sábado, 27 de outubro de 2007

Rodrigo Vianna e o "comunicado covarde"

Abaixo o Bravo discurso do Jornalista Rodrigo Vianna, outro comparsa defensor de um verdadeiro Quilombo jornalístico. Para mais reflexões sobre a imprensa, favor entrar no link do http://viomundo.globo.com/

Rodrigo Vianna e o "comunicado covarde"





O repórter Rodrigo Vianna, aquele que vive me corrigindo, escreveu o seguinte discurso para a entrega do prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, que ele e a equipe da TV Record receberam na noite desta quinta-feira:

"Tenho muito orgulho de receber esse prêmio, ao lado de equipe tão especial: Luis Cosme, editor, velho amigo, bom de papo e de texto; Tony Chastinet, repórter acima de tudo, hoje exercendo a função de produtor na TV; esteve lá na Bahia apurando toda a história comigo... e o Luis Vieira, nosso Lula, cinegrafista bom na imagem e na reportagem.

Meus amigos.
Muito mais que um prêmio, ou um troféu, o Vladimir Herzog é um símbolo. Símbolo de uma época em que jornalista morria quando desafiava o poder, ou quando queria simplesmente fazer o seu trabalho. Hoje, o risco maior é perder o emprego - e alguns aqui sabem bem do que estou falando.

Em 1975, quando Vlado foi assassinado num quartel em São Paulo, um ato corriqueiro como esse aqui - uma reunião pública - era proibido! Muita gente morreu, e milhares de brasileiros foram às ruas lutar, pra que a gente hoje possa estar aqui. Digo isso, pra celebrar a Democracia. Não importa que alguns, em gabinetes oficiais, avacalhem com o mandato que recebem. A Democracia não pertence a eles. Muito menos aos que se julgam donos da "opinião pública", no comando das redações por aí! A Democracia é nossa, e devemos defendê-la.

O Vladimir Herzog é também um símbolo de que há muito a se fazer nesse país. A nossa série de reportagens mostrou uma situação escabrosa no interior da Bahia: 64 mortes na explosão de uma fábrica de fogos. Crianças e mulheres, que trabalhavam sem registro, sem segurança, sem direito nenhum. Por salários miseráveis!

Quase 10 anos depois, ninguém foi julgado. Não vejo nossa classe média cansada - e iluminada pela Philips - fazer passeatas por esses mortos. Valem menos do que outros mortos? Por que essa indignação seletiva no país?
Ainda bem que existe o Vladimir Herzog, pra falar disso! E ainda bem que agora há mais concorrência no Jornalismo de TV! Isso também é simbólico nesse caso!

O sujeito que chefia a fabricação de fogos em Santo Antonio de Jesus tem ligações com o grupo politico que mandava na Bahia até pouco tempo... Esse mesmo grupo é dono da maior emissora baiana. E essa emissora, concorrente da Record, nunca deu muita bola pro caso. Por que será? É curioso: eles têm equipe a postos pra atacar os quilombolas, como fizeram recentemente na Bahia. Pra estigmatizar os movimentos sociais. Mas, pra lembrar impunidade, num caso de 64 mortes, aí não há equipe. Curioso!

Mas, tudo bem. Porque agora há essa turma aqui na Record, disposta a contar essas histórias. Fico muito contente de estar nesse time, que aposta num Jornalismo de verdade! E não num Jornalismo que testa hipóteses ou que defende teses estranhas - como a de que não existe racismo no Brasil! Aí,não dá! Francamente...

Já que cheguei a esse ponto, peço licença pra falar de um assunto pessoal. Ano passado, vivi momentos um tanto conturbados quando deixei a empresa onde trabalhei por 12 anos. Tenho lá muitos amigos. Há muita gente séria lá, certamente... Mas, hoje, estão sob comando de uma direção meio aloprada... No momento da minha saída, com um comunicado covarde, tentaram me desqualificar. Na época, me diziam: reaja, processe, parta pra cima!

Não dei bola. Eu me lembrei de uma entrevista do Pepe, antigo craque da seleção... Perguntaram pra ele uma vez: "Pepe, quando vocês iam à Argentina, nos anos 60, já chamavam os brasileiros de macaquitos?" E o Pepe: "sim, claro, isso sempre existiu".
"E o que vocês faziam?".
"A gente metia gol neles".
Isso é muito bom. Quanto mais os argentinos xingavam, mais gol levavam...

