sábado, 27 de dezembro de 2008

Quando a idéia de Mulato ainda é usada como forma elogiosa, eis que - Parte III

Que bom que a experiência prática tem levado a reflexões tão seguras e maduras, quantas as relatadas abaixo pelo Meritissimo Juiz de Direito Willian Douglas. Me lembro, quando Eu já favorável as cotas fui convidado por uma querida colega e amiga para conhecer o Educafro, Ong na qual ela atuava. Fo paixão de primeira e como foi bom na medida do meu tempo escasso ter podido junto com ela e outros tantos participar dessa experiência em Minas. De poder sentir atuando em uma experiência já vitoriosa no Rio de Janeiro e em S. Paulo. Lembro-me que naqueles anos, entre fins de 2001 e 2002 o Educafro em Minas era apenas uma semente, já frutífera (bem me lembro), mas apenas uma semente no bairro São José e que graças ao trabalho sério de pessoas como a minha amiga Dani, do Sérgio, dos freis franciscanos e posteriormente da ajuda vinda do Colégio Santo Antônio, o Educafro foi crescendo, crescendo. Me lembro que por motivos profissionais e acadêmicos (motivos de tempo que fiquem claro) acabei tendo que me afastar mas ainda assim acompanhando por e-mails e em datas festivas as vitórias do Educarfro e de seus alunos. Anos mais tarde já sob a batuta de outra colega, a Paulinha (que aliás havia indicado ao Educafro devido sua sede de justiça e vontade de trabalhar com a nossa questão da afro-descedência) e a Danielle pode pessoalmente ver o tanto que o EDUCAFRO havia fortificado e produzido frutos. Lembro-me da grata surpresa ao chegar ao Encontro anual do Educafro em Betim (encontro este que frequentei durante pelo menos uns 4 anos) desta vez na condição de um convidado palestrante (e aqui digo cheio de orgulho, já que nesse caso representava tanto a fortificação do Educafro, quanto minha fortificação pessoal, pois que nessa época já era um pós-graduando e interessado em estudar as questões afro-descendentes) e perceber que o Educafro Minas era uma realidade em todas as regiões do Estado. Me lembro o quão bom foi conversar com pessoas do centro-oeste mineiro, do triangulo, do sul, do campo das vertentes, da zona da mata e saber os resultados auspiciosos destes cursinhos. Enfim ler esse texto foi muito feliz e oportuno e me permitiu relembrar momentos tão bons como esse e de público agradecer aos que permitiram esse momento rico: Dani e Sérgio e render homenagem nas pessoas da Paulinha e da Danielle que continuam tão bonita trajetória. Carlos Eduardo, mestre em Antropologia, negro, professor e militante das Açoes Afirmativas e Cidadãs para as minorias sejam elas raciais, econômicas, religiosas, de origem de opção sexual e ideológicas.
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Juiz Federal muda opinião sobre cotas para negros (as)

William Douglas, juiz federal (RJ), mestre em Direito (UGF),
especialista em Políticas Públicas e Governo (EPPG/UFRJ),
professor e escritor, caucasiano e de olhos azuis.

Roberto Lyra, Promotor de Justiça, um dos autores do Código Penal de 1940, ao lado de Alcântara Machado e Nelson Hungria, recomendava aos colegas de Ministério Público que "antes de se pedir a prisão de alguém deveria se passar um dia na cadeia". Gênio, visionário e à frente de seu tempo, Lyra informava que apenas a experiência viva permite compreender bem uma situação.

Quem procurar meus artigos, verá que no início era contra as cotas para negros, defendendo – com boas razões, eu creio – que seria mais razoável e menos complicado reservá-las apenas para os oriundos de escolas públicas. Escrevo hoje para dizer que não penso mais assim. As cotas para negros também devem existir. E digo mais: a urgência de sua consolidação e aperfeiçoamento é extraordinária. Embora juiz federal, não me valerei de argumentos jurídicos. A Constituição da República é pródiga em planos de igualdade, de correção de injustiças, de construção de uma sociedade mais justa. Quem quiser, nela encontrará todos os fundamentos que precisa. A Constituição de 1988 pode ser usada como se queira, mas me parece evidente que a sua intenção é, de fato, tornar esse país melhor e mais decente. Desde sempre as leis reservaram privilégios para os abastados, não sendo de se exasperarem as classes dominantes se, umas poucas vezes ao menos, sesmarias, capitanias hereditárias, cartórios e financiamentos se dirigirem aos mais necessitados. Não me valerei de argumentos técnicos nem jurídicos dado que ambos os lados os têm em boa monta, e o valor pessoal e a competência dos contendores desse assunto comprovam que há gente de bem, capaz, bem intencionada, honesta e com bons fundamentos dos dois lados da cerca: os que querem as cotas para negros, e os que a rejeitam, todos com bons argumentos.

