terça-feira, 16 de setembro de 2008

Por que a vantagem de Obama não é maior?

Depois de muito tempos em falar das eleições americanas, continuarei a não falar. Para quem quiser minhas próprias análises podem procurar aqui no Blog uma série de posts que escrevi em dezembro e início de janeiro quando ainda tinha tempo. Mas para não deixá-los na mão reproduzo aqui matéria do Idelbar um mineiro radicado nos EUA, ele é professor universitáerio pelas bandas de lá. Além de ser um bom resumo das carcterísticas das eleições americanas é uma resposta a F. de S. Paulo e suas imbecilidades.

Por que a vantagem de Obama não é maior?

Ao longo da semana passada, as matérias publicadas pela Folha sobre as eleições americanas repetiram um mesmo bordão, a insistente pergunta: por que a vantagem de Obama nas pesquisas não é maior? O objetivo deste post é explicar por que essa pergunta não faz sentido.

Na matéria escrita no domingo (link para assinantes), Fernando Rodrigues afirma: A economia do país está à beira de uma de suas piores recessões, como vários indicadores atestam, mas o candidato governista e republicano John McCain se mantém praticamente empatado nas pesquisas de intenção de voto com o democrata Barack Obama. Uma hipótese para explicar esse possível paradoxo é que a crise econômica tal qual tem sido noticiada na mídia, por causa dos indicadores ruins, ainda não afetou com força uma parcela considerável do eleitorado.

Jisuis, a crise econômica afetou muito mais que “uma parcela considerável do eleitorado”! A taxa de desemprego é a maior dos últimos cinco anos. O número de americanos que viram seus empregos de tempo integral reduzidos a meio horário chegou a 3,7 milhões, a maior cifra desde que o governo começou a computar esta estatística, há 50 anos. Sobre a crise imobiliária, a matéria da Folha afirma que ela fez milhares de pessoas perderem suas casas. Caro Fernando Rodrigues, as perdas de hipotecas não se medem aqui por milhares. Não se medem por dezenas de milhares. Não se medem por centenas de milhares. As perdas de casas nos EUA já há tempos se contam pelos milhões.

Por que, então, não faz sentido se perguntar por que Obama não tem vantagem grande nas pesquisas? A resposta é pateticamente simples: porque assim são as eleições americanas. Sabem qual foi o último candidato a ser eleito com mais de 50% dos votos? Bush pai, em 1988, com 53,4%. Exato, há duas décadas ninguém recebe mais de 50% dos votos aqui. Clinton foi eleito em 1992 com 43% (numa eleição atípica, já que havia um terceiro candidato, Perot, que recebeu 1 de cada 5 votos). Em 1996, numa goleada histórica de Clinton sobre os Republicanos, a diferença foi 49,2% a 40,7% sobre Bob Dole. Em 2000, quando Bush filho venceu joserobertowrightianamente, a diferença em favor de Al Gore no voto popular foi 48,4% a 47,9%. Trata-se de um sistema eleitoral onde cada um dos dois candidatos já entra com 40%. Aqui não existem goleadas de 62 a 38. Goleadas de 62 a 38 são exclusividade de países onde o governo bate recordes históricos de redução da desigualdade social e a única plataforma eleitoral da oposição é falar de grampos telefônicos.

Portanto, toda a indagação sobre o “problema” de Obama não tem o menor sentido. Os números são os esperados e quem conhece a história eleitoral americana sabe disso. Ninguém que conhece o jogo jamais achou que ia ser fácil.

O outro grande serviço que a Folha poderia prestar aos seus leitores é avisar que manchetes como Obama abre 5 pontos, McCain empata com Obama, McCain está um ponto na frente são não-fatos. Como os leitores deste blog já estão carecas de saber, as pesquisas nacionais não significam nada, pois a eleição é indireta. David Plouffe, o competentíssimo coordenador da campanha de Obama, afirmou outro dia numa conversa: “as tracking polls a gente nem olha”.

Segundo os cálculos deste blog, McCain tem, garantidos, 157 votos no Colégio Eleitoral. É a soma de Alaska, Utah, Idaho, Arizona, Wyoming, Dakota do Sul, Nebraska, Kansas, Oklahoma, Texas, Louisiana, Mississippi, Tennessee, Kentucky, Virgínia Ocidental, Alabama, Arkansas, Geórgia e Carolina do Sul.

Obama tem 200 votos sólidos no Colégio Eleitoral: é a soma de Califórnia, Washington, Oregon, Havaí, Illinois, Wisconsin, Vermont, Maine, Maryland, Nova York, Rhode Island, Connecticut, Massachusetts, Nova Jersey, Delaware e o Distrito de Columbia (da cidade de Washington).

Ganha quem chegar nos 270.

São 181 votos indefinidos: a soma de Ohio, Flórida, Pensilvânia, Nevada, Novo México, Virgínia, Carolina do Norte, Montana, Dakota do Norte, Michigan, New Hampshire, Indiana, Colorado, Iowa, Minnesota e Missouri. O mapinha, com o número de votos que cada estado carrega ao Colégio Eleitoral, é este.

As pesquisas nesses 16 estados são as únicas que importam. Em alguns deles, McCain é forte favorito, como em Missouri. Em outros, Obama é forte favorito, como na Pensilvânia. Mas é razoável dizer que em todos eles há alguma chance para ambos.

Em breve, um passeio estado a estado, por esses 16.

http://www.idelberavelar.com/

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