Humildemente, porque não sou o Pepe, acho que nós fizemos um belo gol, com a matéria e com o prêmio. A gente gosta é de ganhar na bola! A gente sabe ganhar na bola! Mas, se precisar, a gente também sabe dar umas caneladas! Queria, por fim, agradecer a todos que me deram apoio naquele momento conturbado. Amigos de infância, de Faculdade - jornalistas ou não. Agradeço a todos aqui, publicamente! Mas, gostaria de agradecer especialmente à minha mulher, Teresa - ponta firme e guerreira. Agradeço a meus pais, que me ensinaram a encarar as brigas que valem a pena! A meu irmão - que sabe travar o bom combate. À minha irmã querida, e à família toda. E, claro, a meus filhos André e Vicente. Por eles, principalmente, vale lutar por um mundo melhor.
Viva a Democracia! Viva o Jornalismo plural! Viva Vladimir Herzog! Obrigado a todos."

Publicado em 25 de outubro de 2007



sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Poesia para toda parte

Poesia para toda parte pretende ser uma seção desse blog. Afinal sem poesia somos incompletos.

Para iniciarmos, o poema de uma jovem poeta belo horizontina.

desse e de outros setembros

Para os dias que param
frenéticos e sonolentos

Para as noites que não adormecem (às quatro horas da manhã)
Para as manhãs que adornam as horas com gosto de café e suplícios de erva-doce

Para a solidão de horas a fio passadas no parar dos olhos que não são
... não sabem, simplesmente...
Para os olhos de água, olhos vermelhos

Para o torpor das manhãs (des)inebriadas
pela falta, pela (des)sabedoria...
que não deixa de ser esse entender das coisas todas
esse sofrer pelas manhãs
essa falta das pernas
dos braços

Para as mãos que suplicam (in)sanidade
e (des)instabilidade...
as mãos ora trêmulas, ora frenéticas, ora autistas, ora molhadas
da mesma água dos olhos

As mãos que sabem, que ouvem (mais que os ouvidos)
Da sabedoria que só quer saber de poesia
por ora dilacerada pela antropologia (que pretende poesia!)

(Ainda procuro algum modo de ser ave
por ora me contento com o vento batendo no rosto
e o gosto de mais um setembro
e as lembranças, os desejos, os ensejos)

(Capitu)

Do que se trata o MAD

Abaixo a descrição da Carta de Princípios do nosso Movimento Afirmando Direitos- MAD

MAD - MOVIMENTO AFIRMANDO DIREITOS NA UFMG


Articulação interna e externa à Universidade Federal de Minas Gerais, buscando espaço para o debate pela implementação cotas raciais, como uma das Políticas de Ações Afirmativas necessárias para inclusão racial no Brasil.

Somos um movimento político que aglomera estudantes universitários, cursos pré-vestibulares comunitários, movimentos sociais e demais interessados na causa e formamos o MOVIMENTO AFIRMANDO DIREITOS.

Somos um coletivo daquelas/es que refletem e defendem A IMPLEMENTAÇÃO DAS COTAS RACIAIS E SOCIAIS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS para estudantes negras/os ORIUNDOS DE ESCOLAS PÚBLICAS, como uma das Políticas de Ações Afirmativas para a INCLUSÃO RACIAL E SOCIAL. Porque é necessário romper com o silêncio e/ou a reafirmação do discurso meritocrático praticados por diversas instituições de ensino superior em nosso País.

Neste momento, nossa pauta é o acesso de negras/os ao ensino superior PÚBLICO! Reconhecemos que Políticas de Ações Afirmativas são mais amplas que políticas de acesso, mas não se pode negar a demanda de jovens negras/os e pobres pela entrada na universidade.

É hora de afirmar os direitos do povo negro de nossa sociedade, que historicamente sofre a segregação e é privado, na estrutura social, de ter seus DIREITOS garantidos, em um contexto de desigualdades e de reprodução histórica dessas desigualdades, fundadas em questões étnico-raciais, que vão além das questões socioeconômicas.