Por isso, em texto simples, quero deixar clara minha posição como homem, cristão, cidadão, juiz, professor, "guru dos concursos" e qualquer outro adjetivo a que me proponha: as cotas para negros devem ser mantidas e aperfeiçoadas. E meu melhor argumento para isso é aquele que me convenceu a trocar de lado: "passar um dia na cadeia". Professor de técnicas de estudo, há nove anos venho fazendo palestras gratuitas sobre como passar no vestibular para a EDUCAFRO, pré-vestibular para negros e carentes. Mesmo sendo, por ideologia, contra um pré-vestibular "para negros", aceitei convite para aulas como voluntário naquela ONG por entender que isso seria uma contribuição que poderia ajudar, ou seja, aulas, doação de livros, incentivo. Sempre foi complicado chegar lá e dizer minha antiga opinião contra cotas para negros, mas fazia minha parte com as aulas e livros. E nessa convivência fui descobrindo que se ser pobre é um problema, ser pobre e negro é um problema maior ainda. Meu pai foi lavrador até seus 19 anos, minha mãe operária de "chão de fábrica", fui pobre quando menino, remediado quando adolescente. Nada foi fácil, e não cheguei a juiz federal, a 350.000 livros vendidos e a fazer palestras para mais de 750.000 pessoas por um caminho curto, nem fácil. Sei o que é não ter dinheiro, nem portas, nem espaço. Mas tive heróis que me abriram a picada nesse matagal onde passei. E conheço outros heróis, negros, que chegaram longe, como Benedito Gonçalves, Ministro do STJ, Angelina Siqueira, juíza federal. Conheço vários heróis, negros, do Supremo à portaria de meu prédio.

Apenas não acho que temos que exigir heroísmo de cada menino pobre e negro desse país. Minha filha, loura e de olhos claros, estuda há três anos num colégio onde não há um aluno negro sequer, onde há brinquedos, professores bem remunerados, aulas de tudo; sua similar negra, filha de minha empregada, e com a mesma idade, entrou na escola esse ano, escola sem professores, sem carteiras, com banheiro quebrado. Minha filha tem psicóloga para ajudar a lidar com a separação dos pais, foi à Disney, tem aulas de Ballet. A outra, nada, tem um quintal de barro, viagens mais curtas. A filha da empregada, que ajudo quanto posso, visitou minha casa e saiu com o sonho de ter seu próprio quarto, coisa que lhe passou na cabeça quando viu o quarto de minha filha, lindo, decorado, com armário inundado de roupas de princesa. Toda menina é uma princesa, mas há poucas das princesas negras com vestidos compatíveis, e armários, e escolas compatíveis, nesse país imenso. A princesa negra disse para sua mãe que iria orar para Deus pedindo um quarto só para ela, e eu me incomodei por lembrar que Deus ainda insiste em que usemos nossas mãos humanas para fazer Sua Justiça. Sei que Deus espera que eu, seu filho, ajude nesse assunto. E se não cresse em Deus como creio, saberia que com ou sem um ser divino nessa história, esse assunto não está bem resolvido. O assunto demanda de todos nós uma posição consistente, uma que não se prenda apenas à teorias e comece a resolver logo os fatos do cotidiano: faltam quartos e escolas boas para as princesas negras, e também para os príncipes dessa cor de pele. Não que tenha nada contra o bem estar da minha menina: os avós e os pais dela deram (e dão) muito duro para ela ter isso. Apenas não acho justo nem honesto que lá na frente, daqui a uma década de desigualdade, ambas sejam exigidas da mesma forma. Eu direi para minha filha que a sua similar mais pobre deve ter alguma contrapartida para entrar na faculdade. Não seria igualdade nem honesto tratar as duas da mesma forma só ao completarem quinze anos, mas sim uma desmesurada e cruel maldade, para não escolher palavras mais adequadas. Não se diga que possamos deixar isso para ser resolvido só no ensino fundamental e médio. É quase como não fazer nada e dizer que tudo se resolverá um dia, aos poucos. Já estamos com duzentos anos de espera por dias mais igualitários. Os pobres sempre foram tratados à margem. O caso é urgente: vamos enfrentar o problema no ensino fundamental, médio, cotas, universidade, distribuição de renda, tributação mais justa e assim por diante. Não podemos adiar nada, nem aguardar nem um pouco. Foi vendo meninos e meninas negros, e negros e pobres, tentando uma chance, sofrendo, brilhando nos olhos uma esperança incômoda diante de tantas agruras, que fui mudando minha opinião. Não foram argumentos jurídicos, embora eu os conheça, foi passar não um, mas vários "dias na cadeia". Na cadeia deles, os pobres, lugar de onde vieram meus pais, de um lugar que experimentei um pouco só quando mais moço. De onde eles vêm, as cotas fazem todo sentido. Se alguém discorda das cotas, me perdoe, mas não devem fazê-lo olhando os livros e teses, ou seus temores. Livros, teses, doutrinas e leis servem a qualquer coisa, até ao nazismo. Temores apenas toldam a visão serena. Para quem é contra, com respeito, recomendo um dia "na cadeia". Um dia de palestra para quatro mil pobres, brancos e negros, onde se vê a esperança tomar forma e precisar de ajuda. Convido todos que são contra as cotas a passar conosco, brancos e negros, uma tarde num cursinho pré-vestibular para quem não tem pão, passagem, escola, psicólogo, cursinho de inglês, ballet, nem coisa parecida, inclusive professores de todas as matérias no ensino médio.

