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domingo, 15 de junho de 2008

Presas entre as liberdades da sociedade européia e as tradições islâmicas

Abaixo uma interessante reportagem do Estado de S. Paulo (jornal que apesar de suas posições ideológicas, em minha opinião é o melhor do país) sobre o tema da sempre complicada relação estado laico X religião.

Muçulmanas recuperam virgindade

Presas entre as liberdades da sociedade européia e as tradições islâmicas, jovens recorrem cada vez mais à cirurgia

Elaine Sciolino e Souad Mekhennet

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A operação na clínica privada em Champs-Elysées, em Paris, envolveu um corte semicircular, dez pontos que se dissolvem e o pagamento de US$ 2.900. Mas, para a estudante francesa de Montpellier, uma descendente de marroquinos de 23 anos, o procedimento que durou 30 minutos será a chave para uma nova vida: a ilusão da virgindade.

Como um número cada vez maior de mulheres muçulmanas na Europa, a estudante submeteu-se a uma himenoplastia, a reconstituição de seu hímen. "No momento, a virgindade é mais importante para mim do que a vida", disse, enquanto aguardava a cirurgia.

À medida que a população islâmica na Europa aumenta, muitas jovens muçulmanas se vêem presas entre as liberdades permitidas pela sociedade européia e as tradições de seus pais e avós. Segundo alguns ginecologistas, nos últimos anos cada vez mais muçulmanas vêm precisando fornecer certidões provando sua virgindade. Foi isso que criou a demanda, entre os cirurgiões plásticos, para as operações para a reconstituição do hímen.

Quando o procedimento é realizado corretamente, na noite de núpcias produz-se o sangramento vaginal que faz o marido acreditar que a noiva é virgem. O serviço é amplamente anunciado na internet. "Se você é muçulmana, mas cresce nas sociedades abertas da Europa, pode acabar fazendo sexo antes do casamento", diz Hicham Mouallem, médico que faz essa operação em Londres. "Se pretende se casar com um muçulmano sem ter problemas, tentará recuperar sua virgindade."

Não há estatísticas confiáveis sobre a himenoplastia, porque o procedimento geralmente é realizado em clínicas particulares e não é coberto por planos de saúde. Mas vem se falando tanto sobre tal cirurgia que ela foi tema de um filme lançado na Itália esta semana. A comédia Os Corações das Mulheres (na tradução livre) narra a história de uma marroquina que vive na Itália e viaja até Casablanca para fazer a operação.

"O que muitos pensam ser uma prática esporádica, na verdade, é muito comum", diz o diretor do filme, Davide Sordella. "Essas mulheres podem adotar nossa mentalidade e usar jeans. Mas, em momentos importantes, nem sempre conseguem contrariar sua cultura."

O assunto provoca polêmica também na França, onde o debate começou com a revelação, há duas semanas, de que um tribunal em Lille tinha anulado o casamento de dois jovens muçulmanos franceses, em 2006, porque o noivo descobrira que a noiva não era a virgem, como afirmava ser.

O drama doméstico tomou conta do país. O noivo, um engenheiro de 30 anos, abandonou o leito nupcial e anunciou aos convidados, que ainda festejavam, que a noiva tinha mentido sobre o seu passado. Na mesma noite, ela foi deixada na porta da casa dos pais. O engenheiro procurou um advogado para anular o casamento. A noiva, uma estudante de enfermagem de 20 anos, confessou ter mentido sobre sua virgindade no tribunal e concordou com a anulação.

Em sua decisão, a corte não fez menção a questões religiosas. Pelo contrário, alegou violação de contrato, já que o engenheiro tinha se casado com a jovem depois "que ela se apresentou a ele como solteira e casta". Na França republicana e secular, o caso toca em vários temas delicados: a intromissão da religião na vida cotidiana, as causas para a dissolução de um casamento e a igualdade dos sexos.

Apelos foram feitos ao Parlamento, pedindo a renúncia da ministra francesa da Justiça, Rachida Dati, depois de ela ter, inicialmente, defendido a decisão. Dati, que é muçulmana, voltou atrás. Para algumas feministas, advogados e médicos, o fato de o tribunal ter aceitado que a virgindade possa ser essencial para o casamento pode encorajar mulheres de origem árabe e africana a procurarem reconstituir seu hímen. O grande debate é se o procedimento é um ato de libertação ou de repressão.

