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domingo, 5 de setembro de 2010

A IGREJA NOSSA SENHORA DO CARMO

O texto abaixo é na verdade memórias não revisadas sobre o papel. Portanto pode ser que não faça sentido para uns e outros. Logo abaixo, uma matéria jornalistica de uma Revista aqui de BH.

A Igreja do Carmo

Quando criança era um freqüentador assíduo das missas da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Ir a Missa era algo bastante prazeroso e esperado. Engraçado minha mãe conta que meu afã era tão grande que eu a reaproximei da Igreja.

Por outro lado, desde muito cedo, me incomodou a maldita injustiça. Desde muito cedo aprendi como afirmara o poeta Carlos Drumond “Vai Carlos ser gauche na vida”. E assim sigo pelas margens. Aproximando, portanto, por um lado este catolicismo primário e, por outro esta incapacidade de aceitar o injusto. Acredito que um dos locais onde me tornei o que sou hoje foi a Igreja do Carmo. E nesta, seu líder Frei Caludio Van Balen, ou simplesmente Frei Claudio. Frei Claudio merece o título de Padre. Na figura de Frei Claudio encontramos as melhores qualidades a um ser humano: decência, honestidade, caráter, respeito ao próximo, acima de tudo em Frei Claudio encontra o verdadeiro conceito de justiça cristã. Acho que foi na Igreja do Carmo que compreendi que era inaceitável a injustiça, pois nela Jesus de Nazaré é novamente crucificado. Na Igreja do Carmo apreendi que Jesus em sua infinita bondade é caridade. Lá aprendi que Cristo vive no meu irmão mais humilde que o Cristo Ressuscitado é aquele que se encontra entre as minorias oprimidas. Lá aprendi que o verdadeiro Cristo é aquele que luta junto aos sem terra, aos sem casas, ao sem direitos, aos que são vilipendiados em sua dignidade. Lá aprendi que Cristo ao contrário do que faz crer a hierarquia católica não pertence a senhores, inclusive senhores eclesiais. Mas lá também comecei a perceber que o Jesus que me inspirava não cabia mais na Igreja que o aprisionara, lá comecei a perceber que o Cristo Libertador não poderia se aprisionar em dogmas tão pequenos.
De todo modo, mesmo que a distancia física sempre continuei a ser membro da Comunidade do Carmo. Engraçado que mesmo distante há quase 10 anos do Carmo ainda me sinto membro deste lugar. Ainda quando me coloco nas lutas me lembro da Igreja do Carmo. Na distância física, mas jamais emocional, continuei a ser um paroquiano infiel e, principalmente a ser um entusiasta das lutas do Carmelo Belo Horizontino, seja no dia-a-dia do Ambulatório, seja na caminhada com os irmãos sem casa, sem terra, a favor de um desenvolvimento mais justo, solidário e ecológico, seja nas palavras sempre fortes e sabias de Frei Claúdio. Todas estas lembranças e estes textos são fruto de uma necessidade de colocar no papel o grito de abafo. Este ano de 2010 tem sido bastante difícil. Primeiro foram às queixas e ameaças de destituição dos Freis, depois as repreensões e, agora o silencio de Frei Claudio. Estes são dias difíceis e a crise é nossa como lembra o Conselho de Paroquianos, somos nós o Povo de Deus (mesmo aqueles que como eu já tenha rompido com essa Igreja violada pelo poder demasiado humano, vaidoso e a favor das elites) que estamos sendo questionados, inquiridos e ameaçados. Querem proibir nosso modo de vivenciar a Fe como cidadania, a fé como política, a fé como caridade irrestrita ao projeto libertador dos oprimidos.
A sanha e o medo dos senhores do Templo não toleram um espaço de tamanha cidadania. O que a ditadura tentou e não conseguiu agora a Cúria conseguiu. Mas como sabemos em Jesus a Fé é libertadora. Cristo não se submeteu às intimidações (Lc 13, 31-33); denunciou a dominação daqueles que davam sustentação ao poder local (Mt 23, 13-36; Mc 12, 38-40); mas principalmente aprendemos que os rejeitados são os que participarão da festa do Reino (Lc 14, 15-24). Os últimos serão os primeiros e os que se “vestem com roupas finas e vivem no luxo” (Lc 7, 25) e são a elite da sociedade serão “derrubados dos tronos” e “despedidos sem nada”. Portanto, aqueles que se arrogam em seus solidéus e roupas de luxo, “Todos que usam a espada, pela espada morrerão” (Mt 26, 52).