Se você é contra as cotas para negros, eu o respeito. Aliás, também fui contra por muito tempo. Mas peço uma reflexão nessa semana: na escola, no bairro, no restaurante, nos lugares que freqüenta, repare quantos negros existem ao seu lado, em condições de igualdade (não vale porteiro, motorista, servente ou coisa parecida). Se há poucos negros ao seu redor, me perdoe, mas você precisa "passar um dia na cadeia" antes de firmar uma posição coerente não com as teorias (elas servem pra tudo), mas com a realidade desse país. Com nossa realidade urgente. Nada me convenceu, amigos, senão a realidade, senão os meninos e meninas querendo estudar ao invés de qualquer outra coisa, querendo vencer, querendo uma chance. Ah, sim, "os negros vão atrapalhar a universidade, baixar seu nível", conheço esse argumento e ele sempre me preocupou, confesso. Mas os cotistas já mostraram que sua média de notas é maior, e menor a média de faltas do que a de quem nunca precisou das cotas. Curiosamente, negros ricos e não cotistas faltam mais às aulas do que negros pobres que precisaram das cotas. A explicação é simples: apesar de tudo a menos por tanto tempo, e talvez por isso, eles se agarram com tanta fé e garra ao pouco que lhe dão, que suas notas são melhores do que a média de quem não teve tanta dificuldade para pavimentar seu chão. Somos todos humanos, e todos frágeis e toscos: apenas precisamos dar chance para todos. Precisamos confirmar as cotas para negros e para os oriundos da escola pública. Temos que podermos considerar não apenas os deficientes físicos (o que todo mundo aceita), mas também os econômicos, e dar a eles uma oportunidade de igualdade, uma contrapartida para caminharem com seus co-irmãos de raça (humana) e seus concidadãos, de um país que se quer solidário, igualitário, plural e democrático. Não podemos ter tanta paciência para resolver a discriminação racial que existe na prática: vamos dar saltos ao invés de rastejar em direção a políticas afirmativas de uma nova realidade. Se você não concorda, respeito, mas só se você passar um dia conosco "na cadeia". Vendo e sentindo o que você verá e sentirá naquele meio, ou você sairá concordando conosco, ou ao menos sem tanta convicção contra o que estamos querendo: igualdade de oportunidades, ou ao menos uma chance. Não para minha filha, ou a sua, elas não precisarão ser heroínas e nós já conseguimos para elas uma estrada. Queremos um caminho para passar quem não está tendo chance alguma, ao menos chance honesta. Daqui a alguns poucos anos, se vierem as cotas, a realidade será outra. Uma melhor. E queremos você conosco nessa história. Não creio que esse mundo seja seguro para minha filha, que tem tudo, se ele não for ao menos um pouco mais justo para com os filhos dos outros, que talvez não tenham tido minha sorte. Talvez seus filhos tenham tudo, mas tudo não basta se os filhos dos outros não tiverem alguma coisa. Seja como for, por ideal, egoísmo (de proteger o mundo onde vão morar nossos filhos), ou por passar alguns dias por ano "na cadeia" com meninos pobres, negros, amarelos, pardos, brancos, é que aposto meus olhos azuis dizendo que precisamos das cotas, agora. E, claro, financiar os meninos pobres, negros, pardos, amarelos e brancos, para que estudem e pelo conhecimento mudem sua história, e a do nosso país comum, pois, afinal de contas, moraremos todos naquilo que estamos construindo.

