surpresa. Promete a retirada das tropas americanas do Iraque em 18 meses, o aumento do salário mínimo e a redução da influência dos lobistas nas decisões do governo. Conta com os eleitores jovens para impulsioná-lo.

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SENADOR JOE BIDEN - Faz uma campanha de centro, com ênfase em sua experiência em política externa.

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EX-SENADOR JOHN EDWARDS - Defende a retirada americana do Iraque num período de dez meses, um sistema nacional de saúde que dê cobertura aos 40 milhões de americanos que não têm seguro de saúde e um programa para eliminar a pobreza.

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EX-GOVERNADOR DO NOVO MÉXICO BILL RICHARDSON - Propõe a retirada imediata do Iraque e o investimento dos U$ 10 bilhões gastos mensalmente naquele país em programas sociais, principalmente na saúde.

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CONGRESSISTA DENNIS KUCINICH - Pede o impeachment de Bush e do vice-presidente Dick Cheney. Tem o apoio do ator Sean Penn.

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SENADOR MIKE GRAVEL - Foi uma das vozes mais insistentes contra a ocupação do Iraque. Propõe a retirada das tropas em 120 dias, a entrega dos contratos de reconstrução para empresas iraquianas e a diplomacia com a Síria e o Irã.

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SENADOR CRHIS DODD - Integra o Comitê de Relações Exteriores do Senado há 25 anos. Propõe revitalizar a zona rural americana e reverter decisões do governo Bush que, segundo ele, ameaçam os direitos civis dos americanos.

REPUBLICANOS:

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EX-PREFEITO DE NOVA YORK RUDY GIULIANI - Faz do combate ao terrorismo o ponto forte de sua campanha, tentando relembrar os eleitores da atuação que teve como prefeito durante os atentados de 11 de setembro de 2001.

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EX-GOVERNADOR DE ARKANSAS MIKE HUCKABEE - Por ter governado o mesmo estado que Bill Clinton, tenta se passar por um Clinton da direita. É pela expulsão dos 14 milhões de imigrantes ilegais que vivem nos Estados Unidos e não acredita na teoria da evolução de Darwin. É pastor batista.

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SENADOR JOHN MCCAIN - Prisioneiro de guerra no Vietnã: "Enfrentamos um inimigo que tem o compromisso de matar americanos e destruir nossos valores." Defende um governo menor e corte de impostos. Enfatiza sua experiência em política externa.

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EX-GOVERNADOR DE MASSACHUSSETS MITT ROMNEY - "Militares fortes, economia forte, família fortes". Ele se apresenta como um gerente eficaz por ter experiência no governo e na iniciativa privada.

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FRED THOMPSON - Ator do seriado "Law and Order", o ex-congressista prega gastos militares, corte de impostos e jogo duro contra os imigrantes ilegais. Quer ser o Ronald Reagan do século 21.

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CONGRESSISTA RON PAUL - É libertário. Defende a extinção do imposto de renda, da Guerra contra as Drogas, do controle sobre a venda de armas e do Patriot Act, que dá poder ao governo federal em detrimento dos direitos civis. Quer que os Estados Unidos se retirem da OTAN e das Nações Unidas.

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CONGRESSISTA DUNCAN HUNTER - Defende uma emenda constitucional para definir o casamento como "união entre homem e mulher" e prega investimentos em Defesa como essenciais para a economia americana.




domingo, 30 de dezembro de 2007

Músicas, músicas e férias X

É PORRADA.

O ano era 1986, e o Rock brasileiro jamais seria o mesmo após o lançamento de Cabeça de Dinossauro, um dos 10 maiores discos de Rock do Brasil, na minha opinião. Veja bem Eu disse Rock e não Pop e nem mesmo BRock. Sim Rock em sua vertente crua e suja do Punk.

Segundo o músico e poeta Arnaldo Antunes, ex-titã "Ele foi o primeiro disco em que a gente conseguiu realizar plenamente nosso anseio sonoro". "Com ele, a gente conseguiu definir um público", acrescentou Nando Reis. "É até hoje o disco mais importante da gente", avaliou Tony Bellotto.

O estopim da criação deste álbum redentor na carreira dos Titãs foi a prisão de Arnaldo e Bellotto por porte de drogas, no caso heroína. "Polícia e Estado Violência são respostas bem diretas ao acontecimento da prisão", depôs Arnaldo. Insuflados pelo fato, os Titãs fizeram um disco de idelogia punk que questionava com letras corrosivas instituições tradicionais como Igreja, família e - claro - a polícia. Uma porrada! Para entendermos melhor, vamos aos títulos das músicas, poucas vezes elas foram tão diretas e objetivas. "Cabeça dinossauro" fez uma revolução na música brasileira, ninguém tinha feito ainda algo tão pesado e demolidor e mais que isso, o disco conseguiu um alto índice de vendas:

Cabeça de Dinossauro
AA UU
Igreja
Polícia
Estado de Violência
A Face do Destruidor
Porrada
Tô Cansado
Bichos Escrotos
Família
Homem Primata
Dívidas
O Que

Uma a uma todas as sacro-santas instituições da Sociedade foram sendo dinamitadas. Não se engane, os caras não estavam para brincadeira, cada uma das grandes instituições são expostas com uma crueza admirável, aos poucos o que sobra é uma genuína crítica a Sociedade burguesa, seus afetamentos, modos, comportamentos, mesquinhez e sonhos idiotizados. Não sobra nada de humano após a audição do disco, a humanidade que nos resta é sempre animalizada: assim somos primatas, não dignos de um banquete com os bichos escrotos, afinal escroto mesmo é o sistema financeiro e seus asseclas nos poderes constituídos. Escroto são os senhores capitalistas, afinal primatas selvagens, que entre outras coisas não compreendem a arte. Prova disso foi a recusa inicial da imprensa ao disco, só aceito após o mesmo tornar-se um fenômeno de vendas apesar dela. Na sequencia os Titãs ainda lançariam outro grande disco: “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, lançado no final de 1987, é uma continuidade de Cabeça Dinossauro.

Um pouco mais do disco

Em "Cabeça Dinossauro" os Titãs, que estrearam com a fama de bons moços, o genro que toda sogra queria ter, jogavam essa fama no lixo quando o vocalista Arnaldo Antunes e o guitarrista Toni Belloto foram presos por se envolver com heroína. Este fator somado a uma estética que o grupo já vinha procurando desde o disco anterior Televisão de 1985 (neste temos já uma semente do disco posterior com músicas como Televisão e Massacre), estes três discos Televisão, 1985; Cabeça de 1986 e Jesus de 1987 reune o que temos o melhor dos Titãs do Iê, Iê...

Cabeça é sem dúvida um dos mais primal, selvagem, brutal e pesado disco da história do Rock brasileiro (aqui consideramos as bandas do main stream). Seu peso não advém de distorções gravíssimas de guitarras ou bateria hipersônica; mas por que tal como a bestialização que o álbum busca denunciar sua sonoridade soa como uma captação do que o ser humano pode produzir de mais pré-histórico em forma de música moderna, e com uma lírica áspera e violenta que combina com a sonoridade: como já afirmei acima, os Titãs atacavam abertamente pilares considerados sagrados pela sociedade, como a Igreja, o Estado, a Segurança Pública, a família, o sistema bancário... A destruição que o homem causa ao seu próprio planeta também era atacada abertamente, todas críticas que soam terrivelmente atuais. Nenhuma perdeu o valor de crítica.




Em uma dessas muitas eleições e listas que costuma fazer, Cabeça em 1997 foi eleito o maior disco nacional da historia.

Só mais uma coisisnha que me chama a atenção nesse disco, a brutalização que os Titãs buscam denunciar, o terrível sistema, não perdoa ninguém e nem mesmo seus críticos, assim por um lado toda a podridão, hipocrisia, sujeira e barulho enlouquecedor que o disco busca denunciar se encontra fielmente na própria manifestação artística do grupo. Assim o crítico e o criticado acabam por se confundir. Por outro lado, e após o lançamento do disco, o sistema como que para vingar de seu algoz torna este disco um sucesso de mercado, ou seja, uma música para se consumir na "família", para gerar dividendos para o sistema capitalista, para enriquecer o "homem primata", para alegrar "a face do destruidor"... enfim, nada mudou. Mas "tô cansado" e endividado, pensar enlouquece então "Porrada nos caras que não fazem nada", inclusive nos Titãs. Rá,rá porrada neles também e Viva Cabeça, coloque o som no talo e grite bem alto, junto pois esta este álbum te liberta.

Agora com Vocês uma análise música a música, com ajuda do pessoal do Punk's 76 do Dangerous:

A percussão inicial da faixa Cabeça Dinossauro, adaptada de um ritual "Cerimonial Para Afugentar Maus Espíritos", dos índios do Xingu, anuncia o começo do fim. Letra concretista vociferada por Mello e que nos faz imaginar o que ainda há por vir.
A sequência é AA UU, sucesso de rádio e nos shows. Rotina e esquizofrênia em ritmo frenético. Os neurônios saem do transe e começam a se mover.parece uma reunião de macacos ensadecidos, gritando ferozmente o nome da música. A letra demonstra que eles estavam cansados da rotina proporcionada por um sistema sufocador, em versos como "Estou ficando louco de tanto pensar/Estou ficando louco de tanto gritar" e "Estou ficando cego de tanto enxergar/Estou ficando surdo de tanto escutar"
Igreja abre as portas para a redenção do rock. Se diziam que o rock estavam em ruínas, esta canção mostra o caminho das pedras para os descrentes.rápida e furiosa, mas ainda assim com bastante melodia em suas bases, nitidamente influenciadas pelo Punk Rock. Nando Reis, com uma voz bem diferente da habitual, está furiosíssimo, um animal, proferindo versos como "Eu não gosto de terço/Eu não gosto do Berço/De Jesus De Belém" e "Eu não gosto do papa/Eu não creio na graça/Do milagre de Deus". Um protesto contra as religiões elitistas e manipuladoras
Quando Polícia chega é como uma blitz mental. O som, a letra e o refrão chegam dando de cassetete nos tímpanos. A essas alturas os neurônios já estão rebelados e não conseguem mais ficar parados. A letra denuncia abusos de autoridade feitos pelas forças policiais, que culminam no gritado refrão "Polícia para quem precisa/Polícia para quem precisa de polícia"
Estado Violência traz primeiro a cozinha da banda: bateria e contrabaixo dão as caras primeiro. E quando se pensa em por ordem na mente, um grito precede o refrão e é como uma chibatada na espinha dorsal. Não tem mais volta, os neurônios estão em choque.é, digamos, uma das mais elaboradas do álbum. tem uma das letras mais ásperas do álbum com versos como "Estado violência/Estado hipocrisia/A lei que não é minha/A lei que eu não queria" (...) "Atrás de portas frias/O homem está só" (...) "Homem em silêncio/Homem na prisão/Homem no escuro/Futuro da nação!"
Um silêncio, dois segundos e A Face do Destruidor traz um hardcore de 38 segundos. O suficiente para fazer qualquer um se enxergar na capa do disco."O destruidor não pode mais destruir porque o construtor não constrói (...) A face do destruidor!"
Porrada chega para deixar claro que todos merecem alguma coisa, nem que seja porrada. E tome mais porrada nos neurônios. Arnaldo Antunes começa elogiando o sistema de ensino, o sistema judiciário, as pessoas ricas, o Estado, o Exército, o sistema bancário... Até que a banda toda grita contra todos esses que propõem uma sociedade conformista: "Porrada/Nos caras que não fazem nada!"
É nesse momento do disco que a mente pede um copo de água. Talvez por isso Tô Cansado tenha sido colocada no final do Lado A do disco. Mas que cansado que nada, os neurônios que se explodam. É hora de virar o disco e ver do que essa banda ainda é capaz. Cansada de tudo, o 'eu' da música não quer mais saber de si mesmo, de coisas comuns, de coisas raras, do moralismo amoral da sociedade, cansado de tanto levar ferro no cobre por parte dos governantes.
O riff inicial de Bichos Escrotos afirma que os neurônios não terão paz novamente. Bichos muito tocou nas rádios, apesar de ser uma canção com radiofusão e execução pública proibidas. É uma canção atualíssima ainda. "Oncinha pintada/Zebrinha listrada/Coelhinho peludo/Vão se foder!/Porque aqui na face da Terra só bicho escroto é que vai ter!". Analogicamente, retrata a destruição que o homem causa a si próprio, destruindo tudo que é belo e deixando tudo... escroto.
Família deixa clara a afirmação acima. E cá entre nós, quem nunca passou pelas situações descritas nessa música? "Família, família/Almoça junto todo dia/Nunca perde essa mania" soa cáustica na voz animada e sarcástica de Nando Reis
Assim regredimos no tempo e nos encontramos em Homem Primata. Os neurônios já não sabem mais para onde correr. Flashes de ontem e hoje efervescem e borbulham na mente fervilhante e voltamos à realidade. Focaliza a destruição causada pelo homem ao próprio planeta e a si mesmo. Versos polêmicos como "Desde os primórdios/Até hoje em dia/O homem ainda faz/O que o macaco fazia" e "Eu aprendi/A vida é um jogo/Cada um por si/E Deus contra todos/Você vai morrer e não vai pro céu/É bom aprender... A vida é cruel!",
Só assim para lembrar que a vida continua. Dívidas nos coloca novamente no lugar nos fazendo lembrar da evolução do homem primata ao homem capitalista. Na verdade são mimeses um do outro."Meu salário/Desvalorizou (...) Senhores, senhores, senhores/Tenham pena de mim!".
O disco encerra com O Quê. Uma das canções mais especutaculares entre as executadas nos shows da banda. O mais engraçado é que 'o quê' é a pergunta que se faz na maioria das faixas do disco. Os neurônios voltam ao mesmo transe enigmático do início do disco.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Músicas, músicas, férias IX

