sexta-feira, 2 de novembro de 2007

25 anos do lançamento do espetáculo e disco “MISSA DOS QUILOMBOLOS”

Publico aqui um e-mail que mandei por volta do mês de julho, para alguns amigos:

Este ano comemora-se 25 anos do lançamento do espetáculo e disco “MISSA DOS QUILOMBOLOS”. Par não deixar a data passar em branco, abaixo um resumo desta missa , espetaculo e disco tão marcante na luta do povo negro.

O espetáculo e o disco "Missa dos Quilombos", de Milton Nascimento, Dom Pedro Casaldáliga, o incansável bispo de São Félix do Araguaia, e Pedro Tierra é um marco na música brasileira, foi lançada em disco em 1982 e apresentada pelo Brasil e exterior. No encarte do LP, o compositor mineiro Fernando Brant deu a dimensão do que foi produzido: "O que se viu e ouviu foi de arrepiar. Celebrantes, músicos, coro, maestro e povo compuseram, juntos, um espetáculo que comoveu até as pedras da praça do Recife."

Aos poucos iremos colocando partes da transcrição da missa. Ainda que nada substitua a audição do maravilhoso disco homônimo. Para começar:

MISSA DOS QUILOMBOS

D. Pedro Casaldáliga — Pedro Tierra — Milton Nascimento

1. ABERTURA ESTAMOS CHEGANDO (Coro Cantado)

A DE O (Chegamos, estamos aqui)

Estamos chegando do fundo da terra. estamos chegando do ventre da noite, da carne do açoite nós somos

viemos lembrar.

Estamos chegando da morte nos mares, estamos chegando dos turvos porões, herdeiros do banzo nós somos, viemos chorar.

Estamos chegando dos pretos rosários, estamos chegando dos nossos terreiros, dos santos malditos nós somos, viemos dançar.

Estamos chegando do cl1áo da oficina, estamos chegando do som e das formas, da arte negada que somos, viemos criar.

Estamos chegando do fundo do medo, estamos chegando das surdas correntes, um longo lamento nós somos, viemos louvar.

A DE O (Recitado)

Do Exílio da vida, das Minas da Noite, da carne vendida, da Lei do açoite, do Banzo dos mares. aos novos Albores! vamos a Palmares todos os tambores!!!

Estamos chegando dos ricos fogões, estamos chegando dos pobres bordéis, da carne vendida nós somos, viemos amar.

Estamos chegando das velhas senzalas, estamos chegando das novas favelas, das margens do mundo nós somos, viemos dançar.

Estamos chegando dos trens dos subúrbios, estamos chegando nos loucos pingentes, com a vida entre os dentes chegamos, viemos ·cantar.

Estamos chegando dos grandes estádios, estamos chegando da escola de samba, sambando a revolta chegamos, viemos gingar.

A DE O (Recitado)

Estamos chegando do ventre das Minas, estamos chegando dos tristes mocambos, dos gritos calados nós somos viemos cobrar.

Estamos chegando da Cruz dos Engenhos, estamos sangrando a cruz do Batismo, marcados a ferro nós fomos, viemos gritar.

Estamos chegando do alto dos morros, estamos chegando da lei da Baixada, das covas seu nome chegamos, viemos clamar.

Estamos chegando do chão dos Palmares, estamos chegando do som dos tambores, dos Novos Palmares nós somos, viemos lutar.

(Coro — Cantado)

Em nome do Deus de todos os nomes

— Javé

Obatalá

Olorum

Oió.

Em nome do Deus, que a todos os Homens nos faz da ternura e do pó.

Em nome do Pai, que faz toda carne, a preta e a branca, vermelhas no sangue.

Em nome do Filho, Jesus nosso irmão que nasceu moreno da raça de Abraão.

Em nome do Espirito Santo, bandeira do canto do negro folião.

Em nome do Deus verdadeiro que amou-nos primeiro sem dividição.

Em nome dos Três, que são um Deus só, Aquele que era, que é, que será.

Em nome do povo que espera, na graça da Fé, à voz do Xangó, o Quilombo-Páscoa que libertará.

Em nome do Povo sempre deportado pelas brancas velas no exílio dos mares; marginalizado nos cais, nas favelas e até nos altares.

Em nome do Povo que fez seu Palmares, que ainda fará Palmares de novo

— Palmares, Palmares, Palmares do Povo!!!

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