Então, como diria Roberto Lyra, em uma de suas falas, "O sol nascerá para todos. Todos dirão – nós – e não – eu. E amarão ao próximo por amor próprio. Cada um repetirá: possuo o que dei. Curvemo-nos ante a aurora da verdade dita pela beleza, da justiça expressa pelo amor."
Justiça expressa pelo amor e pela experiência, não pelas teses. As cotas são justas, honestas, solidárias, necessárias. E, mais que tudo, urgentes. Ou fique a favor, ou pelo menos visite a cadeia.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Níver

Comemoramos hoje, 26 dedezembro os 14 messes do nosso Ilê Axé. E com esse post comemorativo atingimos o post de número 405. Por tudo isso e em comemoração, o Abanjá esta de roupa nova, cores novas e elementos novos e espero de enérgias renovadas para os próximos 14,28,56 meses e ... provavelmente nos próximos dias teremos aqui alguma respectiva de textos que mais me agradaram. Enfim mais uma comemoração nessa semana festiva.

Quando a idéia de Mulato ainda é usada como forma elogiosa, eis que - Parte II

Abaixo um dos postes mais interessante, por que claro, direto e em uma linguagem simples para os não estudiosos do tema; mas principalemente por ser elucidativo sobre o racismo a brasileira e suas características principais. Algo aliás que a psicologia social em sua vertente sobre estudos raciais vem tratando com grande perspicácia. Bom fiquem abaixo com o ótimo post (os grifos são meus). Do blog Liberal, Libertário e Libertino: http://www.interney.net/blogs/lll/?cat=2280
A Invisibilidade do Racismo
Recentemente, falei dos brancos que acham que não tem raça e dos que gritam racismo reverso sempre que os negros tentam levantar o queixo. Agora, alguns exemplos. Na verdade, são tantos que é até fastidioso listar. O Marcus chamou minha atenção para esse tópico do Orkut, onde um aluno questiona porque o comercial de sua escola não mostra nenhum aluno negro:
Por que não aparecem alunos negros nos comerciais do energia??? os comerciais não tem que ser direcionados a todas classes e raças???
De 18 pessoas que responderam, só 3 manifestaram apoio ao autor do questionamento inicial, sendo que um deles ainda aponta:
Levando em consideração que um dos professores do colégio é o Wander, que cita em sua página livro que duvida do Holocausto judeu, o seu tópico faz todo o sentido!
O racismo brasileiro é pior que o americano justamente por ser hegemônico e, portanto, invisível. Nos EUA, o discurso do racismo era escancarado e o seu contra-discurso também. No Brasil, o racismo é tão hegemônico e naturalizado que ele nem precisa de um discurso racista para se manter. Na verdade, ele se mantém melhor por não ter esse discurso. A falta do discurso racista torna as práticas racistas invisíveis (mas não menos opressivas) e tiram a legitimidade de qualquer contra-discurso: "Do que você está reclamando, meu filho? Pare de criar caso... O Brasil não é racista, nunca tivemos leis segregacionais, VOCÊ é que está sendo racista de falar nisso..."
Abaixo, exemplos tirados do tópico do Orkut:
Só mostrar brancos não quer dizer que a escola só é pra eles... assim o preconceituoso está sendo vc. Ngm nem repara mais nessas coisas, só quem tem preconceito e fica querendo "igualdade" até nisso,
sendo que se pensar bem, a igualdade vai pela lógica de que o comercial representou a maioria que é branca.
Que absurdo ficar reparando na etnia das pessoas em um comercial. É esse tipo de atitude que leva o preconceito racial adiante! [nota do Alex: pela foto, essa pessoa é negra ou, pelo menos, seria considerada negra em Santa Catarina, onde fica a escola. Sua última frase foi "apoiada" pela maioria dos participantes.]Concordo com vc Ricardo,nem reparei nisso!Pra que ficar reparando"Lá não tem negro,xii o neguinho tah sendo reprovado..."PLESE
criem cotas para negros em comerciais! Ja tem até em universidade...
Como falaram, mostraram alguns alunos (na real a maioria das pessoas nem reparou nisso só vc)
Gente é só um comercial, e os negros agora antes de ir estudar em uma escola, vão ter ver as propagandas que foram feitas pra escolher o colégio em que vão estudar se tiver uma propaganda com negros tudo bem, se não tiver não vai estudar lá, me poupe, e outra coisa o racismo estão vindo de vcs que ficam achando defeito nos comerciais, não tem mais o que fazer do que fica achando defeito. Não importa a cor da pessoa que ta fazendo a propaganda pois tudos que querem podem estudar no energia, mas são pessoas como vcs que levam o preconceito a diante se vcs pensassem um pouco antes de falar uma coisa dessas.pensem bem antes de falar só um conselho!!!! ME POUPE
Nem reparei nisso..até por que o simples fato de criar um topico só para alertar sobre isso é um tipo de rascismo e preconceito.
Podemos dizer que se o Energia colocasse somente UM negro tambem iriam complicar e dizer que estava sendo um fato de simples "obrigaçao".Pessoas como o criador do tópico não tem o que fazer mesmo.Acho que o preconceito esta dentro de você qeriiiido.Tome cuiiidado com isso
Eu sou negão e não me incomodo de nenhum aparecer
Eu também não vi índios e orientais nos comerciais.
Nem mongóis! Já no orkut..