“I'M BLACK and I'M PROUD. I FEEL GOOD”

Podemos nos últimos post fazer uma pequena revisão da Soul Music brasileira. Na verdade muito vai ficar de fora, mas a idéia foi divulgar um pouco mais o Soul Brasileiro. Muita coisa boa ficou de fora. Seja por opção própria, como a exclusão de Tim que mereceria um Blog só para sua gorda musicalidade, e outras por que até mesmo nós, apesar de fãs não temos acesso a raridades como Gerson King Combo ou Black Rio e outros geniais do Soul brasileiro obscurantizados pelo sistema.

A música black brasileira da década de 70, influenciou e influencia grande parte da produção musical contemporânea, desde todo o rap nacional, passando pelo “funk” carioca, até o trabalho de artistas como O Rappa, Seu Jorge, D2, Paula Lima, Funk Como Le Gusta dentre tantos outros. Muitos desses trabalhos têm sido relançados em CD, como o Racional do Tim Maia, o disco do Hyldon, Maria Fumaça e outros da Black Rio. Alguns outros podem ser baixados na rede, ou então garimpados em sebos de vinil.

Discoteca Básica
- Black Soul Brothers: Miguel de Deus (1974)
- Na rua, na chuva, na fazenda: Hyldon (1974)
- Trio Esperança: Trio Esperança (1974)
- Nesse Inverno: Tony Bizarro (1974)
- Racional vols. 1 e 2: Tim Maia (1974/5)
- Cuban Soul: Cassiano (1976)
- Gérson King Combo: Gérson King Combo (1977)
- Maria Fumaça: Banda Black Rio (1977)
- Venha Matar Saudades: Carlos Dafé (1978)
- Melô do Mão Branca: Mão Branca (1979)
- Toni Tornado: Toni Tornado (1972)
- Dom Salvador: Dom Salvdor (1969)
- Dom Salvador e Abolição: Som, Sangue e Raça (1971)
- Jorge Bem: Negro é lindo (1971)


Músicas, músicas, férias VIII

As Dores do mundo

O teu olhar caiu no meu
A tua boca... na minha se perdeu!
Foi tudo lindo, tão lindo foi
E nem me lembro
Que veio depois...

A tua voz dizendo amor
Foi tão bonito
Que o tempo até parou
De duas vidas, uma se fez
Eu me senti
Nascendo outra vez...

E eu vou!
Esquecer de tudo
As dores do mundo
Não quero saber
Quem fui
Mas sim quem sou
E eu vou!
Esquecer de tudo
As dores do mundo
Só quero saber do seu
Do nosso amor...

O teu olhar caiu no meu
A tua boca... na minha se perdeu!
Foi tudo lindo, tão lindo foi
Eu nem me lembro
Que veio depois...

A tua voz dizendo amor
Foi tão bonito
Que o tempo até parou
De duas vidas, uma se fez
Eu me senti
Nascendo outra vez...

E eu vou!
Esquecer de tudo
As dores do mundo
Não quero saber
Quem fui
Mas sim quem sou
E eu vou esquecer de tudo
As dores do mundo
Só quero saber do seu
Do nosso amor...

E eu vou...
Esquecer de tudo
As dores do mundo
Não quero saber
Quem fui
Mas sim quem sou

E eu vou esquecer de tudo
As dores do mundo
Só quero saber do seu
Do nosso amor...(2x)

E eu vou!
Esquecer de tudo
As dores do mundo
Não quero saber
Quem fui
Mas de quem sou
E eu vou esquecer de tudo
As dores do mundo
E eu vou esquecer de tudo
As dores do mundo
E eu vou esquecer de tudo
As dores do mundo
E eu vou!...
Hyldon

Eis em minha opinião uma das letras mais bonitas do cancioneiro brasileiro. Um dos grandes representantes da Soul Music brasileira, que formou um trio imbativel ao lado de Tim Maia e Cassiano, o cantor, violonista e compositor baiano Hyldon tocou com os Diagonais (de Cassiano), Wilson Simonal, Tony Tornado e Tim Maia (de quem foi parceiro) e produziu discos de Jerry Adriani, Erasmo Carlos e Odair José. Teve seu primeiro e maior sucesso em 1975, com a balada "Na Rua, na Chuva, na Fazenda", título de seu primeiro disco, que ainda estourou "Na Sombra de uma Árvore" e "As Dores do Mundo". Gravou "Deus, a Natureza e o Amor" em 1976, sem conseguir repetir o êxito comercial. Recomendo ambos. Hyldon gravou ainda alguns discos (3) nos anos 80, em que sua verve de poeta continua inatacável, no entanto musicalmente a um certo distanciamento do Soul-funk. Ele foi re-gravado nos anos 90 através de bandas como o Kid Abelha, que regravou "Na Chuva" e do Jota Quest, que fez o mesmo com "As Dores do Mundo". Autor dos hits, Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda e As Dores do Mundo, o soul man Hyldon lançou nos anos 90 pela BMG o álbum Meu Primeiro CD – A Turminha do Bebê. É um projeto para a primeira infância. Mas ao contrário das tradicionais canções de ninar, o disco é uma tentativa lúdica de contar como é o dia do bebê.

Músicas, músicas, férias VII

Eu sou tão fã das composições do Cara abaixo (e também de Hyldon), que não me sinto a vontade de comentá-lo, a Cassiano só consigo reverencia-lo e me emocionar sempre que ouço suas canções. Em uma expressão: Ele é um letrista genial. Mas isso seria pouco para descrever a influência do cara sobre a MPB- Música Preta Brasileira, na excelente expressão de Sandra de Sá, aliás Ela própria uma interprete divinal de Cassiano (a este respeito já fiz uma pequena crítica do disco MPB dessa interprete, aqui mesmo no Blog- quem estiver interessado busque na memória do blog, no mês de outubro). Aqui recomendo que ouçam os três discos do Cara, ainda que alguns seja mais difíceis de encontrar mesmo na Net.

Fiquem com o texto de B'side a respeito desse Cara.

É a hora de conhecer o trabalho de um dos mais brilhantes compositores da nossa MPB em qualquer tempo: Genival Cassiano dos Santos, ou simplesmente, Cassiano.
Nascido há 62 anos em Campina Grande, na Paraíba, veio para o Rio em fins da década de quarenta. Na Cidade Maravilhosa, aprendeu com o pai a tocar violão e bandolim e aos 19 anos, entrou para o meio artístico como integrante do grupo Bossa Trio, mais tarde rebatizado de Os Diagonais - que participariam nos três primeiros discos de Tim Maia fazendo os vocais de apoio.
Cassiano já alçara vôo solo quando Tim surgiu como uma bomba na MPB, cantando uma de suas primeiras composições: o eterno hit "Primavera (Vai Chuva)".
A letra pungente e a interpretação marcante do inesquecível Tim Maia mostraram o gênio de Cassiano - imediatamente convidado para gravar um disco em 1971. Imagem e Som. Seu primeiro trabalho-solo revelou outros ases na manga além de "Primavera". Vieram à luz "É isso aí" (não, não é a da Ana Carolina, garanto aliás que é melhor), "Já", "Uma lágrima" e "Não fique triste".
Com arranjos de Waldyr Arouca Barros, o trabalho de estúdio foi primoroso. O antigo grupo de Cassiano participou dando uma canja nos vocais e no baixo reinou o lendário Capacete, comparado a James Jamerson, craque do instrumento e músico número um de estúdio da não menos conhecida gravadora americana Motown.
Cassiano reapareceu em 1973 com um disco ainda melhor: Apresentamos Nosso Cassiano, pelo selo Odeon. E saíram do forno composições inspiradíssimas. "Melissa" foi uma homenagem à filha nascida dois anos antes. "A Casa de Pedra" é um soul-progressivo de diversas quebradas rítmicas e devastador - literalmente - porque nenhum coração de pedra resiste à beleza da letra e da interpretação do cantor / compositor. Só ouvindo a música pra saber mesmo como é...
E foi nessa época em que ele compôs aquela que é considerada a melhor música dele. "Cedo Ou Tarde" foi referência para dezenas de artistas da MPB que beberam da fonte da boa música, caso de Ed Motta, que apresentou a canção à Marisa Monte para que ela a regravasse.
Simplesmente sensacional...
Novo sumiço e Cassiano voltou em 1976, com um novo parceiro, Paulo Zdanowski, jovem de 19 anos que formaria algum tempo depois o grupo Brylho da Cidade - aquele mesmo de "Noite do Prazer". E aí foi lançado o terceiro e, pasmem, último disco do compositor: Cuban Soul - 18 Kilates, tão brilhante quanto seu antecessor.
"Coleção" foi um sucesso estrondoso por causa da novela Locomotivas, da Globo. "A lua e eu", outra balada que até hoje todo mundo acima dos 30 anos se lembra com carinho. "Salve essa flor", uma das preferidas dos seus fãs.
E ainda havia "Hoje é Natal", disparada a melhor música falando sobre o tema. Esqueçam "Noite Feliz", "Jingle Bells" e "Boas Festas". Cassiano sintetiza em pouco mais de três minutos e meio a singeleza desta data comemorada mundialmente.
O mais engraçado e o que me impressiona, nao só a mim mas a todos os fas do genero é que um monstro da MPB igual ao Cassiano já vai completar 30 anos sem fazer um único disco. Com tanta porcaria dominando as paradas, isto é incrivel !!!!
Felizmente ele nunca foi esquecido. Nos anos 90, ele reapareceu para gravar seus grandes sucessos com outros artistas - Luiz Melodia, Ed Motta, Sandra de Sá, Marisa Monte e muitos outros - o disco-tributo Cedo ou Tarde (Como sempre!).
Sem deixar de dizer que a delonga pra gravar ou aparecer em publico foi realmente motivos de saude
E o mesmo Ed Motta voltou a pagar tributo ao mestre em 2000, compilando 14 de suas grandes músicas para a Universal / Dubas Música e apresentando enfim o primeiro CD de Cassiano - Coleção. Que todos por obrigação deve ouvir inteiro até furar!