Materia da Revista Viver
Frei Cláudio, por que te calas?

Há 43 anos ele é vigário da igreja do Carmo. Após o imbróglio que envolveu sua possível saída, o carismático e polêmico padre foi proibido de se pronunciar. Os fiéis deram voz a ele

Texto: Eliana Fonseca
Fotos: Pedro Vilela
Cláudio Van Balen não pode falar. Depois de enfrentar um dos maiores desafios de sua vida religiosa, em que sua posição de vida incomodou a hierarquia da igreja Católica e quase foi forçado a abandonar a Paróquia Nossa Senhora do Carmo, o que esse holandês de 78 anos quer é ficar em silêncio. Pelo menos para a imprensa. Porque para os frequentadores da paróquia do Carmo, onde vive há 43 anos e é conhecido por frei Cláudio, ele não muda nunca. Sua filosofia de vida, em que a cidadania é também um ato de fé, transformou seus fiéis. Aliás, foram essas pessoas que montaram a partir de uma visão um tanto particular, o significado do religioso para cada um deles e para as comunidades das regiões do Carmo.

Os amigos cultivam em frei Cláudio um tipo de herói incomum, que motiva admiração, mas ao mesmo tempo chama todo mundo para participar do feito. Vigário de uma paróquia que agrega regiões que apontam para duas Belo Horizonte – a dos bairros desenvolvidos como o Cruzeiro, Carmo, Anchieta, Sion, mas também para a desigualdade dos aglomerados – frei Cláudio segue à risca em suas ações o preceito de que todos são iguais aos olhos de deus. Há 25 anos, o técnico em enfermagem e morador do Morro do Papagaio, João do Carmo, estava passando por situação-limite na creche grupo Amigo da Criança. O desafio era consolidar a instituição, que era primordial para as crianças do local. “não sabia o que fazer, as crianças estavam passando fome, as mães estavam cobrando uma solução. À noite sonhei que tinha ido à igreja do Carmo”, conta. O encontro com frei Cláudio traduziu-se num apoio que foi constante durante todos esses anos e que tem rendido vários frutos.
Carlos Roberto Vasconcelos: “Frei Cláudio forma, antes de tudo, um cidadão”

Há dois anos, as visitas constantes dos vicentinos aos enfermos e pessoas com deficiência do morro gerou um novo projeto, também com o apoio de frei Cláudio. Essas pessoas estão recebendo banheiros adaptados para possibilitar maior dignidade e mobilidade. Uma das primeiras doações para essas construções veio do vigário da Paróquia do Carmo que repassou 12 mil reais recebidos de herança de uma irmã. “Ele nos falou que dava aquele dinheiro com todo carinho. Frei Cláudio tem um carisma muito especial. Ele é tranquilo, firme em sua espiritualidade. Tudo que ele fala, a gente entende”, afirma João do Carmo.

Essa compreensão ultrapassa bairros e vai buscar aquele católico já cansado dos ritos e discursos da igreja. O que procura algo diferente. Foi o que aconteceu com o especialista em trânsito e assuntos urbanos, José Aparecido Ribeiro. Ele frequentou as igrejas da Vila Paris, Lourdes, Boa Viagem, São Judas Tadeu, São Sebastião, Mãe da Igreja, Belvedere. Nenhuma, em sua opinião, motivava o fiel a uma reflexão maior.

“Frei Cláudio usa a palavra e o conhecimento de maneira muito acessível. Sua mensagem nos leva à paz, mas também à responsabilidade. Ele nos convida a ser cidadãos e isso tudo pregando e praticando uma religião que não nos infantiliza”. Ribeiro frequenta a Igreja do Carmo há cinco anos. Talvez um dos maiores aprendizados que veio com as reflexões de frei Cláudio foi o da responsabilidade que cada um tem com o seu próprio destino. “Ele propõe uma religiosidade adulta em que Deus não é punitivo, mas benevolente, sempre disponível. E o mais importante, ele não precisa de mediadores e nem de representantes. Bastam só eu e ele”, refle- te o especialista.