Para quem faz parte da maioria dominante, a desigualdade é natural. Para eles, um anúncio de escola só com alunos brancos é a coisa mais normal do mundo, algo que eles nem reparam. Anormal, anti-natural, incômodo é quando alguém aponta que essa situação não é nem normal, nem natural e que é muito incômoda para quem foi suprimido. Aí, a reação é imediata:
"nós nem estávamos pensando em termos de raça, estávamos muito felizes no nosso mundo sem raça, onde todos são indivíduos iguais, e você é que veio falar de raça pela primeira vez, você é que levantou o assunto, você é que é o racista!"
De acordo com suas declarações, os jovens acima vivem em uma sociedade justa e meritocrática. Não pensam em raça porque isso não é necessário. No anúncio da escola, não aparecem nem brancos nem negros, só pessoas, só alunos. Sua raça é irrelevante. Quem faz o racismo existir (ou seja, antes ele não existia) são as pessoas que apontam e verbalizam a desigualdade racial - não as pessoas que a criaram ou que se beneficiam dela. O racismo não é a ação de fazer um anúncio sem negros ou a percepção disso como normal, mas sim a articulação desse fato como um problema. Se os racistas somente parassem de falar de raça, poderíamos todos viver no paraíso racial meritocrático de novo, como sempre foi.
Eu gostaria de fazer um teste com esses adolescentes: refilmar o mesmo anúncio da escola, mas só com alunos negros. Ou asiáticos. Será que eles também não iriam perceber? Ou será que dessa vez o "conteúdo racial" do anúncio lhes saltaria aos olhos?
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Opinou o leitor Homero, sobre a polêmica das camisas "100% Negro" e "100% Branco":
Eu já tinha ouvido essa argumentação de que uma camisa 100% Negro é diferente de uma camisa 100% Branco. Talvez nunca de forma tão elegante e articulada como você escreveu, mas já conhecia o argumento. Infelizmente o argumento ainda não me convenceu.... No momento em que as estatísticas começam a classificar as pessoas por raça (essa abstração mal definida) a sociedade está abrindo as portas do racismo? No momento em que a cor da pele é o fator definidor do bem-estar, a mentalidade racista se instalou?
Alguém acha mesmo que as portas do racismo já não estão abertas? Que a mentalidade racista já não está instalada? Que o racismo não se instala no Brasil até que uns negros (agressivos ou se fazendo de vítima) começam a usar camisas "100% Negro" e falar em cotas universitárias? Que foi NESSE MOMENTO que a mentalidade racista se instalou? Sério mesmo?
A mentalidade racista está instalada (e muito confortável, obrigado) desde que se escravizou o primeiro índio. As portas do racismo nunca estiveram nem entreabertas: estão escancaradas há 500 anos.
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Naturalmente, só não repara no racismo quem se beneficia dele. Quem sofre seu peso todos os dias sabe bem do que se trata. O racismo é como se fosse um Contrato Social (na verdade, um Contrato Racial) no qual os membros da raça dominante formam um acordo tácito de, ao mesmo tempo em que garantem para si a maior parte das riquezas/oportunidades/etc da sociedade, também consentem em não ver o próprio sistema, criando assim a "alucinação consensual" de um mundo sem raças, meritocrático e igualitário, que passa a mediar sua interpretação da realidade. Nem todos os brancos são signatários do Contrato Racial, mas todos são beneficiários. (Mills, 11)
Numa sociedade racialmente estruturada e profundamente desigual, as únicas pessoas que são psicologicamente capazes de negar a centralidade do racismo são justamente aquelas que pertencem à raça privilegiada: a raça, para eles, torna-se invisível porque o mundo é estruturado em função deles; eles são a norma em oposição a qual são medidas as pessoas de outras raças ("esses outros tem raça, não eu!"). Assim como o peixe não vê a água, os membros da raça dominante não vêem o racismo. (Mills, 76) Desse modo, como citei ontem, é possível que os membros do sindicato dos ferroviários, sinceramente e de boa fé, neguem acesso aos negros ao comitê de práticas raciais porque eles eram "representantes de uma raça", sem nunca se dar conta de que eles também tinham raça e que também representavam os interesses dela. Pra eles, quem tem raça é sempre o outro.
Em uma sociedade racista e desigual como o Brasil, afirmar não ver raça, não ligar pra raça, que raças não existem, que isso não tem importância, "que besteira você se importar com isso", etc, significa na prática tomar partido racialmente ao se aliar com a hegemonia invisível que *precisa* desse tipo de negação para sobreviver e prosperar.
Não existe neutralidade possível: negar raça já é uma afirmação política que te coloca em um dos lados bem definidos de uma briga antiga. Negar raça já é intrinsecamente racista.