Glória eterna a Genival Cassiano dos Santos.

Ou seria... Genial Cassiano?




Músicas, músicas, férias VI

The King of Brazilian Soul Music, a expressão caberia como luva para o próximo bacana que vamos focalizar, Toni Tornado. Ok dos focalizados até agora talvez Tornado seja o mais fraquinho? Será??? A frase acima é só uma brincadeira com o tamanho sucesso alcançado por Tornado, quando comparados a outros companheiros do Soul Brasileiro. Tornado, alegarão os mais resistentes se perdeu no meio da sonzeira Pop comercial, o que é meia verdade. o que é meia mentira... que ele optou por ser um ator de segundo plano no meio global e etc, etc e daí... o verdadeiro Tornado é este, retratado pelo álbum Toni Tornado de 1972:

A respeito deste disco escreveu Marcel Cruz:
James Brown ficaria orgulhoso se ouvisse esse disco, lançado em 1972 o álbum foi todo orquestrado e tocado por Dom Salvador (O Pai Do Funk Brazuca). Essa época Toni só andava em boa companhia, haja visto pelo seu primeiro disco lançado em 1971 e orquestrado por "monstros" como Paulo Moura, Waltel Branco, Leonardo Bruno e Orlando Silveira além do já citado Dom Salvador. É impossível ficar parado ao ouvir o álbum, todas as faixas são de tirar o fôlego e a maioria é de autoria do próprio Toni. Meu destaque vai para: "Não Grile A Minha Cuca" Dom Salvador esmerilhando no Piano, "Torniente", "Podes Crer, Amizade" hit da época, "Aposta" maior quebradeira!, "Uma Idéia" de Marcos e Paulo Sergio Valle, arranjo e letra fenomenal (é um lamento e é a que mais gosto) e "Tornado".

Músicas, músicas, férias V

Dom Salvador mais um nome obscuro para os que não são "fãs de carteirinha" do Soul Music brasileiro. Este músico é autor de pelo menos dois belissímos discos: Dom Slavador de 1969 e Som, Sangue e Raça de 1971.

Sobre o álbum Dom Salvador, Marcel Cruz escreveu:

Eis aqui a Gênese do Funk Brasileiro! (Samba Funk Samba Soul) Dom Salvador álbum gravado em 1969 que se tornou peça fundamental e serviu como norte para uma estética que desembarcava na terrinha a todo vapor, esse é um dos primeiros discos brasileiros com características funk, depois dele surgiram vários outros. Dom Salvador vinha duma linhagem bossa nova ou MPM (Música Popular Moderna) como alguns denominavam, antes desse álbum Dom trabalhou, entre tantos, com Elis Regina e Waltel Branco além de encabeçar dois projetos fabulosos: o Dom Salvador Trio e o espetacular Rio65 Trio junto com o baterista Edison Machado.

Ao que acrescento, este disco de fato é um marco do som que começava se fazer presente na terra brasilis. O segundo álbum que recomendamos é Som, Sangue e Raça em que Dom é acompanhado do grupo Abolição. Este grupo existiu somente por um ano, o suficiente para gravar essa obra prima. No entanto essa raiz musical produziu muitos outros frutos como a Banda Black Rio encabeçada por Oberdan, integrante dos mais importantes do Abolição e mestre indiscutivel dos metais. Este disco que traz algumas regravações do álbum anterior de Dom Salvador radicaliza no Swingue da Soul Brasileira. A ótima Abolição dá verdadeiros shows de musicalidade e improviso, aqui de forma definitiva o Soul Brasileiro começa se afirmar como uma música própria, ou seja que bebia na fonte norte-americana mas acrescentava a essa, toda a uma sonoridade genuinamente brasileira, o funk-sambeado. Meus amigos bem vindo aos inesquecíveis anos 70 brasileiro.

Dom Salvador tem um site, todo em inglês. Vá lá e descubra toda a genialidade desse pianista exímio. Aliás faço o seguinte ouça as "pauleiras" da fase Soul e depois se deleite com o refinado Jazz que o músico produz atualmente, em New York. Ladies e Gentelman é fabuloso, jogue fora o espírito vira-lata e veja que o Jazz brasileiro não deve nada aos monstros sagrados norte-americanos. Fica combinado então, assim que Você for a New York vá correndo no New York City's Water Club and Brooklyn River Cafe. Aliás no site de Dom Salvador tem uma descrição de sua música e a respeito do cantor, afie seu inglês e leia a página inicial, pois lá esta escrito o essencial sobre esse artista : http://www.domsalvador.com/base.htm

Um pouco mais sobre Dom Salvador:
Salvador da Silva Filho mora nos Estados Unidos há mais de vinte anos e como tantos outros gênios brasileiros ele foi esquecido pelo seu próprio país. De prodígio do samba jazz a messias do movimento Black Rio, Dom Salvador teve uma trajetória espetacular como músico, arranjador e compositor. Hoje, apesar de tocar piano num restaurante de Nova York e gravar raramente, seus discos dos anos 60 e 70 são caçados por todo mundo e valem, sem exceção, algumas centenas de reais cada um. Assim que chegou ao Rio de Janeiro vindo da cidade paulista de Rio Claro, fez parte do fervilhante movimento samba jazz liderando dois dos mais importantes trios da época, o Rio 65 Trio e o Salvador Trio, gravou no mesmo período dois discos com cada grupo.
LP Dom Salvador: autêntico groove brasileiro ,todos eles imprescindíveis à qualquer fã de música boa. O Rio 65 tinha Sérgio Barroso no baixo e a avalanche Edison Machado na bateria. O repertório do primeiro LP é mais bossa mas com um ataque feroz meio "be bop". A impressão é que o trio queria mostrar serviço, e acabaram conseguido, quebradeira total.No LP seguinte "A Hora e Vez da MPB." eles já estão mais maduros, o som é mais redondo e contido, com menos agressividade mas com mais consistência. As versões são mais originais e há mais composições de Salvador, aliás até o fim dos anos 60 ele era chamado apenas de Salvador, o Dom veio com o tempo, como uma coroação que as vezes era dada pra quem sabia tudo.
O primeiro álbum com Salvador Trio, com Edson Lobo no baixo e Victor Manga na bateria, tinha uma sonoridade mais jazz, o que já anunciava os caminhos que Salvador traçaria no futuro, e praticamente só composições próprias. O LP tinha uma capa que abria em três partes, bem diferente para época. O disco seguinte já tem Sérgio e Edison de novo na formação do trio e novamente uma pegada mais samba jazz, provavelmente por causa do estilo único de Edison Machado.
Até 1969 Dom Salvador só trabalhou como arranjador e pianista, gravou com meio mundo da bossa e da MPB e se aprimorou, incorporou soul e funk ao seu estilo brazuca e marcou a história da música negra no Brasil com seu disco "Dom Salvador" de 69. Ali ele criou o som que depois Tim Maia, Diagonais, Toni Tornado e Banda Black Rio também acabaram fazendo, autêntico groove brasileiro, o embrião do samba soul. A capa já mostra que ele não estava ali pra brincadeira e o texto explica que a intenção era mesmo fazer um disco de música negra não só brasileira como universal. Desse momento em diante Dom Salvador passa a mostrar seu lado mais autoral e original, o que talvez tenha até atrapalhado sua carreira, a maioria das pessoas não gosta de novidade e muito menos de ousadia.
A nova onda de Salvador foi lapidada por dois anos e culminou na sua obra prima de 1971 "Som, Sangue e Raça". Criou um monstro chamado Abolição, uma banda formada por ex-componentes dos grupos Cry Babies e Impacto 8 que játocavam soul no fim dos anos sessenta, adicionando metais, percussão e vocais a seu som.
O resultado é sofisticado e denso, a mistura de ritmos e estilos é ainda maior e mais perfeita, sem dúvida um dos melhores discos brasileiros de todos os tempos. Nos anos seguintes Dom Salvador continua trabalhando como arranjador e músico, até que em 1973 muda pra Nova York e nunca mais volta ao Brasil. Por lá grava em 1976 seu disco mais desconhecido por aqui, o "My Family", com um único brasileiro na banda, o baterista Portinho, e bambas do jazz local como Justo Almario que tocava com Roy Ayers.
Nesse álbum ele volta ao jazz mas com uma pegada mais post bop, típica da época, um som mais livre onde ele mostra de novo seu virtuosismo no piano. Nesse período trabalha com alguns músicos americanos como o flautista Lloyd Mcneil, com quem gravou o incrível disco "treasures", aliás com Portinho na bateria. Os dois discos do "Salvador Trio" e o "Som, Sangue e Raça" chegaram a sair em CD mas só o segundo "Salvador Trio" está em catálogo (pela ótima gravadora inglesa Whatmusic), o negócio é torcer pelos relançamentos.
Rodrigo Piza, lojista e colecionador

Músicas, músicas, férias IV

Libere seu corpo meu irmão Libere sua alma, sua alma, sua alma, sua alma, sua alma....
A letra acima é de Miguel de Deus.

Um pouco sobre Miguel:

Miguel de Deus é um dos músicos mais versáteis dos anos 70, e ao mesmo tempo menos conhecido do grande público. Miguel nasceu em Ilhéus, na Bahia. Já morando no Rio de Janeiro em meados de 1969, formou a banda "Os Brazões" que explorava as influências africanas na música e na maneira de vestir e dançar. A banda fazia uma mistura de rock e psicodelia com elementos da música brasileira e africana. A banda acompanhou Gal Costa em uma de suas turnês no final dos anos 60.
Em 1974, Miguel de Deus criou a banda "Assim Assado", uma espécie de resposta ao sucesso do grupo Secos e Molhados. Em 1977, Miguel de Deus criou talvez o LP mais obscuro da black music setentista brasileira. O disco "Black Soul Brothers". Sobre esse disco não comentarei nada. POR FAVOR OUÇAM O DISCO É LINDO. Aliás, ao escutar o álbum siga os conselhos abaixo do amigo Daniel, que é um estudioso da musica popular brasileira. O que ele escreve sobre o post publicado abaixo, serve como luva para o álbum de Miguel de Deus:

Outro dia, estava conversando com o From Hell sobre como com o passar do tempo aprendemos a ler. Ao entrar na faculdade presumimos que sabemos ler. Ledo engano. Ao reler textos daquela época percebi como eram fáceis, básicos mas que no entanto nos causavam enormes dificuldades. Nossa capacidade cognitiva só vem aumentando desde então. Hoje podemos ler textos muito mais complexos sem a dificuldade que apresentávamos antes. Com a música o aprendizado é o mesmo. não sabemos ouvir. Não nos permitimos ouvir. Ouvimos a música sem prestar atenção na música em si. Nos concentramos em alguns trechos, na letra, um solo, mas não na totalidade. Assim como com a nossa capacidade de leitura, devemos apurar nossa capacidade de audição. Experimente ouvir o álbum sugerido no post atentando para toda sua magnitude. Preste atenção à todos os instrumentos e não só a voz de Ben. Com certeza irá descobrir uma música além da música. Nada que está ali está por acaso. Cada nota, instrumento, pausa, palavra, tem sua função e portanto deve ser apreciada de igual maneira.






sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Músicas, músicas e férias III

O terceiro disco que focamos chama-se "O negro é lindo" de 1971. Na vasta e qualificada discografia de Jorge Ben, este disco não não foge a regra e é um marco duplo: primeiro por sua adesão definitiva ao movimento Black Power, que fica claro na capa do disco e de forma definitiva a partir do anos de 1972 quando o cantor adota o famoso cabelão Black Power (veja capa do disco de 1972 On Stage). No entanto, é nas letras que essa adesão se explicita. O disco tem dez músicas, eis alguns dos títulos: Cassius Marcelo Clay em homenagem a Mohammed Ali, singela mas bastante bonita principalmente quando Ben compara a figura garbosa de Clay a Estátua da Liberdade (tamanha poesia engajada não é comum de se encontrar). Além dessa nessa mesma direção temos a faixa título Negro é Lindo, Zula, Comanche em homenagem a Joao Parahyba do Trio Mocotó, o disco ainda conta com uma música que viraria um clássico da obra do cantor-compositor Que Maravilha.