Essa capacidade de agregar pessoas é uma das características citadas por frei Betto para designar o amigo desde os anos 70. Frei Cláudio desafiou a ditadura militar em falas públicas e cartas ao amigo Betto, publicadas no livro Cartas da Prisão, em que o apoiava, além das visitas rotineiras à família que era sua paroquiana. “Ele é o pároco mais eficiente que já conheci em termos de organizar e dinamizar uma paróquia. Cláudio tem uma coisa rara na igreja Católica, o atendimento personalizado aos seus fiéis. Ele conhece as pessoas pelo nome, dá atenção, além de ser uma pessoa extremamente aberta, ecumênica, sem pre-conceitos, na linha de um discípulo de jesus”, observa frei Betto.

Não há como falar da vida de frei Cláudio antes do Brasil. Quem poderia fazê-lo é o próprio religioso, que preferiu não se posicionar nesta entrevista. Talvez um dos amigos mais antigos do frei seja o médico Lermino Pimenta, 78 anos. foi preciso ele atravessar o Atlântico e aportar em terra francesa para ouvir falar, pela primeira vez, em frei Cláudio Van Balen, um holandês alto e magro que viria a conhecer pouco tempo depois. Era 1966, em viagem para fazer uma pós-graduação, Pimenta encontrou-se com um frade carmelita brasileiro. Conversa vai e vem, a pergunta inevitável da origem levou Pimenta a falar sobre o bairro Carmo e a rua Grão Mogol, onde morava em Belo Horizonte. “Você vai encontrar a paróquia do Carmo completamente mudada”, antecipou o frei ao jovem médico, que não frequentava a igreja porque não gostava da posição política da instituição, que considerava de direita e ligada à organização Tradição, Família e Propriedade ( TFP).

“É um homem extremamente humano. Quando perdi meu irmão em acidente de aviação, ele foi o primeiro a chegar à minha casa para consolar-me. quando fui operado de ponte de safena, ele levava a comunhão. É sempre amigo, leal, franco”, diz.

Entre um dos casos mais emocionantes de que se lembra, está a morte de um cachorro do filho, nos anos 70, quando o menino ainda estava com 10 anos. Transtornado, o garoto foi à igreja conversar com frei Cláudio. Voltou alegre. “Ele ficou mais de uma hora conversando com o meu filho porque sabia da importância daquele animal de estimação para ele”.

O homem sem medo que lutou contra a transposição do rio São Francisco e tem opiniões contundentes sobre aborto, eutanásia em artigos que estão na internet sob críticas severas dos católicos mais ortodoxos, é considerado um revolucionário para seus fiéis. É o caso do engenheiro e empresário Carlos Roberto Vasconcelos, o Tim, que admira o frei principalmente pelo fato de ele sempre estimular as pessoas a exercer a cidadania, a refletir sobre as questões ambiental, social. Frei Cláudio batizou os filhos de tim e também seus três netos. “Ele forma, antes de tudo, um cidadão. Quando ele ficou contra a transposição do rio São Francisco, teve coragem, independência. Autêntico e sincero, tem pontos de vista muito bem definidos e exterioriza isso de uma maneira muito clara”.

José Aparecido Ribeiro: “ele propõe uma religiosidade adulta”

Talvez seja por isso que um fato inédito ocorreu com a possibilidade de frei Cláudio sair da paróquia do Carmo. Houve uma mobilização dos frequentadores para que isso não acontecesse. Foi uma mobilização, segundo os amigos, que nas- ceu da empatia do frei com os fiéis. O médico Lermino Pimenta conta, por exemplo, que tão logo conheceu frei Cláudio no final dos anos 60, ele uniu-se ao religioso em seu trabalho e foi o primeiro médico a atender nas obras assistenciais da Igreja do Carmo. para ele, frei Cláudio é mais do que um padre. “Ele atualiza a liturgia”, diz.