Dizemos NÃO ao debate limitado sobre o acesso à universidade. Setores da UFMG até o momento mantiveram-se afastados das discussões sobre a democratização da entrada das/os jovens negras/os na universidade. Restringiram-se a pensar possibilidades subalternas para esses sujeitos, tais como a inclusão restrita das/os jovens pobres em cursos noturnos, limitando as escolhas e as possibilidades de vivenciar a universidade em sua multiplicidade. As propostas atuais da UFMG buscam confundir o debate sobre acesso, sugerem que o problema é apenas de ordem classista, não reconhecem a realidade étnico-racial excludente.

Dizemos SIM ÀS COTAS RACIAIS porque não acreditamos no mito da democracia racial. A discriminação, racial ou étnica, ocorre combinada com a discriminação de classe, mas não pode ser reduzida a esta, e deve haver medidas específicas para a reparação e garantia de direitos da população negra. Isso está demonstrado pelos vários dados estatísticos (IBGE, IPEA) que comprovam que a população negra brasileira ocupa um espaço subalterno em relação à população branca de nossa sociedade.

Queremos um lugar que é de direito: a UNIVERSIDADE! Queremos que as crianças negras brasileiras tenham, nos próximos anos, referência em profissionais que se assemelhem a elas. Queremos que as/os jovens negras/os que sonham em ser médicas/os, artistas, professoras/es, cientistas, engenheiras/os, cientistas sociais, matemáticas/os, dentre outras possibilidades de formação que a UFMG oferece, tenham o direito de realizar esses sonhos.

Queremos a entrada das/os jovens negras/os e pobres na universidade, AGORA! Queremos alterar o ciclo de construção de saberes hegemônicos, que nega a diversidade dos saberes populares, recusando a realidade complexa, plural e diversa da população brasileira! Não dá para segregar mais uma geração!

Queremos:- Implementação de cotas na UFMG para estudantes negras/os oriundas/os de escola pública.- Políticas e investimentos públicos para a permanência das/os estudantes cotistas na UFMG.- Inclusão da proposta de cotas raciais na pauta do Conselho Universitário da UFMG.

Em tempos de lutas, lutamos sempre! MOVIMENTO AFIRMANDO DIREITOS na UFMG
Se você defende as cotas raciais e sociais, afirme este direito conosco:
E-mail: madufmg@yahoo.com.br

Carta à Reitoria - Pela implementação de uma política de ações afirmativas na UFMG

Abaixo Carta elaborado por vários docentes, discentes e funcionários da UFM. Reproduzido do Blog MAD- Movimento Afirmando Direitos

Carta à Reitoria - Pela implementação de uma política de ações afirmativas na UFMG


Belo Horizonte, 13 de agosto de 2007.