A segunda característica marcante deste disco se refere a sua musicalidade é um álbum marco na carreira de Jorge Ben, pois é a partir dele que Jorge adere ao Samba-Soul e Samba-Funk, da pra notar uma "sensível" mudança na batida do seu violão.

Com esse disco iniciamos tal como escrevi no primeiro post com esse título, comentários sobre albuns e artistas do Soul Music brasileiro. Tentaremos mostrar o swingue musical e a importância política dessa forma de musicalidade.

Músicas, músicas e férias II

Seguindo o post anterior onde focamos os Afro-sambas de Baden Powell, Quarteto em Cy e Vinicius de Morais, agora é a vez de Moacir Santos e o maravilhoso disco chamado Coisas de 1965.
Sobre o maestro pernambucano Moacir Santos a homenagem mais bonita veio em forma de poesia música, no Samba da Benção com letra de Vinicius de Morais e música de Baden Powell, em determinado trecho da poesia, Vinicius assim se refere a Moacir:

A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos

Moacir foi um dos maestros mais "alto nível" que tivemos e influenciou meio mundo, figurinha de suma importância no meio musical na época da bossa nova e do cinema novo. O álbum "Coisas" é sua obra prima, foi lançado em 1965 pelo selo Forma e algumas faixas contidas nele foram trilha do filme "Ganga Zumba" de Cacá Diegues e "Os Fuzis" de Ruy Guerra lançado em 1964, essas trilhas acabaram sendo uma espécie de preparo para o disco em si. O Lp desse álbum é raríssimo e disputadíssimo, no entanto o mesmo já se encontra em CD lançado pelo selo Dubas. É mais um daqueles discos para ouvidos finos. Nossa um disco lindo que não deve em nada as grandes produções internacionais de Jazz.

Um pouco mais sobre o maestro e sua obra:
Nascido na pequena Vila Bela, em Pernambuco, migrou para o Rio de Janeiro no final da década de 40, onde começou a tocar em bailes. Logo passou a integrar a orquestra da Rádio Nacional, na qual permaneceu por 18 anos, no início como saxofonista, depois como maestro e arranjador. Foi professor de ninguém menos que Paulo Moura, Baden Powell, Nara Leão e Eumir Deodato, entre outros.
Vivendo desde o final dos anos 60 nos Estados Unidos, ficou um tanto esquecido por aqui. Com o modismo da lounge music algumas de suas Coisas pipocaram, desmerecidamente de maneira redutora, em coletâneas para fundo de conversa. Pelo menos um dos dez temas do disco, o de n.º 5, popularizado como Nanã, está no inconsciente coletivo. Depois de ganhar letra de Mário Telles, virou clássico da bossa nova. A de n.º 2 é outra das mais difundidas.

Segundo B'side, este álbum tem importância histórica:

Isto porque simboliza um manifesto abrangente sobre a grande influência da música negra na mais funda brasilidade, numa época em que qualquer atitude política simbolizava um ato e tanto de coragem. E a afirmação da negritude ainda pairava no plano da utopia. No entanto, como lembra Roberto Quartin no texto de apresentação do disco, Moacir "deu um grito de desespero afinado", sem panfletagem, "dando sentido social à música, sem que para isso se precise mediocrizá-la".

Leia abaixo o texto de Roberto Quartin, apresentação do álbum que se encontrava no encarte do Lp:


"Ao reunir suas composições, Moacir Santos criou, mais do que um disco, um documento histórico autêntico dentro do mapa da música popular brasileira. Autêntico,pois trata-se de um músico negro escrevendo música negra e não de um garoto de Ipanema contando as tristezas da favela ou de um carioca que nunca foi alémde Petrópolis a enriquecer o cancioneiro nordestino. Histórico, em primeiro lugar, por conter uma síntese completa e expressiva do formidável papel queo negro desempenhou em toda a formação de nossa música popular. Este disco é negro desde a capa até o vinilite, do músico ao som que se ouve. Também histórico,porque Moacir mostra, como um Edu Lobo ou uns poucos mais, que se pode dar um sentido social à música, sem que para isso precise mediocrizá-la.
Pode se dar um grito de desespero sem que ele seja de mal gosto e sem que para isso precisamos regredir musicalmente, para mostrar tudo isso, moacir esperou muitos anos e so o fato de ter conseguido dizer o que queria no momento em que o panorama musical brasileiro anda conturbado, onde as maiores aberrações sao aceitas e aplaudidas, o coloca definitivamente num pedestal de importancia historica de dimenções incalculaveis Moacir confere dignidade a tudo quanto escreve. É um musico que vai a raizes.
O sentido de brasilidade de uma musica é impressionante. vai as raizes, mas o faz objetivamente, dinamicamente. ele busca e ele pesquisa.
O que este seu dsico acrescenta a musica brasileira nao somente no plano harmonico, mas como no plano ritmico, vem demonstrar sobejamente esta objetividade, alem de abrir novos caminhos.
infelizmente, ultimamente o ambiente musical brasileiro, se subdividil mais do que nunca. de um lado os musicos chamados de extrema direita, ou seja, que passam a vida fazendo "amor rimar com flor" e fingindo que desprezam a outra corrente musical. de outro lado a "outra corrente musical", que gasta o tempo falando em "autenticidade", "musica do povo" e mal dos que vao pro estrangeiro divulgar a nossa musica (até que eles proprios viajam levandona bagagem um catalogo de desculpas).
O que a maioria esquece é fazer o que é bonito,o que é bom, o que é musicalmente valido e de que, antes de tudo, eles sao musicos.
Nao sei até hoje se Moacir Santos é de extrema direita ou de extrema esquerda,mas sei que ele é de extrema musicalidade,de extrema honestidade consigo mesmo. insisto em repetir: Moacir Santos é antes de tudo, um musico.esse seu disco pode ser um grito de desespero contra tudo isso que está errado, contra tudo que impediu que fosse ele reconhecido mais cedo, posso,porem, assegurar: Moacir deu um grito de desespero afinado."

Roberto Quartin

NADA SUBSTITUI SUA AUDIÇÃO. RECOMENDO QUE CORRAM ATRÁS É UM DISCO ATÉ RELATIVAMENTE FÁCIL DE SE CONSEGUI NA INTERNET, MAS BAIXEM O DISCO TODO E OUÇAM COMO UM ÁLBUM. Este álbum é um dos 100 maiores discos de todos os tempos da música brasileira, de forma mais exata foi escolhido o 23° disco mais importante de nossa música.

PS: para os que se preocupam com a cópia de música pela intenet, como recomendo neste e no post abaixo, com a palavra o Ministro da Cultura:

" Processar quem baixa música pela internet está na contramão da própria ambição do mundo produtivo e tecnólogico"
Gilberto Gil,
Ministro da Cultura


Músicas, músicas e férias

Amigos, depois de um longo tempo de muita correria profissional e acadêmica estou tendo alguns dias de folgas (olha já até me desacostumei a falar a palavra férias). O bom dessas pequenas férias é que me liberei de outros afazeres (até parece né...mas estou mais livre) até pelo menos o dia 05 de janeiro e isso tem me permitido fazer o que mais gosto. Ou seja, ouvir música.

Como é sabido por alguns eu amo (e não tem exagero nessa expressão) a antropologia, mas serei sempre um frustrado, por não ser músico ou trabalhar com música. Por iso ouço tanta música. Aliás gosto tanto de música que já pensei várias vezes em estudá-la do ponto de vista das ciências sociais, mas gosto tanto que não consigo distanciamento crítico. Mas estava repensando sobre isso esses dias, quando estou podendo ouvir boas músicas e novamente me deu vontade de escrever sobre o tema... quem sabe no futuro, quem sabe até pensarmos em um grupo de estudo sobre esse tema tão relegado em nossas ciências sociais da UFMG. Tudo isso para dizer que cada vez mais aprofundo minhas pesquisas amadoras sobre as músicas brasileiras que se referem ao universo das religiões afro-brasileira. E cada vez me surpreendo mais, com o grande número de músicas, gravações sobre o tema. Durante os anos sessenta e setenta as religiões afro tiveram grande repercussão na vida cultural brasileira, a ponto de vários e importantes artista se converterem a essas religiões, tal conversão somada a genialidade musical brasileira nos presenteou com grandes obras. Após os anos 80 com a assunção das neo-petencostais vemos um influxo e (até mesmo a perseguição) dessas formas culturais. Todo esse tema daria um belo estudo de pós-graduação.

O fato é que temos excelentes canções e belos álbuns, entre os quais destacamos a vastíssima obra de Clara Nunes, a persistência desse tema em toda a obra de Maria Bethania (com destaque para um dos maiores discos de todos os tempos, na opinião desse que escreve- Brasileirinho) Gilberto Gil, Jorge Ben e outros. Aliás minha outra grande e imensa paixão que poderia se juntar no tal projeto de pós-graduação é a chamada Soul Music. E ai podemos ver como no Brasil estes dois temas se embricaram. Aliás e infelizmente a Soul Music brasileira é muito pouco comentada, mas possui obras geniais(e não digo somente musicalmente, mas também em termos de letras) não acreditam? Corram atrás.

Pretendo nos próximos dias (veja bem é só uma boa intenção- e o inferno esta cheio delas) antes de viajar novamente a trabalho dividir com Vocês um pouco dessas paixões. E de certa maneira revermos os maravilhosos afro-sambas e Cassiano, Hyldon, Simonal e outros (só como lembrete, aqui em BH sempre existiu um movimento soul forte, o pessoal que hoje promove o Baile da Saudade e o Quarteirão do Soul, pois bem converse um pouco com eles e vocês verão além de tudo a importância política desse movimento- as várias prisões de seus membros- e tente entender esse movimento dentro do contexto maior e internacional- ou seja, em consonância com as lutas do Partido Marxista Panteras Negras, Black Power e outros) enfim...

Para começar abaixo um pequeno texto sobre o Álbum "Os Afro-Sambas"de Baden Powell, Qurteto em Cy e Vinicius de Moraes, de 1966, escrito por B'side. Meus amigos não tenha dúvida Vocês estão diante de um momento histórico na música brasileira. Mas entendam ler este texto é vital para entender um pouco dessa obra, MAS NADA SUBSTITUI SUA AUDIÇÃO. É UM DISCO GENIAL, MARAVILHOSO. Os Afro-sambas foram considerados um dos 100 maiores discos de todos os tempos da música brasileira, de forma mais exata foi escolhido o 29° disco mais importante de nossa música.