Sua mulher, Eliane Pacheco Pimenta, 70, reforça que essa aproximação foi porque, antes de tudo, frei Cláudio se tornou o principal representante da renovação teológica. “O tempo todo ele sempre defendeu a questão da fé como uma via de libertação da pessoa e não de seu aprisionamento”. Essa modificação traduziu-se num trabalho voluntário sem precedentes na paróquia do Carmo. São cerca de 500 voluntários e um ambulatório médico que atende cerca de 3.000 pessoas por mês. “O grande compromisso do frei Cláudio é mostrar a verdadeira face de jesus Cristo. Qualquer pessoa ligada, muito ou pouco, ao frei sente que pode contar porque ele é realmente um irmão. Ele nos faz muito bem”, completa o médico Lermino Pimenta que, juntamente a outros fiéis e admiradores, deram voz a frei Cláudio nessa matéria.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Mais de 2.000 mulheres serão afetadas

Ufa. Esses dias tem sido pesados. Muita coisa para poouco tempo. Ma segue ai um texto interessante sobre a Rua Guaicurus e sua principal atração as moças que trabalham por lá. A matéria me foi enviado pelo Ricardo; era o que faltava .... querem atrapalhar as menins que dão um duro danado, sem trocadilhos.

Mais de 2.000 mulheres serão afetadas

Segundo a associação das profissionais do sexo, esse é o número de pessoas que trabalham nos 21 hotéis da Guaicurus

ERNESTO BRAGA
As intervenções na rua Guaicurus, rodoviária e entorno, anunciadas pela prefeitura, estão tirando o sono das mulheres que trabalham nos hotéis da zona boêmia. Segundo a Associação das Profissionais do Sexo de Belo Horizonte (APS-BH), mais de 2.000 mulheres, a maioria do interior de Minas e outros Estados, exibem seus corpos nos quartos de 21 hotéis à espera de clientes sedentos por sexo. Os hotéis funcionam diariamente das 8h às 23h.
A presidente da APS-BH, Dos Anjos Pereira Brandão, diz que a entidade não foi comunicada oficialmente pela prefeitura sobre a possibilidade do fim da zona boêmia. No entanto, segundo ela, as profissionais do sexo estão alarmadas com as informações que surgem sobre as mudanças na Guaicurus. "Falam que vão tirar a zona da cidade. Muitas mulheres vieram de fora e hoje moram nos hotéis. Elas não teriam para onde ir", afirma.
No quarto do hotel onde trabalha há 22 anos, na zona boêmia, a profissional do sexo M. guarda uma cópia do "Diário Oficial do Município". "Esse papel está nos assombrando. Aqui falam que vão reformar casarões e prédios antigos para moradias. Nosso medo é que resolvam nos tirar daqui para que as pessoas tenham interesse em vir morar na Guaicurus", diz. "Eu tenho cliente antigo, pai de família, que já trouxe filho e até neto na zona", acrescenta.
Há dois anos, B. largou a profissão de promotora de eventos de uma marca famosa de roupas para trabalhar como profissional do sexo na zona boêmia. De acordo com ela, os donos dos hotéis também estão preocupados com a possibilidade de fechamento dos estabelecimentos. "O que deveriam fazer é criar novas áreas de lazer na Guaicurus e melhorar a estrutura dos bares e restaurantes. O problema é que somos vítimas do preconceito de uma sociedade hipócrita, que tem medo de ser contaminada", critica.
Além dos hotéis, existem na Guaicurus vários cinemas que exibem filmes pornográficos e cabines de striptease ao vivo. Os interessados pagam entre R$ 2 e R$ 20 para assistir ao show, de dois a 40 minutos de duração. As cabines, segundo Dos Anjos Brandão, foram instaladas na zona boêmia há um ano e meio.
A consultora especializada da Secretaria Municipal de Políticas Urbanas, Maria Caldas, informa que não é função da prefeitura retirar as profissionais do sexo da rua Guaicurus. "Isso não faz parte do projeto de qualificação dessa área, pois não é de interesse público como foi a retirada dos camelôs", diz a especialista. Mas ela acredita que, com a requalificação, os hotéis deixarão de funcionar como prostíbulos.