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The Racial Contract, de Charles W. Mills, é com certeza o meu livro do ano de 2008. Existem alguns resumos na internet que dão uma boa idéia do conteúdo. Recomendo enfaticamente.
The Racial Contract - página oficial
Should the Racial Contract replace the Social Contract? - uma resenha
Guia de leitura dos capítulos I, II e III

Quando a idéia de Mulato ainda é usada como forma elogiosa, eis que - Parte I

Olha ai, como curiosidade, ou como informação, ou como constatação do racismo e do preconceito...sei lá, mas Vc sabia dos filhos mulato de Jefferson(aqueles fruto do casamento de dois animais de espécies diferentes que origina um terceiro estereo, a mula...pensei em escrever isso para o imbecil do senador eleito por Góias ...mas para que total perda de tempo). Dica do blog: http://pedrodoria.com.br/

26/December/2008 · 5:04 ·

Em muitos pontos, as histórias de Brasil e Estados Unidos se cruzam. Nações escravagistas, homogêneas, que não se fragmentaram como aconteceu com a América Espanhola. Há diferenças, também: brancos e negros não se misturaram nos EUA enquanto, no Brasil, somos todos mestiços.
O mito é bom – mas não corresponde à realidade.
Aqueles senhores de escravos da Virgínia, donos de grandes fazendas quase falidas nos mil e setecentos, não eram assim tão diferentes dos senhores de escravos em Pernambuco, também donos de grandes fazendas quase falidas no mesmo período. Os irmãos escravos John e Sally Hemings, por exemplo, eram filhos de uma escrava negra e seu senhor, John Wayles.
Mesmo filhos, não deixaram de ser escravos.
Quando John morreu, sua filha Martha herdou seus meios-irmãos. Martha era casada com Thomas Jefferson. E, quando Martha morreu ainda jovem, Sally, sua meia-irmã mulata, transformou-se em companheira de Jefferson – uma companheira jamais assumida de todo, mas também nunca negada, com quem o terceiro presidente dos EUA, autor de sua Declaração de Independência, teve cinco filhos – quatro homens, uma mulher.
A história é conhecida mas jamais foi contada por completo até agora, que saiu o livro
Thomas Jefferson e Sally Hemings, da historiadora Annette Gordon-Reed. É ela nesta entrevista à Amazon:
Como era a relação de Jefferson com os filhos que teve com Sally Hemings? E que tipo de vida tiveram os filhos após a morte dele?
Este foi um dos aspectos mais interessantes da pesquisa. Há uma série de cartas escritas por Jefferson para o gerente de sua propriedade em Bedford County, onde ele passou muito tempo em seus anos de aposentadoria. Nas cartas, ele anuncia que está para chegar. Escreve coisas como ‘Johnny Hemings e seus dois assistentes vêm comigo’ e, dependendo do ano, seus assistentes eram seus filhos Beverley e Madison Hemings ou Madison e Eston Hemings. Lá, John, Beverley, Madison e Eston trabalhavam na casa onde tanto Jefferson quanto eles dormiam. Eles ficavam lá, juntos, isolados, às vezes por semanas a fio. Jefferson, que se considerava bom carpinteiro, passava muito tempo trabalhando com John Hemings e, neste processo, passava tempo com seus filhos, que eram aprendizes de John. Madison Hemings escreveu que Jefferson era cordial com ele e seus irmãos, como era com todos a sua volta, mas que jamais teve a relação carinhosa que dedicava a seus netos legítimos. Ainda assim, todos seus filhos com Sally aprenderam o violino, que o próprio Jefferson tocava, e pelo menos um – Eston – se transformou em músico profissional. Sempre que se apresentava, ele tocava uma música em particular, que era a favorita de Jefferson. Temos menos informação a respeito de sua relação com Harriet, a filha. Ele a enviou para longe quando ela tinha 21 anos com o que seria, atualmente, 900 dólares, para viver com seu irmão Beverley.