Queria por fim escrever algo sobre Baden Powelll definitivamente um dos gênios da brasilidade, mas pensei melhor e preferi não escrever nada, uma vez que iria me chatear (como me chateio agora) ao perceber que este músico genial, aclamado e adorado no exterior autor das mais belos arranjos aos Órixas, já no fim da vida e convertido a uma dessas denominações neo-petencostal renegou uma das maiores obras de todos os tempos. Enfim é a vida, quem somo nós para julgá-lo, o fato é que sua obra fala por si só e é definitiva. Ainda hoje após vários anos de sua morte é aclamada e estudada nos maiores conservatórios de Música do Mundo. Por fim alguns detalhes, a sonoridade desse disco é ímpar, pois bem o gênio de Baden sempre a considerou uma gravação ruim, por fim para mim apesar de Canto de Ossanha ter virado um clássico, adoro a estupenda Canto a Xangô e canto a Iemanjá, que roga ao órixa através de uma declaração a uma moça carioca da praia, nada mais justo para homenagear Janaina. DE VERDADE RECOMENDO QUE CORRAM ATRÁS É UM DISCO ATÉ RELATIVAMENTE FÁCIL DE SE CONSEGUI NA INTERNET, MAS BAIXEM O DISCO TODO E OUÇAM COMO UM ÁLBUM.

Os_Afro-Sambas - Baden Powell, Quarteto em Cy e Vinícius de Moraes, 1966, por B'side

Considerado por muitos críticos como um divisor de águas na MPB por fundir vários elementos da sonoridade africana ao samba carioca, "Os Afro-sambas" é o segundo LP lançado pela parceria Vínicius de Moraes/Baden Powell. As oito canções apresentam uma rica e singular musicalidade, que traz uma mistura instrumentos do candomblé e da umbanda (como atabaques e afoxés) com timbres mais comuns à música brasileira (agogôs, saxofones e pandeiros). O grande destaque do álbum é a faixa de abertura "Canto de Ossanha", futuro da clássico da MPB, que conta com a participação nos vocais da atriz Betty Faria e na flauta de Nicolino Cópia.
O projeto ficou engavetado e só viu a luz do dia, quatro anos depois, em 1966. Foi quando Vinícius ofereceu o projeto à Roberto Quartin, dono do selo Forma, que produzia discos extremamente sofisticado. Quartin topou de imediato a idéia de lançar Os Afro-sambas.
Gravado entre os dias 3 e 6 de janeiro, Quartin convidou o maestro Guerra Peixe, o grupo vocal Quarteto em Cy e um coral de "músicos amadores" formado por Nelita e Teresa Drummond, Eliana Sabino (filha do escritor Fernando Sabino), Otto Gonçalves Filho e César Proença e uma jovem aspirante a atriz chamada Betty Faria.
E é Betty faria que divide os vocais com Vinícius na imortal "Canto de Ossanha" que abre o disco.Guerra Peixe optou por dar o disco uma sonoridade mais rústica, como se estivesse sendo, de fato, gravado, em um terreiro, o que acabou sendo um dos grandes charmes do disco, embora Baden criticasse justamente isso, anos depois, considerando o disco "mal gravado".
Enquanto Vinícius murmura as letras quase em tom de súplica, Betty Faria reforça as sílabas finais de cada frase, além do acompanhamento do Quarteto em Cy em quase todas as faixas.Baden era o responsável por climas todas as melodias e até cuidava da percussão. Seu toque inconfundível norteia a bela "Lamento de Exu", que encerra o disco, enquanto Vinícius voa quase solo em "Canto do Caboclo Pedra Preta". Aliás, Vinícius tentou cantar de maneira mais grave, como 'um preto velho", em faixas como "Canto de Xangô". Vale ressalatar "Bocoché", com um clima quase etéreo.O disco rendeu excelentes críticas e vendagem e solidificou de forma definitiva a carreira de Baden Powell. Após a parceria com Vinícius, Banden deixou de ser um tímido músicos que vivia de pequenas participações na noite carioca para ser um músico mundialmente famoso e indo embora do Brasil definitivamente vivendo por mais de 20 anos na França e cinco na Alemanha.

Ficha técnica

* Produção e direção artística: Roberto Quartin e Wadi Gebara
* Técnico de gravação: Ademar Rocha
* Contracapa: Vinicius de Moraes
* Fotos: Pedro de Moraes
* Capa: Goebel Weyne
* Arranjos e regência: Maestro Guerra Peixe
* Vocais: Vinicius de Moraes, Quarteto em Cy e Coro Misto
* Sax tenor: Pedro Luiz de Assis
* Sax barítono: Aurino Ferreira
* Flauta: Nicolino Cópia
* Violão: Baden Powell
* Contrabaixo: Jorge Marinho
* Bateria: Reisinho
* Atabaque: Alfredo Bessa
* Atabaque pequeno: Nelson Luiz
* Bongô: Alexandre Silva Martins
* Pandeiro: Gilson de Freitas
* Agogô: Mineirinho
* Afoxé: Adyr Jose Raimundo

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Poesia para toda parte

Abaixo o poema Verde que te quero Rosa de Cartola. A poesia é linda a musicalidade idem. Mas quero chamar a atenção para o jogo de palavra que ocorre entre a última frase da primeira estrofe e a primeira frase da segunda estrofe. Singelo, genial e poético. É uma das denúncias (pelo menos na minha leitura dessa poesia) mais duras porém sem endurecer ao racismo brasileiro. Já quero adiantar que essa minha visão é polêmica e os que não concordarem podem se expressar, tipo me acusando de ver algo que não tem nada haver, ou seja, uma denúncia do racismo nessa poesia.

Verde que te quero Rosa

Verde como céu azul a esperança
Branco como a cor da Paz ao se encontrar
Rubro como o rosto fica junto a rosa mais querida
É negra toda tristeza se há despedida na Avenida
É negra toda tristeza desta vida

É branco o sorriso das crianças
São verdes, os campos, as matas
E o corpo das mulatas quando vestem Verde e rosa, é
Mangueira
É verde o mar que me banha a vida inteira

Verde como céu azul a esperança
Branco como a cor da Paz ao se encontrar
Rubro como o rosto fica junto a rosa mais querida
É negra toda tristeza se há despedida na Avenida
É negra toda tristeza desta vida

É branco o sorriso das crianças
São verdes, os campos, as matas
E o corpo das mulatas quando vestem Verde e rosa, é a
Mangueira
É verde o mar que me banha a vida inteira

Verde como céu azul a esperança
Branco como a cor da Paz ao se encontrar
Rubro como o rosto fica junto a rosa mais querida
É negra toda tristeza se há despedida na Avenida
É negra toda tristeza desta vida

Verde que te quero Rosa (é a Mangueira)
Rosa que te quero Verde (é a Mangueira)
Verde que te quero Rosa (é a Mangueira)
Rosa que te quero Verde (é a Mangueira)
Cartola

Ótima notícia

Abaixo notícia publicado no Estado de Minas, infelizmente
não consegui de jeito algum justificá-la, mas como
considero o conteúdo contido nela mais importante
que a forma, vai assim mesmo.

O *Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária*
*Incra*-MGpublicou relatório técnico para a regularização
de territórioquilombola. O documento foi publicado segunda
feira, no Diário Oficial da União, e inclui relatório
antropológico da comunidade e olevantamento dos imóveis
localizados na área pleiteada, de mais de 17
mil hectares, no caso de Brejo dos Crioulos. Nessa área,
inserida nos municípios de Varzelândia, Verdelândia e São
João da Ponte, foram localizados mais de 100 imóveis
particulares. Outros oito processos estão em andamento:
das comunidades das família dos Amaros, Mumbuca,
Gorutuba, São Domingos, Mangueiras, Luizes, Machadinho,
e Marques. Atualmente, há 88 processos de regularização
de territórios quilombolas.Instaurados na superintendência
do *Incra* em Minas. O estado está em terceiro lugar em
número de quilombolas certificadas pela Fundação Cultural
Palmares.

Fonte: Estado de Minas. /**/Belo Horizonte, MG
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007/*

Ainda sobre "Pedido aos leitores, se é que temos algum?"

Recebi mais uma resposta do post intitulado "Pedido aos leitores, se é que temos algum?"

Dessa vez foi do Daniel, o autor das divertidas mensagens de Natal que estão publicadas aqui, destaque para a seqüencia de dicas musicais:

Antes tarde do que nunca (como diria Vargas...)

Estou um tanto quando desinformado quanto ao que há de bom no cinema/dvd... Sugiro o "Pequena Miss Sunshine" (simples e bom) e o Cassino Royale (pela primeira vez vi um 007 apanhar, sangrar, matar os outros de maneira cruel... ou seja, um agente do M16 de verdade e não aqueles do Pierce Brosnan -- é assim que escreve? -- que mais pareciam um projeto mal resolvido de Batman!)

Na música tenho algumas sugestões, não tão atuais, mas que valem uma audição:

Muddy Waters - "Muddy Waters at Newport"
John Mayall's Blues Breakers - "John Mayall's Blues Breakers With Eric Clapton"
Baden Powell - "Canto on Guitar" - 1970.
Santana - "Abraxas"
Chico Buarque - "Construção"
Lynyrd Skynyrd - "Pronounced Leh-nerd Skin-nerd"
Pink Floyd - "The Dark Side of the Moon"
Bob Marley and the Wailers - "Natty Dread"
Gilberto Gil e Jorge Ben Jor - "Ogum Xangô"
Fela Kuti and Afrika 70 - "Zombie"
Iggy Pop - "Lust for Life"
Grandmaster Flash and the Furious Five - "The Message"
Afrika Bambaataa and the Soul Sonic Force - "Planet Rock"
Living Colour - "Vivid"
P.J. Harvey - "Rid of Me"
The Verve - "Urban Hymns"
Gotan Project - "La Revancha Del Tango"
Common - "Be"
Ali Farka Touré - Savane"
The Good, The Bad & The QUeen - "The Good, The Bad & The Queen"

Não são difíceis de encontrar... Emule ou rádios online costumam ter... se possível ouça os discos na íntegra... são obras que funcionam melhor como conjunto do que como singles.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Sobre Zumbi

Ah muito tempo, não postava por aqui um texto de minha própria autoria e com um pouco mais de reflexões. Espero que gostem dessa pequena reflexão. Buscamos a partir da palavra Zumbi, descrever toda a carga polifônica e simbólica da idéia sobre Zumbi.

Sobre Zumbi

Zumbi é uma palavra interessante em sua polifonia: Zumbi para alguns é um Herói Nacional, inclusive com assento no Panteão dos Heróis Nacionais (sim existe um panteão de heróis brasileiros). Para muitos outros ele é o próprio símbolo da luta do Negro Brasileiro, para outros praticantes da adoração das almas (uma das vertentes das religiões afro-brasileiras) trata-se de um espírito elevado, para outra tradição a Angola é uma das corruptelas gramaticais a representar o próprio Criador, ZAMBI. Para alguns estudiosos tratar-se-ia de um cargo político de nobreza. Assim Zumbi seria uma espécie de Rei Guerreiro.

Para Gilberto Gil, Zumbi é um guerreiro, um santo protetor da liberdade negra. Em sua literatura Zumbi, tal qual sua função de senhor das guerras, se confunde com Ogum, o Deus do Metal e da Guerra.

Zumbi (A felicidade guerreira)

Zumbi, comandante guerreiro
Ogunhê, ferreiro-mor capitão
Da capitania da minha cabeça
Mandai a alforria pro meu coração

Minha espada espalha o sol da guerra
Rompe mato, varre céus e terra
A felicidade do negro é uma felicidade guerreira
Do maracatu, do maculelê e do moleque bamba

Minha espada espalha o sol da guerra
Meu quilombo incandescendo a serra
Tal e qual o leque, o sapateado do mestre-escola de samba
Tombo-de-ladeira, rabo-de-arraia, fogo-de-liamba

Em cada estalo, em todo estopim, no pó do motim
Em cada intervalo da guerra sem fim
Eu canto, eu canto, eu canto, eu canto, eu canto, eu canto assim:

A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!
A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!
A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!