Abandono propicia tráfico e violência


Uma das principais reclamações das pessoas que freqüentam a Guaicurus é a violência. O presidente da Associação dos Amigos da Rua Guaicurus, Ailton Alves de Matos, afirma que o tráfico de drogas está instalado no local. "A região ficou abandonada e esse abandono fez com que a violência e o tráfico migrassem para cá. O reflexo é maior à noite", diz.
Segundo a presidente da Associação das Profissionais do Sexo de Belo Horizonte, Dos Anjos Pereira Brandão, três mulheres foram assassinadas na Guaicurus neste ano. "Eram profissionais do sexo que se envolveram com o tráfico de drogas. Outras três foram ameaçadas e saíram da Guaicurus, mas foram assassinadas em outros locais", afirma.
O major Aroldo Pinheiro, comandante da 6ª Companhia da Polícia Militar, responsável pelo policiamento na Guaicurus, confirma o registro de apenas um homicídio na zona boêmia neste ano. "Estamos registrando queda de 28% da violência na Guaicurus, nos últimos três anos", diz o oficial, sem apresentar os números absolutos.
De acordo com ele, as operações para combater o tráfico de drogas foram intensificadas. "Há um mês e meio prendemos 16 traficantes que forneciam droga na Guaicurus. A maior parte deles é da Pedreira Prado Lopes", informa o major. (EB)



Rua foi palco do primeiro ciclo industrial


Antes de se tornar a tradicional zona boêmia de Belo Horizonte, imortalizada pela lendária Hilda Furacão, a rua Guaicurus foi palco do primeiro ciclo de desenvolvimento industrial da capital mineira, no início da fundação da cidade. A existência de muitos galpões e a proximidade com a estação central foram determinantes para que a região se tornasse um importante pólo industrial, segundo o assessor da presidência do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea-MG), José Abílio Belo Pereira.
"A atividade econômica ligaria a Guaicurus ao uso predominantemente comercial, mas havia também habitações. À medida que o centro da cidade foi crescendo para o lado da avenida Afonso Pena e da praça Raul Soares, a região (da Guaicurus) foi ficando abandonada. Todo aquele pedaço era inundado pelo (ribeirão) Arrudas, o que desvalorizava a área e a tornava incompatível com a atividade industrial. Com o abandono, ela foi apropriada para a atual função, a partir dos anos 50", explica Pereira. (EB)
ACERVO JOSÉ GÓES
Proximidades da Guaicurus, quando a região era pólo industrial de Belo Horizonte



Zona boêmia ganhou força nos anos 50


A zona boêmia na rua Guaicurus se formou nos anos 50. E foi nessa época que a bela Hilda Furacão, da obra de Roberto Drummond, trocou o glamour dos bailes promovidos pela alta sociedade de Belo Horizonte pelo submundo da prostituição, passando a morar no mais badalado hotel da Guaicurus.
O travesti Cintura Fina era o fiel amigo da prostituta. Mas até hoje ninguém sabe ao certo se ela realmente existiu. Atualmente, os bordéis se disseminaram pela região, onde há grande concentração comercial, com destaque para os atacadistas de variados produtos, bares e lanchonetes.
A proximidade com os shoppings populares e a grande quantidade de pontos de ônibus também atraem muitas pessoas ao local. O comércio formal funciona das 7h às 18h. Após esse horário, sobram os botequins e os vendedores informais, que oferecem de comida a tatuagens na Guaicurus e imediações. (EB)

Publicado em: 04/11/2007

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Zona boêmia da Guaicurus pode perder seu espaço

Prefeitura quer requalificar tradicional rua; área deve ser transformada em eixo cultural

ERNESTO BRAGA
Conhecida tradicionalmente como a zona boêmia de Belo Horizonte, em atividade desde a década de 50, a rua Guaicurus, no centro da cidade, poderá perder o estigma de ponto de prostituição. A prefeitura busca parceiros na iniciativa privada para promover a requalificação urbanística e ambiental da região. A alternativa mais evidente, segundo a consultora especializada da Secretaria Municipal de Políticas Urbanas, Maria Caldas, é transformar a área em um complemento do eixo cultural instalado ao longo do Bulevar Arrudas. Para a consultora, com a nova ocupação urbana, a tendência é que os hotéis onde trabalham as profissionais do sexo migrem espontaneamente para outro local.
Rua Guaicurus, no hipercentro de BH; consultora da prefeitura acredita que hotéis migrarão espontaneamente para outra região após requalificação
Foto: DANIEL DE CERQUEIRA" target="_blank" href="http://www.otempo.com.br/otempo/fotos/20071104/foto_03112007180454.jpg">
Rua Guaicurus, no hipercentro de BH; consultora da prefeitura acredita que hotéis migrarão espontaneamente para outra região após requalificação