É importante destacar que nenhum deles era identificado como servente. Seus filhos foram treinados para serem os profissionais que Jefferson mais admirava: construtores, carpinteiros, e a filha aprendeu costura. Naquela época, era algo que mulheres de todas as raças e classes aprendiam. Harriet Hemings jamais se tornou ama das netas legítimas de Jefferson, que teria sido o caminho natural para uma escrava. Os Hemings foram treinados para deixarem de ser escravos. Beverley e Harriet deixaram a residência de Jefferson na condição de brancos, se casaram com brancos, e sumiram do mapa, embora mantivessem algum contato com a família. Quando Jefferson morreu, Madison e Eston, que foram libertados em seu testamento, levaram sua mãe para a cidade de Carlottesville. Foram listados como brancos livres no censo de 1830 e mulatos livres no censo de 1833. Após a morte de sua mãe, Madison deixou a Virgínia para Ohio, e Eston se juntou a ele depois. Em algum ponto, Eston decidiu que dava muito trabalho viver como negro, se mudou para Wisconsin, e adotou o nome E. H. Jefferson. Ele teve filhos e a todos deu o nome Jefferson. Jamais afirmou que era descendente do presidente porque, caso o fizesse, teria que admitir ancestralidade negra, o que teria tirado de seus filhos as oportunidades que teriam na condição de brancos.
Jefferson é o mais fascinante dentre os criadores do sonho americano. Com Benjamin Franklin e Alexander Hamilton, está entre os mais intelectualizados. Mas Franklin era um cínico sarcástico e Hamilton, um elitista, desconfiava de poder demais nas mãos do povo. Ninguém, dentre aquele grupo, acreditava mais nos ideais iluministas do que Jefferson. Ninguém argumentou pela igualdade dos homens como Jefferson. Jefferson acreditava tanto na sabedoria do povo, diga-se, que recomendava ao país que ajudou a fundar um estado de revolução permanente, para que nenhum grupo jamais se firmasse no poder.
Ainda assim, Jefferson foi senhor de escravos. George Washington, que não tinha brilho ou mesmo ideais, um personagem pragmático e desinteressante, senhor de terras em Virgínia como Jefferson, ao menos libertou todos os seus em testamento. Jefferson, o homem de idéias tão puras a respeito da igualdade e da democracia, o anti-elitista por excelência, passou a vida evitando encarar a incoerência da escravidão. Deixou escravos para seus filhos legítimos como herança. Quando pressionado, sugeria que este seria um problema para ser resolvido no futuro. Jamais o enfrentou, mesmo quando teve muito poder nas mãos. Considerava-se um senhor generoso, incapaz de ser ríspido com os servos; mas punha nota no jornal com anúncio de prêmio, como todos seus pares, se um acaso fugisse. E a recuperação dos fugidos era sempre cruel, caçada a bicho. Não era racista para os padrões do tempo; mas deixou escrito que considerava o homem negro menos inteligente do que o branco. Assim como escreveu que brancos e negros não deviam ter filhos juntos para não degradar a raça.
Em que, afinal, acreditava? Escrevia hipocritamente para a aprovação de seus vizinhos? Acreditava mas era incapaz de cumprir?
Logo após sua viuvez, quando viveu na França na condição de embaixador dos EUA, década e meia antes de tornar-se presidente, teve uma relação intensa, talvez nunca consumada, mas profundamente apaixonada, com uma aristocrata italiana. Sua relação com Sally durou tantas décadas e deixou tantos filhos. Martha Wayles, a italiana platônica e Sally foram as principais mulheres de sua vida. Sally a que por mais anos esteve ao seu lado.
Em menos de um mês, um homem negro chega à presidência dos EUA. O presidente que deixa, George W. Bush, dá mostras de que o país tem sua elite, exatamente como Benjamin Franklin previa que aconteceria, e motivo pelo qual Jefferson receitava a revolução permanente.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Natividad