Brasil, meu Brasil brasileiro
Meu grande terreiro, meu berço e nação
Zumbi protetor, guardião padroeiro
Mandai a alforria pro meu coração

(Gilberto Gil)

O fato é que a palavra Zumbi é carregada de significação entre as vitimas da diáspora africana, assim a mesma expressão surge também no Haiti (ah o Haiti primeiro estado independente das Américas, primeira Republica, ah o Haiti o primeiro grande Quilombo, o primeiro governo negro das Américas e todas as guerras posteriores e seus ditadores títeres do grande Brother Tio Sam). No Haiti, Zumbi é o Capitaine Zombi: um dos membros da Falange dos Cemitérios. Sua função é punir o crime dos mortos.

Voltando ao Brasil, o dicionário nos informa que Zumbi é: 1- líder do Quilombo dos Palmares; 2- fantasma que vaga pela noite; 3- individuo da noite.

Eis ai que interessante a polifonia do termo. Zumbi popularmente acaba por significar um espírito ruim, a luz das trevas, os mortos-vivos. É desta forma negativa que o cinema norte-americano acabou por popularizar a expressão. É necessário que a expressão seja entendida em toda a sua vivacidade simbólica e sem pré-conceituações simplórias. Zumbi de fato significa em algumas tradições africanas um espírito, ocorre também que Zumbi pode significar o Deus das Armas, o guerreiro libertador de que nos fala Gilberto Gil. Por outro lado é necessário percebermos que as religiões africanas cultuam os espíritos de seus antepassados e alguns devido sua importância na passagem sobre a Terra são capazes de se tornarem divindades após a morte. Eis ai, o que é impossível à lógica cristã ocidental entender: o livre arbítrio aqui é de fato exercido e a idéia do bem e do mal, o dualismo maniqueísta ocidental não tem vez. Não existe o mal absoluto e nem o bem absoluto. Daí a incompreensão de Exu. Exu é o dono do corpo, da passagem, da estrada. Tal como os humanos ele é instável, e dúbio. Não traz uma maldade e nem uma bondade intrínseca. O mesmo vale para as varias outras divindades africanas. Portanto, Zumbi é o Deus da Guerra, o Senhor das Demandas e um espírito escravizado, visto que sempre preso entre o mundo dos vivos e dos mortos. A associação entre escravidão e Zumbi é metafórica e literal. Mas se formos na própria fonte poderemos percebe que o Zumbi não é necessariamente negativo como as idéias pré-conceituadas fazem crer, uma leitura menos carregada da tal magia negra (e a adjetivação da magia de negra, não é mera coincidência) perceberia que ate mesmo a bondade e a maldade depende nesse caso do contexto. Isso fica claro em um canto presente entre os afro-haitianos no Rito Petro do Vodu:

La Rousée tombée

Ya fouillé trou nou

Dieu ya fouillé trou

Capitaine Zombi ya fouillé trou

Capitaine Zombi si yo capable

Ou seja, todo o cântico esta em torno da abertura de uma cova. No entanto, a ambigüidade nos permite perguntar que cova esta sendo aberta? A dos escravos mortos que agora poderão enfim alcançar a sua venerável liberdade? A cova dos escravos já mortos e que agora terão seus espíritos liberados para se vingar dos opressores (os Zumbis na forma que o cinema apresenta essa figura)? Se for assim de fato poderíamos considerar sua maldade pior do que a maldade dos senhores escravistas? Eis ai o contexto que não é dito. A cova aonde será enterrado o opressor? Não sei, meu conhecimento é pouco para afirmar algo, mas acredito que todas essas opções estão corretas. E é nisso que reside à fertilidade da palavra Zumbi e de sua importância militante e política.

Zumbi é o senhor das Guerras? Das demandas? Da libertação? Dos mortos-vivos? Ou seria dos ressuscitados (aqueles convidados a uma vida nova. Por que será que alguns ressuscitam para a nova aliança e os outros que ressuscitam são fantasmagóricos)? É um cargo de nobreza real? Um cargo de nobreza guerreira? Uma corruptela do nome dado a Divindade Máxima dos Angolas Zambi?

Não importa, pois na verdade ZUMBI é tudo isso e muito mais.

VIVA ZUMBI!!!

Por que ainda estamos sobre o clima Natalino

Os poucos leitores deste Blog sabem da adoração que tenho por essa época do ano.... pois bem como é sabido por todos da minha simpatia por essa fanfarronice capitalista. Já não aguento mais esse ufanismo consumista, aliás ontem assistindo a vários telejornais percebi como se faz jornalismo comprometido, com a causa consumista. Mas deixa isso para lá, ou melhor para lá não. Deixa isso com meu amigo Daniel, que tem uma excelente verve para textos de comédias. Não sei quanto a Vocês, mas Eu adorei e ri muito com os textos abaixo.

Quanto ao autor não me consta que tenha Blog próprio o que é uma pena, mas me consta que o mesmo é um grande poeta (ainda que somente uma pessoa tenha o privilégio de ler suas poesias- não sou Eu- que dizer de vez em quando vaza algumas e eu dou uma lida) um grande especialista em sociologia da cultura e da música popular brasileira, além de ser namorado de uma grande amiga nossa.
Os textos:


FELIZ NATAL


Natal, ah, Natal!
Época de paz na Terra aos homens, de boa vontade, de má vontade, de vontade de enforcar o maldito que inventou aquelas luzinhas que piscam e tocam musiquinha. Natal é época de amor, de tranqüilidade, muitas vezes eterna, quando vem a fatura do cartão de crédito em janeiro.
Ah o Natal, com seus papais noéis gorduchos e barbudos, de faces rosadas e jeito bonachão, como um típico cidadão latino-americano. E aquelas barbas brancas tão lindas, feitas de nylon que agarram na roupa das crianças que vão abraçá-los. As crianças, aliás, continuam acreditando em Papai Noel, mas a imagem que têm na cabeça é a de um fornecedor de brinquedos importados que os pais delas compram. Provavelmente pensam que a Lapônia fica no Paraguai ou na China.
Ah o Natal, com suas musiquinhas alegres e divertidas que tocam uma, duas, três bilhões de vezes, seja nas árvores musicais, seja nos anúncios de TV, seja nos carros de som ou naquelas maravilhosas bandinhas desafinadas compostas de músicos aposentados que são contratados pelas lojas, perto do Natal e longe da melodia. O melhor é que as músicas são tipicamente sul-americanas, como "We Wish You A Merry Christmas", "O Tannebaum" e "Santa Claus Is Coming To Town". Ninguém canta mais "Dingobel, acabou papel", só "Jingle bell, jingle all the way". Sinal da globalização!
Ah o Natal, com as maravilhosas brincadeiras de amigo oculto - que já deixou de ser oculto há muito tempo -, em que as listas de presentes podem ter qualquer coisa, desde que seja do shopping Oi.
Ah o Natal, com os enfeites das portas das casas, daqueles que são tão grandes que quando a gente passa por eles, inevitavelmente esbarra e derruba algumas folhas de plástico no chão. A gente e todas as visitas, o porteiro, o carteiro e o entregador de jornal, formando um verdadeiro gramado no tapete.
Ah o Natal, com as lojas cheias! Cheias de gente! Vazias de presentes decentes, obrigando a gente a comprar qualquer porcaria. Mas cheias de gente! Gente mal-educada, que berra, empurra, fala no celular, pergunta o preço da pasta de dente, e continua falando alto, briga com a criança, briga com o caixa, briga com a gente, derruba mercadoria no chão, fica parada pensando no presente que vai comprar para a cunhada do vizinho da prima, parada bem na nossa frente. "Dá licença?" é expressão desconhecida.
Ah o Natal, com as bolinhas de árvore de natal que quebram à toa! E com as pecinhas de presépio que quebram à toa! E com os bibelôs que aqueles parentes que voltaram de viagem dão para a gente, a pretexto do Natal. E quebram à toa! Tanto os parentes quanto os bibelôs.
Ah o Natal, com as mensagens SPAM de árvores feitas de "Feliz Natal" em 87 línguas, com os cartões de 1,5Mb que enviam por attachment, com os e-mails de empresas que nunca vimos na vida desejando boas festas, igrejas evangélicas, serviços de entrega de flores, provedores. Todos com "preços promocionais de Natal" que, curiosamente, duram até abril, maio, junho....
Ah o Natal, com as nozes, castanhas, avelãs e pistaches que nos incentivam a comer, que de tão gordurosos são próprios para países frios em épocas frias, não para o hemisfério sul em pleno verão. E na noite de Natal, quente como o que, vem aquele peru suculento, jorrando gordura por todos os lados, igualmente quente, o que é muito adequado ao nosso clima.
Ah o Natal, com os envelopinhos dos entregadores de revistas e jornais, e de porteiros e faxineiros, e de boys e contínuos, os mesmos que nos trataram tão mal o ano inteiro, chegaram atrasados, arranharam nosso carro, amassaram nossa revista tentando enfiá-la por baixo da porta, fizeram tudo de má vontade e ainda têm a cara de pau de pedir gratificação de fim de ano.
Ah o Natal, com músicas bregas e chatas, com filas e filas nas lojas, com doces melados e gosto artificial, com aquele presente lindo de sua tia que só te vê uma vez por ano, embalado num papel de embrulho infantil, num pacote grande, que aparenta ser um bom livro ou qualquer coisa útil e de bom gosto, mas que dentro tem outro pacote, e outro, e outro, e dentro dele uma linda meia cor-de-abóbora com listras vermelha, que ainda por cima não cabe em você.
Feliz Natal para todos vocês!

A VERDEIRA HISTÓRIA DO PAPAI NOEL

Conhecido no Brasil como Papai Noel, em Portugal como Pai Natal, nos Estados Unidos como Santa Claus e na Venezuela como Papai Fidel, Papai Noel - Generus Santas Clausus - "o bom velhinho" é tido por todos como um senhor de idade, barbudo, gordo e legal. No entanto poucos conhecem a sua verdadeira história.

É comum ouvirmos que Papai Noel é oriundo da Lapônia. Entretanto, a verdade é que Papai Noel nasceu em Maranguape, no Ceará. Ainda novo Papai Noel migrou para o sul do país em busca de melhores condições de vida.

Chegando em São Paulo, Noel iniciou uma promissora carreira de músico. Se tornou sanfoneiro requsitado em inúmeras festas de forró e bailões. Nesse momento assume o nome artístico de Papai Pascoal, depois Pascoal Noel até chegar em Hermeto Pascoal.



Como sujeito empreendedor que é, Noel logo percebeu que o pessoal que frequentava as festas nas quais tocava era o público em potencial de outro tipo de estabelecimento. Reunindo alguns trocados, Noel abriu seu primeiro empreendimento, conhecido como "Zona do Natal". Depois evoluiu para "Puteiro Noel". Seu mais novo estabelecimento é o "Santa Claus Night Club".


Em pouco tempo Noel conquistou fama e fortuna, se notabilizando como o maior empresário do ramo da terceirização dos serviços matrimoniais.

Com muito dinheiro, Noel se entregou aos prazeres da vida. Casou-se 5 vezes. Comprou vários carros, mansões e trenós. É figurinha fácil nos cassinos de Las Vegas, nas corridas de Fórmula 1 em Mônaco e nas festas do VIP de Nova York, Londres e Paris.