Magnífico Reitor
Prof. Dr. Ronaldo Tadeu Pena

Prezado Senhor,

Vivemos, no terceiro milênio, uma conjuntura internacional e nacional de aumento das desigualdades e de acirramento da exclusão social que afetam os diversos setores da sociedade. Nesse processo, a articulação entre as desigualdades de classe, raça e gênero se torna mais complexa, revelando um novo quadro de desigualdades amplamente atestado pelas pesquisas oficiais do IPEA, pelos dados do IBGE e pela produção científica, sobretudo, na área das Ciências Sociais e Humanas.
A UFMG se destaca no cenário nacional pela sua contribuição acadêmica e pela análise crítica dessa situação, produzida pelos seus quadros intelectuais. Muitos dos nossos profissionais, de renome nacional e internacional, contribuem para a análise e compreensão das novas desigualdades, não só no plano da pesquisa, mas também por meio de projetos de intervenção social e da formulação e avaliação de políticas públicas.
É nesse contexto que a demanda pela implementação de políticas de acesso e permanência configura-se como uma nova realidade no Brasil. É também nesse contexto que as políticas de ações afirmativas voltadas para a população negra se fazem urgentes. Não podemos mais fugir do alarmante quadro de desigualdade racial que afeta a juventude negra. Segundo o IPEA, em 1999, somente 2% de jovens negros conseguiam ter acesso ao ensino superior (IPEA, 1999). Diante desse quadro, várias universidades, públicas e privadas, têm apresentado soluções mesmo entendendo que não é papel da universidade formular políticas públicas ou assumir o papel dos movimentos sociais, mas, sim, saber ouvir as principais demandas da sociedade no que se refere ao Ensino Superior, sobretudo, quando vêm de uma parcela da população historicamente excluída desse nível de ensino. Exclusão que revela a reprodução e a expressão da desigualdade social, racial e de gênero, bem como sua imbricação com o Ensino Superior. Entendemos que uma das formas de se posicionar contra essas desigualdades é compreender o acesso à universidade como um direito dessa parcela da população e promover formas de democratizá-la por fora e por dentro.
A seriedade desse momento tem produzido debates e iniciativas entre as diversas instituições públicas de Ensino Superior no País. Algumas já se posicionaram e apresentaram para a sociedade e para o governo federal propostas de inclusão na perspectiva das ações afirmativas. Nesse contexto, assistimos também a medidas oriundas do próprio Ministério da Educação como, por exemplo, o projeto de Expansão do Ensino Superior Presencial nas IFES. A partir de agora, as universidades públicas estão convocadas a elaborar e apresentar projetos de expansão. Entendemos que qualquer projeto de expansão a ser apresentado pela UFMG e pelas outras IFES não pode desconsiderar o debate mais amplo sobre os processos de desigualdade que afetam mais diretamente determinados grupos sociais e étnico-raciais do nosso País. Nesse caso, ao elaborar o seu projeto de expansão, a UFMG deverá incorporar formas de acesso e permanência que contemplem a inclusão racial. Esperamos que a UFMG não se omita diante desse debate e apresente uma proposta coerente e justa, que promova a entrada e garanta a permanência bem-sucedida para alunos(as) negros(as) e alunos(as) oriundos dos setores populares.
É importante relembrar que, no ano de 2006, a UFMG realizou um seminário que teve como objetivo mapear as várias experiências de inclusão promovidas por algumas instituições de ensino superior públicas brasileiras. Tal iniciativa demonstrou uma postura de que é preciso conhecer, analisar e trocar experiências com aqueles que, prontamente, entenderam que uma das funções da universidade é estar atenta para as demandas sociais, principalmente, aquelas que dizem respeito à democratização do acesso ao conhecimento. A expectativa de parte da comunidade universitária, sobretudo aquela que acredita que a democratização do acesso e a permanência bem-sucedida representam uma das funções mais sérias da universidade do terceiro milênio, era de que a reitoria abriria um debate com a comunidade acadêmica e os movimentos sociais, indo além da realização do referido seminário, apresentando uma proposta. Após o seminário, esperava-se também que o Programa de Ensino, Pesquisa e Extensão Ações Afirmativas na UFMG, que vem realizando, desde o ano de 2002, várias ações e projetos de permanência voltados para jovens negros(as) desta instituição, sobretudo os de baixa renda, fosse considerado como um interlocutor privilegiado nesse processo. Essa interlocução desejada e necessária não se limita a esse Programa. Outros profissionais, grupos e núcleos na UFMG - alguns dos quais assinam a presente carta - que possuem competência, conhecimento e trabalhos voltados para os processos que visam à luta pela democracia e à problematização das desigualdades também não foram considerados como interlocutores e parceiros para a construção do debate.
A UFMG segue silenciosa em um momento em que a universidade pública e os processos de democratização do acesso têm sido colocados à prova pelos dados oficiais das desigualdades raciais e sociais e pelas demandas dos movimentos sociais. Em vários fóruns, dentro e fora de Minas Gerais, essa posição tem sido questionada. Afinal, a UFMG, nos seus 80 anos de existência, sempre foi reconhecida como vanguarda no cenário acadêmico e político nacional, mantendo posicionamentos que marcaram a história do ensino superior público do País, tais como: resistência à ditadura militar, reorganização da UNE, acolhimento de alunos refugiados africanos, entre outros.
O contexto atual de democratização do acesso e da permanência de alunos(as) negros(as) e alunos(as) oriundos(as) de escola pública ao Ensino Superior é também um momento político, social e acadêmico importante. Esperamos que, nesse momento, a UFMG não abdique da sua posição de vanguarda e apresente para a comunidade acadêmica e para a sociedade uma resposta condizente com o histórico de seriedade e de compromisso político e social sempre assumidos. E mais, que essa resposta seja publicamente debatida com a comunidade acadêmica e com a sociedade em geral, e não simplesmente formulada por uma equipe de gabinete.