A operação urbana na rua Guaicurus, rodoviária e entorno faz parte do Plano de Reabilitação do Hipercentro, lançado pelo prefeito Fernando Pimentel (PT) no último dia 19. Segundo Maria Caldas, ainda não foi definido exatamente o que será feito na região e quando as obras serão iniciadas. Ela informa que o objetivo do prefeito é licitar os 14 projetos do plano até o término do mandato, no final de 2008. "O plano é uma proposta macro de identificação de áreas que podem sofrer intervenções. A da Guaicurus é a de maior potencial para receber projetos arrojados de substituição do tecido urbano, que demandem grandes áreas."
Embora afirme que não exista nenhum projeto definido, Pimentel ressalta que o plano quer mudar o perfil da área. "A previsão é que quatro quarteirões, entre a Guaicurus e a Santos Dumont, sejam objeto de uma operação urbana que facilitaria algum empreendedor privado a investir e mudar o perfil que hoje tem ali. Mas não tem nada concreto e por enquanto não recebemos proposta de interesse de nenhum grupo sobre isso", diz o prefeito. As mudanças na Guaicurus dependem da aprovação de uma lei. Maria Caldas explica que há muitos galpões na Guaicurus, a maioria vazia e danificada, que podem ser substituídos por centros de convenções e culturais. "Há uma vocação para atividades complementares às do bulevar. A existência de grandes prédios, subutilizados, também permite que a área seja explorada pela hotelaria e turismo de negócios."
Segundo o presidente da Associação dos Amigos da Rua Guaicurus, Ailton Alves de Matos, alguns imóveis podem ser transformados em moradias estudantis. Maria Caldas afirma que entre as diretrizes do plano está o estímulo ao uso residencial no centro. Mas ela diz que não está definida a construção de conjuntos habitacionais. Para Maria Caldas, a existência da zona boêmia não inviabilizaria a execução de projetos. "O abandono leva à degradação. Pode até existir uma harmonia após a valorização. O que não pode é a dominação por esse uso (a zona boêmia). A idéia não é expulsar ninguém, mas a tendência é que os hotéis queiram ir para outra região." Matos acredita que as intervenções vão atrair moradores e comerciantes. Segundo ele, pelo menos dez prédios estão subutilizados. Mas Matos defende a permanência da zona boêmia. "Não pode ocorrer um desrespeito com quem já está instalado na Guaicurus. A cidade sempre conviveu tranqüilamente com essa região, que é clássica."




Oswaldo de Assis Ferreira, 53, trabalha no centro há 37 anos
Comerciante teme prejuízos em venda de churrasco


Há 37 anos, o comerciante informal Oswaldo de Assis Ferreira, 53, trabalha no centro de Belo Horizonte. Atualmente, ele vende churrasquinhos ao lado de um dos hotéis da rua Guaicurus onde são encontradas as profissionais do sexo. A possível migração dos hotéis para outra região, ressalta Ferreira, reduziria muito o movimento no comércio local.
"Se tirarem os hotéis daqui, muita loja vai fechar as portas. As profissionais do sexo são as principais consumidoras do comércio da Guaicurus e atraem as pessoas para essa região", diz Ferreira. A profissional do sexo B., 27, que há dois anos faz programas na zona boêmia, afirma que mais de 90% da clientela das farmácias, lanchonetes e salões de beleza são mulheres que trabalham nos hotéis.
Há 22 anos trabalhando na Guaicurus, a profissional do sexo M. ressalta que o comércio na região sempre conviveu em harmonia com a prostituição.
"Há um respeito mútuo entre os donos das lojas, seus funcionários e as profissionais do sexo. Muitos comerciantes do interior preferem fazer compras nos atacadistas daqui, pois aproveitam para dar uma passada nos hotéis", destaca.
Para ela, os shoppings populares foram criados estrategicamente próximo à rua Guaicurus, por causa da grande movimentação de pessoas no local. "Se eles não tivessem sido construídos aqui, não fariam tanto sucesso", ressalta. (EB)




Intervenções devem incluir quatro quarteirões
Residências poderão dar nova vida à região