Seu hobby é colecionar carros, mulheres e jet skis

Flagrado com a atual Mamãe Noel, durante caminhada na sua praia particular, em Porto de Galinhas.

Atual Mamãe Noel


Apesar dessa vida boa, Noel ainda se sentia incompleto. Resolveu realizar seu grande sonho e se tornou ator. Papai Noel participou de importantes filmes e peças teatrais. Entre eles destacam-se: Hoje é dia de Natal, Vou viver um bom Natal, Um divertido Natal, Pré-Natal, Sozinho com as crianças e "Casa da mãe Joana"

Mas algo estava crescendo e o incomodando. Era seu dinheiro, ganho através da exploração da luxúria alheia. Após muito tempo de terapia, Noel se regenerou e então decidiu remover seu peso na consciencia dando presentes a todas as crianças do mundo, iniciando a lenda que hoje conhecemos.

A mesma diz que se você se comportou bem durante o ano, Papai Noel vai tirar alguma coisa de seu saco pra você, mas se você se comportou mal ele vai te obrigar a comer panetone e assistir o show do Roberto Carlos.

Embora sua verdadeira idade nunca tenha sido confirmada, os testes de carbono 14 indicam algo bastante velho, que há tempos deveria estar capenga, careca, reumático, sarnento e mau-humorado. Mesmo se chamando "Papai" Noel, sabe-se que ele não possui filhos, já que o seu saco é apenas de brinquedo.

Para as crianças, o Papai Noel e um velhinho que nunca morre, e que está em milhões de shoppings ao mesmo tempo, e que rouba brinquedos para dar para as criancinhas.

De acordo com a INTERPOL o papai noel responde atualmente a 2.645.287.124 processos por invasão a domicílio.
Hoje o bom velinho mora no Acre (por isso ninguem nunca viu a casa dele). Todo natal se você olhar em direção ao Acre verá um grande trenó vermelho escrito Coca-Cola voando e jogando cachaça e rapadura para todos.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Bethânia e Gal_Oração mãe menininha

Ela e Gal em Oração a Estrela mais linda e ao Sol mais brilhante,enfim a Óxum mais bonita.

Maria Bethânia - A Dona do raio e do Vento

Mais uma homenagem, a Senhora dos Ventos e dos Raios. Na voz DELA.
Eparrei, Minha Mãe, Eparrei!!!!

Maria Bethânia - Ponto de Iansã

Na série nossas cantoras preferidas, hoje ELA. Maria Bethania, o superlativo não é o suficiente para ELA.

A música é o Ponto de Iansã, na saída de um Terreiro.

Quem foi realmente Jesus Cristo?

Por que hoje é Natal, um pouco de história sobre o Jesus e sobre o Cristo. Ou seja, o homem e o Deus. A matéria abaixa se encontra no blog do Pedro Dória.

Quem foi Jesus? Ele realmente existiu? Sobre o que estava falando realmente? Em que mundo viveu? As perguntas não são simples. Esta minha reportagem a seguir foi publicada originalmente em NoMínimo, no Natal de 2005. Como o Natal se aproxima, como a discussão sobre o Jesus Histórico ainda rende alguns comentários abaixo, achei que valia trazê-la de volta à tona.

Em busca de Jesus

No ano de 1968, trabalhando em Givat ha-Mivtar, cidadezinha próxima a Jerusalém no caminho para Nablus, Cisjordânia, um grupo de operários descobriu um cemitério. A Guerra dos Seis Dias havia terminado meses antes e a região que pertencera à Jordânia tinha sido recentemente conquistada. Os arqueólogos chefiados por Vassilios Tzaferis, diretor de escavações da Autoridade de Antiguidades de Israel, encontraram um total de 15 ossários de pedra calcária. As caixas, algumas com inscrições, outras sem, continham as ossadas de 35 pessoas, todas mortas entre os últimos anos do século 1dC e as décadas seguintes.

Um deles era um homem jovem, com algo entre vinte e tantos e trinta e poucos anos. Morreu crucificado.

As atenções de cristãos de todo o mundo se voltaram para as pesquisas dos cientistas. Embora na literatura do tempo exista um número incrível de descrições de gente condenada à cruz – só na rebelião do escravo Spartacus, 6.000 morreram assim –, nunca o corpo de uma destas vítimas fora encontrado. A explicação tradicional indicava que seus corpos não tinham enterro digno, eram jogados fora. Mas, incrivelmente, o homem de Givat ha-Mivtar teve sepultara própria.

O corpo estava fraturado nas pernas – como se elas tivessem sido quebradas para retirá-lo da cruz. A análise do professor Joseph Zias, curador da Autoridade de Antiguidades, revelou que o calcânio direito fora atravessado lateralmente por um prego de ferro comprido 11,5cm. Os restos de oliveira entre a ponta do prego e o pé indicavam a madeira da cruz. Uma placa entre a cabeça do prego e o calcanhar mostraram que não fora martelado direto sobre a carne. Seus pés foram pregados aos lados do poste, não à frente. E seus braços, aparentemente, amarrados. Segundo a inscrição em aramaico no ossário, o homem de vinte e tantos, trinta e poucos anos, chamou-se Yeohanan bar Ha’Galgol – João, filho de Ha’Galgol.

Tudo indicava que os crucificados não tinham direito a sepultura, contradizendo o Novo Testamento. O filho de Ha’Galgol provou o contrário.

Jesus como fantasma

Jesus é como um fantasma – não há registro de sua existência fora da Bíblia cristã. É um personagem tão concreto, que teve tanto impacto em todo o desenvolvimento humano dos últimos dois mil anos – e, no entanto, é só buscar um Jesus histórico e ele se esvai, escapa. Não há. É um personagem tão tênue que a simples comprovação de que um crucificado poderia ter direito a túmulo é recebida com alívio. Cada pequeno passo parece indicar que ele está mais próximo.

Mas alguma coisa aconteceu nas terras que os romanos, no primeiro século, chamaram de Palestina. A civilização ocidental toda – toda ela – se origina num tripé de culturas, a grega, a romana – e a judaica. É um acidente histórico, é o improvável. Houve grandes civilizações. Houve os fenícios e seu ímpeto viajante. Houve o Império Egípcio. O Império Persa. Todos peças de museu. Roma conquistou tanto. A Grécia de Alexandre também, e criou a filosofia, avançou com a matemática, a astronomia.

A gente do Livro, a gente de Abraão e de Moisés, escrava tantas vezes, que passou de um domínio a outro – babilônicos, persas, gregos, romanos – a gente que nem em Jerusalém, sua cidade sagrada, mandou de todo, esta gente persistiu. O que a fez sobreviver foi uma religião. Não apenas sua religião se sobrepôs à de Roma e Grécia, através do Cristianismo, como se manteve viva no Judaísmo Rabínico enquanto tantas outras se extinguiram. Ainda teve fôlego, uns séculos adiante, e pariu um terceiro filho, o Islã. Monoteísta, crente em Abraão, crente na santidade de Jerusalém. E Jerusalém permanece disputada – como se uma das três religiões fosse mais verdadeira que as outras duas.

Jesus como homem

Entre os seus, ele foi conhecido como o rev Yehoshua bar Youssef, o rabino Jesus, filho de José. Houve o tempo em que, pareceu, havia uma segunda fonte a confirmar sua existência além dos textos cristãos primitivos, no século primeiro: um parágrafo perdido nas obras do historiador judeu Flávio Josefo. “Nessa época, apareceu Jesus”, escreveu ele, “um homem sábio, se, de fato, podemos chamá-lo de homem. Porque ele fazia coisas maravilhosas, era um mestre do povo que percebe com prazer a verdade.”

Foram descobertas versões do mesmo trecho bem menos adjetivadas – os monges copistas, na Idade Média, às vezes incluíam o que lhes interessava. E o parágrafo de Josefo tornou-se escorregadio. São raras as cópias de suas obras com a citação. A dúvida de se foi de todo falsificado permanecerá para sempre. O ossário de Tiago, irmão de Jesus, que veio à tona faz alguns anos – e cuja falsificação foi comprovada em poucos meses – pareceu que enfim traria esta segunda fonte. Mas não há segunda fonte. Uma frase apenas, basta uma frase em algum lugar, basta-lhe o nome escrito – mas não. O rev Yehoshua escapa. Quem existe é o Iesous Christos, nascido em grego, preso entre as capas duras de Bíblias cristãs. Todo Jesus nasce da Bíblia, não há Jesus fora dela.

O costurar da Bíblia

Um dia, o judeu fariseu Saulo, nascido em Tarso, cidadão romano, viu uma luz na estrada que seguia de Jerusalém a Damasco, a luz era Jesus e Jesus ordenou-lhe que pregasse seus ensinamentos aos gentios. A missão proselitista de São Paulo, nos cálculos da Enciclopédia Católica, não começou antes do ano 45. Sua primeira carta é de uns quinze anos após a morte do rev Yehoshua. Além de sua visão fugaz na estrada, o que aprendeu foi com escritos que se perderam e a memória de primeira ou segunda mão de quem o conheceu.

O “Evangelho de Marcos” é de algo entre 65 e 80 – seu autor não o conheceu. Como Paulo, escreveu sobre o que leu ou o que ouviu. Ponham-se Mateus e Lucas ao lado de Marcos, e os dois evangelistas seguem a narrativa de Marcos encaixando umas frases diferentes, aqui e ali. No século 19, teólogos alemães sugeriram que ambos teriam as mesmas duas fontes, Marcos e um segundo Evangelho perdido. Apelidaram-no de “Q”.

Em 1945, dois fazendeiros egípcios encontraram, nas terras que aravam, um grande jarro de cerâmica; nele estavam os rolos completos de uma obra da qual se conheciam apenas fragmentos de pergaminho. Esta versão era em copta, um dialeto grego egípcio. É o “Evangelho de Tomás” – que pode ser “Q”. Não é uma narrativa da vida do rev Yehoshua, são frases, 114 fragmentos de diálogos entre Jesus e seus discípulos.

Às vezes, o “Evangelho de Tomás” é intransponível: “E Jesus disse tem sorte o leão que o homem come, porque o leão torna-se humano; e tolo é o homem que o leão come, pois o leão também torna-se humano.” Mas, às vezes, é incrivelmente familiar: “E Jesus disse, o Reino de Deus é como o grão de mostarda, a menor das sementes, que quando cai em solo fértil produz uma grande planta que serve de ninho aos pássaros no céu.” Não é improvável que com esta lista de frases e Marcos, tenham nascido Mateus e Lucas. O quarto Evangelho, atribuído a João, é provavelmente um século posterior a Cristo.

Diferentemente dos evangelistas, Paulo falava em suas cartas de alguém que existiu em seu período de vida; ele teve contato (e disputas) com gente que conviveu com Jesus. Ou ao menos é o que diz. A armadilha do Novo Testamento surge: uma espiral desorientadora onde ele próprio é fonte de si mesmo, ele se sustenta, ele é tudo o que há.

Jesus enquanto Hamlet

O descrente ou o crente eventual que pega e lê o “Evangelho de Marcos” depois de muito tempo toma um susto. Jesus não é plácido. Jesus tem pressa, vai para um lugar, para o outro, nunca pára. Jesus é impaciente, explica, mas nunca parecem entendê-lo. Jesus nunca deixa claro quem é, seus discípulos ou o leitor têm que decifrá-lo. Jesus tem raiva, entra no Templo, chuta as balanças. É um personagem de todo humano.

Harold Bloom é também, a seu modo, um velho judeu impaciente, irônico por vezes, está em busca da beleza – um dos principais críticos literários atuais. Em 2005, saiu nos EUA “Jesus and Yahweh” (já publicado no Brasil), sua tentativa de explorar Cristo, o personagem. Marcos, para Bloom, “é talvez um morador de Roma, ele espera ansioso até que recebe a terrível notícia da destruição do Templo.” Aí senta e escreve; seu resultado é um Jesus como Hamlet, um homem enigma.