Na gestão anterior do reitorado essa discussão ficou aquém do esperado. Reuniões e conversas com a reitoria foram realizadas, seminários foram promovidos pelo Programa Ações Afirmativas na UFMG, o Boletim da UFMG fez cobertura da temática, no entanto, nenhuma iniciativa concreta foi implementada. Esperávamos que a atual gestão da reitoria apresentasse uma proposta efetiva para a comunidade acadêmica. Todavia, tal iniciativa não foi tomada.
Enquanto a UFMG se mantém silenciosa várias universidades públicas brasileiras já se manifestaram e apresentaram propostas e práticas efetivas de ações afirmativas. A maioria delas desenvolve a modalidade de cotas voltadas para negros, indígenas, portadores de necessidades especiais e/ou alunos oriundos de escola pública. São universidades federais e estaduais, cujas políticas de cotas foram definidas através da decisão de seus conselhos universitários ou de leis estaduais, como é o caso da UERJ, UENF e UEMG. Algumas dessas propostas resultaram de intensos debates e ações conjuntas realizados pela universidade e os movimentos sociais. Dentre as instituições que assim procederam citamos: Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), Universidade Federal do ABC (UFABC), Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM), Universidade Federal de Tocantins (UFT), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Universidade Estadual de Goiás (UEG), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), Universidade Estadual do Oeste Paraná (UNIOESTE), Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Universidade do Estado do Amazonas (UEA), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), entre outras. A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) está com uma proposta em curso. Há, ainda, o caso da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que não reserva vagas, mas atribui pontuação adicional aos estudantes egressos de escolas públicas e para negros em seu vestibular.
A implementação da política de cotas, nas diversas universidades públicas e privadas brasileiras, tem sido acompanhada de processos de avaliação constante e alguns resultados já começam a vir a público. Eles revelam que o desempenho escolar dos alunos oriundos da política de cotas é igual ou superior ao dos alunos que entram pelo vestibular dito universal. Dados da UNB, da UERJ, da UNEB, da UFBA e, inclusive, do PROUNI (outra modalidade de ação afirmativa voltada para a iniciativa privada) comprovam tal situação. Esses resultados e outros que começam a ser tabulados e divulgados contradizem o discurso meritocrático formulado nos meios acadêmicos. Eles revelam que há, no ensino superior brasileiro, desigualdade social e racial, a qual resulta em uma situação de desvantagem para os(as) alunos(as) oriundos(as) de diferentes grupos sociais e étnico-raciais.
Diante desse fato, gostaríamos de registrar que o Programa Ações Afirmativas na UFMG, os professores da UFMG e demais núcleos e grupos que assinam esta carta têm sugestões e propostas para essa reitoria. É nossa intenção ver, na prática, a efetivação de uma intervenção democrática e concreta da UFMG no que se refere ao acesso e à permanência de grupos historicamente excluídos da universidade. Acreditamos que é possível uma medida institucional baseada no diálogo entre a universidade, o Estado e os movimentos sociais que vise à democratização do acesso e à implementação de uma política de permanência bem-sucedida na perspectiva das ações afirmativas.
É com esse objetivo que propomos:
- que o critério racial e social seja incorporado na formulação e implementação de uma política de acesso e permanência na UFMG a partir do ano de 2008;
- que o Conselho Universitário da UFMG discuta, no início do segundo semestre de 2007, uma proposta efetiva de implementação de uma política de ação afirmativa visando o acesso e a permanência de alunos(as) negros(as) e alunos(as) oriundos(as) de escola pública na UFMG;
- que seja instituída no Conselho Universitário uma comissão composta pelos seus membros e por outros profissionais da comunidade acadêmica com condições de dar contribuições efetivas nessa temática para elaborar e apresentar a proposta de cotas raciais e para alunos oriundos de escola pública à comunidade acadêmica da UFMG;
- que a proposta a ser elaborada pelo Conselho Universitário inclua uma política de permanência dos alunos que serão atendidos pelas cotas;
- que a UFMG realize um censo étnico-racial, com recursos do fundo FUNDEP, para que tenhamos dados precisos da realidade étnico-racial e social da UFMG, até o final de 2007;
- que os dados desse censo sejam divulgados em um seminário aberto à comunidade acadêmica e público em geral e sejam disponibilizados na página da UFMG;
- que a UFMG adote o quesito cor/raça, de acordo com as categorias de cor do IBGE (preto, pardo, branco, amarelo e indígena), nos formulários de matrícula de todos os cursos de graduação e pós-graduação, a partir de 2008;
- que, a partir de 2008, a implementação e acompanhamento da política de acesso e permanência da UFMG tenha um lugar institucional na estrutura organizacional e no orçamento da reitoria, que lhe possibilite avaliações periódicas, recursos para bolsas, abertura de editais, na perspectiva das ações afirmativas;
- que parte dos recursos destinados à FUMP e recolhidos no concurso vestibular sejam investidos na permanência de alunos e alunas atendidos(as) pelas cotas, a partir do ano de 2008;
- que a iniciativa acima citada não reduza as ações afirmativas à assistência estudantil, mas seja entendida como um desdobramento político e social do caráter dessa Fundação.
Acreditamos que, somente assim, a UFMG poderá apresentar uma proposta para a comunidade acadêmica e para a sociedade em que se mostre coerente com o momento atual de luta pela igualdade social e racial que estamos vivendo. A UFMG, pela sua seriedade e compromisso com o público, não pode se furtar a uma resposta social e acadêmica de relevância em um momento tão importante para a sociedade. Acreditamos que essa instituição possui condições de apresentar essa resposta, a qual deverá ser fruto de um debate democrático entre universidade, sociedade e movimentos sociais.