Defensor do uso residencial do centro de Belo Horizonte, o assessor da presidência do Conselho de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG), José Abílio Belo Pereira, acredita que futuros moradores da Guaicurus poderão conviver de forma harmoniosa com a movimentada zona boêmia. "É interessante manter habitações na área central da cidade, pois é isso que dá vida à região. A convivência entre variados usuários é possível, desde que seja mantida a disciplina, como ocorre em outros lugares do mundo", afirma.
Pereira destaca a importância das intervenções previstas na Guaicurus e, assim como a consultora da Secretaria de Políticas Urbanas, Maria Caldas, ressalta a vocação da área para os empreendimentos culturais. "Não se trata de uma revitalização, pois o espaço público não está morto. Pelo contrário, é cheio de vida, de gente circulando. A expressão mais correta é requalificação, dos passeios, praças e equipamentos públicos ou mesmo privados, mas que sejam de interesse coletivo", diz.
A diretora de patrimônio do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) em Minas, Branca Perocco, destaca que as ações de reabilitação executadas no centro trazem mais benefícios do que as realizadas nos bairros. Para ela, o fato de atualmente a rua abrigar uma zona boêmia não impede que futuramente ela tenha uso residencial. A arquiteta acredita que os próprios hotéis tenham interesse em sair de lá. "Eu creio que a prefeitura não seja tão radical de querer acabar com uma tradição, um rótulo difícil de ser tirado. Mas essas coisas acontecem naturalmente, como ocorreu em Portugal e outros países." (EB)

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Deu no NYTimes

O Colega, amigo e comparsa nas questões afins desse blog Ricardo, me mandou o seguinte texto.
É verdade "Em Belo Horizonte , o mundo é um bar."


28/10/2007
Belo Horizonte, uma cidade onde o mundo é um bar

De Seth Kugel

Belo Horizonte , a capital de Minas Gerais, conseguiu se tornar a terceira
maior cidade do Brasil e continuar quase totalmente desconhecida para o
mundo exterior. Se os turistas —mais atraídos para os prazeres sensuais do
Rio de Janeiro ou a agitação urbana de São Paulo— a conhecem é porque passam
por ela a caminho de Ouro Preto e Diamantina, vendo-a mais como uma escala
para reabastecimento na rota das pitorescas cidades mineiras da era
colonial.

Lalo de Almeida / The New York Times



A tradicional parede com marcas de cachaça, para a escolha do cliente, em
bares de BH



Seu anonimato internacional se explica pela falta de litoral, e portanto de
praias, de um carnaval famoso e de grandes atrações, exceto alguns edifícios
desenhados por Oscar Niemeyer que empalidecem perto de suas famosas obras de
Brasília.

Mas "Beagá", o apelido da cidade, pode reivindicar fama como capital
brasileira dos bares. Não bares como nos saguões elegantes de hotéis ou em
mercados agitados, mas botecos —lugares informais onde diversas gerações se
encontram, se sentam, bebem cerveja e aguardente e muitas vezes fazem uma
refeição informal. A se acreditar na propaganda local, a cidade tem 12.000
bares, uma quantidade per capita maior que a de qualquer outra cidade do
país. Por quê, ninguém tem certeza absoluta, mas uma teoria se transformou
em ditado popular: "Não tem mares, tem bares".

Embora os guias turísticos raramente os mencionem, eles são uma ótima
maneira de os viajantes mergulharem na vida social de uma cidade cuja área
metropolitana explodiu nas últimas décadas, para mais de 5 milhões de
habitantes. A melhor época de visitá-la é em abril, para a competição
'Comida di Buteco', quando cerca de 40 dos melhores bares disputam prêmios
em categorias como higiene, cerveja mais gelada, serviço e, principalmente,
o melhor tira-gosto. Os vencedores são decididos não apenas por juízes, mas
pelo voto público, dando aos moradores uma boa desculpa para sair todas as
noites durante um mês.

Se você perder o concurso, não se preocupe. Toda noite do ano parece ter uma
clima de festa em Belo Horizonte. Vá até a Mercearia Lili (rua São João
Evangelista, 696, Santo Antônio, 31-3296-1951), um participante habitual da
competição entre bares. É um dos muitos locais em Santo Antônio, um bairro
de alto nível, com ladeiras íngremes que exigem técnicas sobre-humanas de
estacionamento, ou, de preferência, use os táxis da cidade.