Se este leitor pouco habituado ao Novo Testamento pega na seqüência o “Evangelho de João”, o contraste não pode ser mais evidente: antes havia um homem ansioso, em João há Deus feito pessoa. “No princípio era o verbo”, diz na introdução o evangelista, “e o verbo era Deus, e o verbo se fez carne e habitou entre nós.” Não bastasse, João faz seus discípulos perguntarem surpresos ao mestre: “Ainda não tens 50 anos e vistes Abraão?” E João põe na boca de Jesus a resposta: “Antes que Abraão existisse, eu sou”. Desaparece o enigma, há uma segurança quase autoritária.

À espera de salvação

Na virada dos tempos aC para os dC, os israelitas eram 7,5 milhões de pessoas. A maioria vivia na dispersão – a diáspora – entre Babilônia, ou Egito, até mesmo em Roma. E 2,5 milhões viviam nos arredores de Jerusalém, mais ou menos onde ficam hoje Israel e Palestina.

Eram quase todos pobres e trabalhavam muito, de sol a sol. Viviam em casas construídas com uma base de pedra e tijolos de barro, buscavam água no poço da vila todas as manhãs. A classe média tinha pequenas terras para o cultivo ou trabalhava em profissões como carpintaria. A maioria, no entanto, trabalhava para os outros, pela subsistência. A Galiléia do rev Yehoshua era onde ficavam as terras mais férteis.

Num mundo muito mais agressivo do que o atual, as doenças se espalhavam com freqüência, a dor da morte era uma constante em toda rua, fazenda, casa, família. Qualquer indício de doença trazia pânico para toda a vizinhança. Pagavam impostos altos ao dominante, ao rei posto pelo dominante, aos sacerdotes do Templo. Havia anseio por justiça social.

Quem fosse rico morava em Jerusalém. Na cidade alta, havia um bairro comprido com casas de mármore à moda grega, luxuosas, onde viviam lado a lado romanos da administração e os israelitas donos de grandes terras ou grandes negócios. Na cidade baixa, a vida era mais difícil – embora melhor do que em qualquer outra parte. É onde ficavam pequenos comerciantes, estalajadeiros e quem mais servisse aos peregrinos.

O Santo dos Santos

Jerusalém era uma cidade turística, que recebia gente de toda a parte, todo o ano, principalmente nas três grandes festas - no Dia do Perdão, Pentecostes e Páscoa. Todo judeu, ao menos uma vez na vida, visitava o Templo de Jerusalém – porque o Templo era o centro de toda a identidade judaica. No tempo de Jesus, havia um movimento razoavelmente recente de erguer sinagogas na diáspora, mas as sinagogas eram lugares de estudo e reunião. O Templo era, literalmente, a morada do Deus cujo nome não se diz.

Aquele Templo era o segundo. O primeiro, o Templo de Salomão, foi erguido por volta de 950aC e posto abaixo por Nabucodonosor, rei da Babilônia, em 586aC. Após um mítico exílio de 70 anos, o Templo foi reconstruído por ordens do rei persa Ciro, o Grande. O pátio no qual o rev Yehoshua pisou era do mesmo Templo de Ciro, que sofrera fazia poucos anos uma reforma, impetrada pelo rei Herodes. O povo judeu tinha tanto medo de perder seu Templo que, para pôr abaixo e reerguer o núcleo, Herodes teve de acumular ao lado todo o material que utilizaria para provar que tinha condições de fazê-lo o mais rápido possível.

Regras muito, muito estritas descreviam quem podia entrar no coração do Templo, o Santo dos Santos, o lugar onde Deus vivia. Por isto, eram sacerdotes os operários. Nenhum gentio poderia entrar em qualquer das áreas e, mesmo os judeus, apenas após rituais de purificação. O Templo punha em movimento a economia de Jerusalém. Era no Templo que ficavam os rolos das escrituras sagradas – que reordenadas foram dar no Velho Testamento.

Escuta, ó Israel, o Senhor seu Deus é o único Deus

Qualquer um dos vizinhos não teria como lidar com o Deus dos judeus senão com estranheza. Todos os deuses tinham suas histórias, sua genealogia, seus feitos. Embora, bem no passado, os judeus tivessem alguma memória de seu Deus interagindo com os homens, Ele era mais como uma idéia, não um deus com rosto ou carne. Quem lesse os escritos sagrados dos judeus encontraria não a história de Deus, mas a história do povo. Era muito diferente: um deus feito sob medida para eles, evoluído ao longo de mais que um milênio.

A maioria dos especialistas hoje, incluam-se na lista a ex-freira britânica Karen Armstrong ou o teólogo luterano norueguês Oskar Skarsaune, concordam que o monoteísmo não surgiu de imediato. Cá estava um povo que seja em sua mitologia, seja na história, quase nunca mandou, sempre teve mestres. Então, a primeira marca que procuraram num Deus foi a exclusividade. Não é que não acreditassem na existência dos deuses vizinhos – a Antigüidade era politeísta, toda ela. Mas o Deus YHWH ofereceu-lhes uma aliança na forma de duas placas com mandamentos. Eles adorariam apenas a Ele, e Ele olharia apenas por eles. Ao menos isso tinham: eram o povo daquele Deus.

Dominados, explorados, sempre foram – mas houve tempos difíceis, como o do mando babilônio, e tempos nos quais tiveram mais liberdade, como o período persa. E, ainda assim, o que lhes sobrava era a obediência. Foi dos persas, da misteriosa religião de Zoroastro, que pegaram a segunda das características marcantes de sua religião: a crença de que, no fim, o bem triunfaria; que haveria um Julgamento final. Que, fundamentalmente, o Senhor Deus enviaria um messias para salvá-los a todos.

Ao dominante persa, sucedeu o grego – não podiam haver duas culturas mais distintas que a grega e a israelita. Os gregos propunham uma sociedade cosmopolita, em nada mística. Foram 200 anos de domínio grego até o controle romano, em 63aC. Dois séculos de conflitos, disputas, rompimentos, traumas. A constante imposição de uma versão mais universal do Deus judaico criou anseios na população, fortaleceu a crença apocalíptica. Mas quando foi chegando a Era Cristã, o Deus judeu já era um Deus vago, um Deus único, helenizado, um Deus idéia. O resultado também foi um ideal apocalíptico, messiânico. Místico e complexo.

Quando o rev Yehoshua nasceu, a religião que conheceu era esta: uma amálgama por vezes incoerente da cultura de seus ancestrais com a persa, com a grega. O povo, muito pobre, ansiava por justiça e tinha certeza de que, se estava tão ruim, era porque o messias estava prestes a chegar. E, com ele, o fim dos tempos. Jamais se quis tanto um milagre. Mas, naquela religião tão estranha, havia outra coisa particularmente sofisticada, particularmente diferente, surgindo também.

Amai-vos uns aos outros

Um dia, um gentio que gostaria de se tornar judeu pediu ao rabino Hillel que explicasse as escrituras enquanto ele se punha suspenso num só pé. O homem levantou o pé e Hillel disse: “Não faça aos outros o que não quer que façam contigo. Esta é a Lei, o resto é comentário.” A tradição não deixou registrada a resposta do gentio.

Hillel, que viveu poucos anos antes de Jesus, era fariseu. A população israelita se encontrava espatifada em partidos. Os fariseus, tão conhecidos dos leitores do Novo Testamento, são também os mais incompreendidos. Não se preocupavam tanto com a questão do domínio romano, inconformavam-se mais com o controle sacerdotal. Acreditavam que o conhecimento das escrituras deveria ser difundido a todos.

Os sacerdotes, ou saduceus, uns 20 mil homens, tinham o poder religioso. Os essênios, como que sacerdotes de oposição que se isolaram no deserto, eram místicos. Os zelotes, nacionalistas fervorosos, queriam a independência. E toda esta gente, inimiga entre si, compôs, a um tempo, a política e a religião dos judeus.

Quando um fariseu procurou Jesus – está em Marcos, em Mateus e em Lucas – e lhe perguntou qual a maior das leis, Jesus respondeu “Amarás o Senhor teu Deus de todo coração”, deu uma pausa, continuou: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” O fariseu assente: “Amar ao próximo vale mais que qualquer sacrifício no Templo.” O mais incrível em todo o Novo Testamento é o quão parecidos eram Jesus e os fariseus.

“Será que Jesus acreditava que sua mensagem era original?” – pergunta- se Harold Bloom. “Será que sua mensagem era assim tão diferente da de Hillel?” Sem respondê-lo de todo, o professor luterano Oskar Skarsaune, autor de À sombra do Templo, arrisca: “A política de Jesus não era muito diferente da dos fariseus; ele não estava tão preocupado com a ocupação romana e sim em convocar o povo de Israel ao arrependimento e à renovação. Ele era anticlerical.”

Na compreensão da política do tempo, então, é possível descobrir alguém mais próximo do rev Yehoshua, alguém além da Bíblia cristã. Skarsaune arrisca que, se fariseus aparecem mais no Novo Testamento do que outros grupos, é porque era com eles que o rev Yehoshua convivia. Mas há outras teorias. Após a descoberta dos pergaminhos essênios próximos a Qumran, à beira do Mar Morto, muitos põem Jesus entre eles. Há quem o veja mais belicista, um zelote libertário crucificado por Roma em sua luta por independência – um Jesus mais Guevara.

A queda e a salvação

A injustiça, a fome, a miséria – acumulam. Em tempos, implodem. O mundo parece que vai acabar. Há momentos, no Novo Testamento, em que as personagens todas parecem convictas de que o Apocalipse acontecerá em suas vidas, que está a segundos. O Apocalipse quase foi. No ano de 66, os judeus se levantaram sob comando zelote. Em 70, Roma caiu sobre a Província Iudaea e marchou contra Jerusalém. No total, morreram entre 600.000 e 1,3 milhão de judeus.

O Beit HaMikdash, o Templo, a morada de Deus, foi ao chão.

O São Marcos de Harold Bloom, numa espera angustiada, queria saber notícias da morada do seu Deus enquanto escrevia a história de Iesous Christos. Aí, num repente, sua religião não havia mais. Sem o Templo, ela não seria possível. O Templo lhe dava sentido. Sem o Templo não havia Deus – a não ser que Deus fosse transferido.

Dois rabinos, está no Talmude, se encontraram perante as ruínas do Templo. “O que será de nós” – perguntou o mais jovem – “agora que o lugar onde os pecados de Israel eram expurgados com sacrifícios não existe mais?” Ele está no limite do desespero; o outro, tranqüilo. “Não fique triste, há outra maneira de expurgá-los.” Seu companheiro encerra o pranto, mira estupefato – “é nos atos de bondade”, explica o sábio.

A cultura ocidental se baseia num tripé grego, romano e judeu. A transformação de Yehoshua bar Youssef em Iesous Christos se deu porque, naquele momento da história, havia uma busca desesperada pelo messias no que pareceu o fim dos tempos. Mas, junto com a mensagem apocalíptica, outra mensagem veio contrabandeada. Era uma idéia nova, de justiça social, de respeito. As duas, compactas, ideal messiânico e o amai-vos uns aos outros, transformaram-se num vírus cultural que se espalhou pelo Oriente Médio e Europa.

Flávio Josefo, o historiador judeu, era também um traidor. De general israelita, bandeou-se para o lado romano. Quando entrou na Jerusalém arrasada, descreveu, “Não havia espaço para tantas cruzes nem cruzes para tantos corpos”.