Convocada a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial.

Edicão Numero 202 de 19/10/2007
Convoca a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial.
no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso VI, alínea "a", da Constituição,
Art. 1 o Fica convocada a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, a se realizar no período de 29 a 31 de maio de 2008, sob a coordenação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República e do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, com o objetivo de analisar e repactuar os princípios e diretrizes aprovados na I Conferência Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e avaliar a implementação do Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial.
Art. 2 o A II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial adotará o seguinte temário:
I - análise da realidade brasileira a partir da Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial;
II - impactos das políticas de igualdade racial, implementadas a partir da estruturação do Fórum Intergovernamental de Promoção da Igualdade Racial nos Estados e Municípios brasileiros;
III - temas prioritários da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial: Quilombos, Educação, Trabalho e Renda, Segurança Pública e Saúde;
IV - compartilhamento da Agenda Nacional com Plano de Ação de Durban; e
V - participação e controle social - compartilhando o poder de decisão.
Art. 3 o A II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial será presidida pela Secretária Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial ou, na sua ausência ou impedimento eventual, pelo Secretário-Adjunto daquela Secretaria.
Art. 4 o A Secretária Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial expedirá, mediante portaria, o regimento da II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial.
Parágrafo único. O regimento disporá sobre a or ganização e o funcionamento da II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, inclusive sobre o processo democrático de escolha de seus delegados.
Art. 5 o Este Decreto entra em vigor na data de sua publi cação.
Brasília, 19 de outubro de 2007; 186 o da Independência e 119 o da República.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

O sentimento quilombista

Abdias Nascimento cunhou um conceito/categoria clássico, o Quilombismo. No livro denominado Quilombismo (1980), no capítulo chamado “Documento n° 7: Quilombismo: um conceito científico emergente do processo histórico-cultural das massas afro-brasileiras” (pp.245-281), o autor através de uma re-significação do termo quilombo em uma nova categoria simbólica, o quilombismo, busca um projeto de organização sócio-político, a partir de uma resposta teórica para os problemas étnico-raciais do país.


Esse sentimento para Nascimento, é a resultante do longo processo de discriminação e pré-conceito contra o negro no Brasil e ficaria claro na relação do Estado com os afro-brasileiros, principalmente quando se compara os privilégios recebidos pelos migrantes europeus.