O bar é típico de muitas maneiras, a começar pelo mobiliário: mesas e
cadeiras de plástico amarelo com logotipo de cerveja, que se esparramam pela
calçada (garrafas de 600ml de cerveja, a ser compartilhada em pequenos
copos, são as preferidas em toda a cidade). O burburinho da conversa e o
ruído das garrafas -e não um DJ- fornecem a trilha sonora; homens e mulheres
grisalhos e jovens que nos EUA seriam menores de idade compartilham as
mesas.

Não muito longe fica o Via Cristina (rua Cristina, 1203, Santo Antônio,
31-3296-8343). É mais elegante, com mesas cobertas de toalhas xadrez verde e
brancas, garçons uniformizados e uma parede de cachaças —centenas de
garrafas diferentes da aguardente de cana-de-açúcar— que os barmen alcançam
usando uma escada como as de bibliotecas. Sua participação no concurso deste
ano foi o Raulzito, um bolinho frito recheado de carne-seca que custa R$
2,00.

Se houvesse um prêmio pelo "Mais Difícil de Chegar", o Freud Bar (sem
endereço, Nova Lima, 31-8833-9098, mapa em freudbar.com) ganharia todos os
anos. O lugar fica escondido no meio de uma mata perto da cidade, e chega-se
lá por uma estrada sinuosa de terra. O bar é construído num morro, aquecido
por lareira e tem algumas mesas sob as árvores. Tem música ao vivo (blues e
rock) e serve um cardápio limitado, mas criativo, como vinho quente ou uma
sopa de abóbora, mussarela e frango (R$ 3,50), uma boa variação da sopa de
feijão com toucinho oferecida em quase todos os botecos.

Lalo de Almeida / The New York Times

Informal, com suas mesas e cadeiras 'diferenciadas', o Bar do Caixote é um
dos muitos botecos de 'Beagá'

Os botecos não são apenas assuntos noturnos, como você descobrirá se for ao
Mercado Central da cidade numa tarde de fim de semana. Claro, há barracas
que vendem frutas, carne, os famosos queijos de Minas, cães e aves vivos
(para mascotes) e galinhas vivas (para jantar). Mas o mercado também é cheio
de bares lotados e barulhentos como o Lumapa, onde as autoridades precisam
cercar com correntes a calçada para que os clientes do mercado possam
circular. Uma opção mais calma é o Casa Cheia (Mercado Central, loja 167,
Centro, 31-3274-9585), um lugar com mesas que serve criações como o
Mexidoido Chapado, uma mistura de arroz, legumes, quatro tipos de carne e
ovos de codorna.

Também vale a pena ir aos bairros mais distantes para ver algumas versões
mais excêntricas de bares. (Com 11.999 concorrentes, faz-se o possível para
se destacar.) O ultra-informal Bar do Caixote (rua Nogueira da Gama, 189,
João Pinheiro , 31-3376-3010) tem mesas e cadeiras feitas de caixotes de
madeira. O vencedor geral do concurso deste ano, o Bar do Véio (rua Itaguaí,
406, Caiçara, 31-3415-8455), fica num bairro distante e o motorista de táxi
pode ter dificuldade para encontrá-lo, mas qualquer pessoa na região poderá
lhe indicar. Seu prato simples de pedaços de carne de porco com bolinhas
douradas de batata frita, servido com molho de abacaxi e hortelã, foi o
tira-gosto vencedor de 2007.

Quando você precisar de um descanso dos bares, faça um passeio à tarde ao
bairro da Pampulha, onde há vários edifícios de Niemeyer, incluindo sua
famosa Igreja de São Francisco de Assis. O bairro também abriga o mais
famoso restaurante de Belo Horizonte , o Xapuri (rua Mandacaru, 260,
Pampulha, 31-3496-6198), o melhor da cidade para experimentar a tradicional
cozinha 'caipira' de Minas Gerais. E no domingo de manhã você pode encontrar
presentes incomuns na 'feira hippie' (ou Feira de Arte e Artesanato da
Afonso Pena), dois longos quarteirões da avenida Afonso Pena cheios de
roupas, jóias, artigos de decoração e artesanato. Quando terminar, pare nas
barracas nas duas extremidades para comer peixe frito ou doces de coco, ou
entre para descansar no maravilhoso Parque Municipal, logo abaixo da feira.
Em qualquer um deles você não estará longe de um vendedor ambulante pronto
para lhe abrir uma lata de cerveja. Em Belo Horizonte , o mundo é um bar.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/