"O julgamento foi uma traição às muçulmanas da França", diz Elisabeth Badinter, escritora feminista. "Ele envia para essas mulheres uma mensagem de desespero ao afirmar que a virgindade é importante aos olhos da lei. Mais mulheres vão dizer: ?meu Deus, não vou assumir o risco. Vou restaurar minha virgindade?."

A Associação Nacional de Ginecologistas e Obstetras Franceses é contrária ao procedimento por razões morais, culturais e de saúde.

"Tivemos uma revolução na França para conquistar a igualdade; tivemos uma revolução sexual em 1968, quando as mulheres lutaram pela contracepção e o aborto", diz Charles Lansac, presidente da Associação. "Dar tanta importância ao hímen é uma submissão à intolerância do passado".

domingo, 1 de junho de 2008

O triunfo da vida

Mais um execelente texto do Petry a vários anos a única vida inteligente e independente de Veja.

O triunfo da vida

Se podemos pesquisar embriões, que são uma forma de vida, mais tarde talvez possamos autorizar
o aborto ou a eutanásia. Ou popularizar a pílula do dia seguinte, ou legalizar o casamento gay

De André Petry:

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil divulgou nota logo depois que o Supremo Tribunal Federal aprovou as pesquisas com células-tronco embrionárias. A nota revela uma vacilação rara na história da CNBB, uma entidade com posições sempre claras e claramente defendidas. Lendo-se os oito parágrafos do texto, fica-se com a impressão de que os bispos não sabiam bem o que dizer e disseram bem mais do que queriam. Vale a pena examinar o texto – o que nos mostrará, no fim, que estamos todos buscando a mesmíssima coisa. A ver.

O trecho mais flagrante da nota diz o seguinte: "A decisão do STF revelou uma grande divergência sobre a questão em julgamento, o que mostra que há ministros do Supremo que, nesse caso, têm posições éticas semelhantes à da CNBB. Portanto", conclui a nota, "não se trata de uma questão religiosa, mas de promoção e defesa da vida humana, desde a fecundação, em qualquer circunstância em que esta se encontra".

O primeiro aspecto a observar é que é raro, talvez inédito, que a CNBB faça a defesa pública de um ponto de vista – no caso, contrário às pesquisas com embriões – e sinta-se no dever de dizer que não se trata de uma "questão religiosa". É raro, talvez inédito, porque a CNBB, sendo uma entidade religiosa, que congrega a cúpula da Igreja Católica no Brasil, tem todo o direito – na verdade, o dever – de defender pontos de vista religiosos. São eles que formam a alma da Igreja e servem como guia espiritual para o seu rebanho.

O outro aspecto notável do trecho acima decorre do primeiro: a CNBB nega que sua posição seja uma "questão religiosa" apenas para melhor promovê-la – e, nisso, consiga fazer triunfar seu ponto de vista religioso. Isso acontece porque a CNBB sabe que, se sua opinião sobre as pesquisas embrionárias for considerada religiosa, terá de ser constitucionalmente descartada, por força do caráter laico do estado. Então, nega-se o que, na verdade, pretende-se reforçar.

É preciso esclarecer que a posição da CNBB é uma "questão religiosa", como talvez não pudesse deixar de ser, sendo a CNBB o que é. É religiosa porque a entidade defende a vida como obra divina e, tendo origem sagrada, deve ficar intocada pela mão humana. Se podemos pesquisar embriões, que são uma forma de vida, significa que mais tarde talvez possamos autorizar o aborto ou a eutanásia. E, saindo-se do terreno onde vidas podem terminar e entrando no terreno onde vidas podem começar, quem sabe possamos popularizar a pílula do dia seguinte ou legalizar o casamento gay, que é infrutífero.

Tudo isso – aborto, eutanásia, pílula, casamento gay – se choca com as idéias da CNBB, com sua concepção religiosa da vida. Não há nada objetivamente errado na concepção religiosa da vida. É uma posição respeitável, corajosa, humanitária. Só não pode, por ser religiosa, prevalecer na vida civil de um país laico. Sobretudo porque a posição favorável às pesquisas embrionárias também é respeitável, corajosa, humanitária e, não sendo religiosa, pode prevalecer na vida civil de um país laico. Isso prova, como se disse no início deste texto, que estamos todos, religiosos ou não, na busca da mesmíssima coisa, embora por meios diferentes: o triunfo da vida.