O autor assim define o Quilombo e suas continuidades nos dias atuais:

Os quilombos resultaram dessa exigência vital dos africanos escravizados, no esforço de resgatar sua liberdade e dignidade através da fuga ao cativeiro e da organização de uma sociedade livre. A multiplicação dos quilombos fez deles um autêntico movimento amplo e permanente. Aparentemente um acidente esporádico no começo, rapidamente se transformou de uma improvisação de emergência em metódica e constante vivência das massas africanas que se recusavam à submissão, à exploração e à violência do sistema escravista. O quilombismo se estruturava em formas associativas que tanto podiam estar localizadas no seio das florestas de difícil acesso que facilitava sua defesa e sua organização econômico-social própria, como também assumiram modelos de organização permitidas ou toleradas, frequentemente com ostensivas finalidades religiosas (católicas), recreativas, beneficentes, esportivas, culturais ou de auxílio mútuo. Não importam as aparências e os objetivos declarados: fundamentalmente todas elas preencheram uma importante função social para a comunidade negra, desempenhando um papel relevante na sustentação da continuidade africana. Genuínos focos de resistência física e cultural. Objetivamente, essa rede de associações, irmandades, confrarias, clubes, grêmios, terreiros, centros, tendas, afochés, escolas de samba, gafieiras foram e são os quilombos legalizados pela sociedade dominante; do outro lado da lei se erguem os quilombos revelados que conhecemos. Porém tanto os permitidos quanto os “ilegais” foram uma unidade, uma única afirmação humana, étnica e cultural, a um tempo integrando uma prática de libertação e assumindo o comando da própria história. A este complexo de significações, a esta práxis afro-brasileira, eu denomino de quilombismo. (NASCIMENTO, 1980: l.255)

O quilombismo significa um valor dinâmico na estratégia e na tática de sobrevivência das comunidades de origem africana. E desta forma que ele deve ser entendido, enquanto uma consciência de luta político e social.

1 Abdias Nascimento é uma figura impar na militância negra. Intelectual (autor de diversos livros onde busca aproximar o marxismo da temática étnico-racial), político (foi Senador pelo Rio de Janeiro), professor universitário (de diversas Universidades norte-americanas, como Yale, Havard, Columbia, UCLA, chegando a professor titular da Universidade de Nova York Buffalo), artista plástico (sendo fundador ou curador de diversos Museus voltados para a temática negra como o Museu de Arte Negra no Rio de Janeiro, Ile Ife Museum, African Art Gallery, entre outros), ativista negro (tendo sido um dos fundadores da Frente Negra Brasileira nos anos 30 e do Teatro Experimental do Negro - TEN em 1944, grupo este que editava uma revista denominada Quilombo).

Abanjá em yorùbá, “Na luta agora já!”

Olá amigos e comparsas

esse blog nasce com a idéia de ser mais um espaço na aldeia global,
onde possamos debater os mais diversos assuntos, sempre pautados
pelo compromisso de dizermos tudo o que pensarmos.

Esse blog se pretende plural e aberto, mas antes de tudo este é um
espaço onde podemos expressar nosso sentimento quilombista.

Bem vindo ao nosso Ilê Axé

Que noite mais funda Calunga
No porão de um navio negreiro
Que viagem mais longa candonga

Ouvindo o batuque das ondas
Compasso de um coração de pássaro no fundo do
Cativeiro

É o semba do mundo calunga
Batendo samba em meu peito

KÂÔ KABIECILÊ KÂÔ Ô Ô
OKÊ ARÔ OKÊ

Quem me pariu foi o ventre de um navio
Quem me ouviu foi o vento no vazio
Do ventre escuro de um porão

Vou baixar no seu terreiro
Epa raio machado trovão
Epa justiça de guerreiro

Ê semba ê ê samba á
O batuque das ondas nas noites mais longas
Me ensinou a cantar
Ê semba ê ê samba á
Dor é o lugar mais fundo
É o umbigo do mundo
É o fundo do mar

Ê samba ê ê samba á

No balanço das ondas
OKÊ ARÔ me ensinou a bater seu tambor
Ê samba ê ê samba á
No escuro do porão eu vi o clarão
Do giro do mundo
Ê semba ê ê samba á
É o céu que cobriu nas noites
de frio

minha solidão

ê semba ê ê samba á
é oceano sem fim sem amor
sem irmão
ê KÂO quero ser seu tambor

ê semba ê ê samba á
eu faço a lua brilhar
o esplendor e clarão
luar de Luanda em
meu coração

UMBIGO DA COR
ABRIGO DA DOR
a primeira umbigada
MASSEMBA YÁYÁ
MASSEMBA é o samba que dá

Vou aprender a ler
Pra ensinar meu camaradas



YÁYÁ MASSEMBA
Roberto Mendes/ Capinam