Veríssimo e o Natal
Crônica do Natal (de novo) - Luís Fernando Veríssimo

Tenho inveja dos cronistas novos. Não porque eles não sabem que todas as crônicas de Natal já foram escritas e podem escrevê-las de novo. Mas porque podem fazer isto sem remorso.Tem a crônica de Natal tipo “o que eu gostaria que Papai Noel me trouxesse”. A Luana Piovani ou um fac-símile razoável, a paz entre os povos, um centroavante para o Internacional (ou um fac-símile razoável) etc.
Tem as infinitas variações sobre problemas encontrados por Papai Noel no mundo moderno (seu trenó levado num assalto, sua dificuldade em se identificar em portarias eletrônicas, protestos de ambientalistas contra o seu tratamento das renas, suspeita de exploração de trabalho escravo, suspeita de pedofilia etc.).
Tem as muitas maneiras de atualizar a história da Natividade (Maria e José em fila do SUS, os Reis Magos chegando atrasados porque foram detidos por patrulhas israelenses ou militantes palestinos, Jesus vítima de uma bala perdida).
Tem as versões diferentes da cena na manjedoura, inclusive — juro que já li esta, se não a escrevi — narrada do ponto de vista do boi.Todas já foram feitas.Há tantas crônicas de Natal possíveis quanto há meios de se desejar felicidade ao próximo. Os cartões de fim de ano são outro desafio à criatividade humana. Pois todas as suas variações também já foram inventadas. Quando eu trabalhava em publicidade, todos os anos recebia encomendas de saudações de Natal e Ano Novo “diferentes”, porque os clientes não se contentavam em apenas desejar que o Natal fosse feliz e o Ano Novo fosse próspero. Uma vez sugeri um cartão de Natal completamente branco com a frase “Aquelas coisas de sempre...” num canto, mas acho que este foi considerado diferente demais. E dê-lhe poesia, pensamentos inspiradores, má literatura e a busca desesperada do diferente. Um cartão em forma de sapato, de dentro do qual saía uma meia: a meia para o Papai Noel encher de presentes e o sapato para entrar no Ano Novo de pé direito.
Coisas assim.Enfim, tudo isto é apenas para desejar a você... Aquelas coisas de sempre.
Dica do Peramblogando: http://peramblogando.blogspot.com/

Frases, frases

“O real não está na saída nem na entrada; êle se dispõe para a gente é no meioda travessia.”“A vida inventa!”Grande Sertão: Veredas. Guimarães Rosa.
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não, quero é uma verdade inventada".Clarice Lispector.
"Meça o valor de um homem a medida em que ele se liberta de seu próprio eu".Albert Einstein.
"Arte de Fumar: Desconfia dos que que não fumam: esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar".Mario Quintana.
"Sapo quando pula não é somente faceirice, também é precisão".Popular.
"Solo nos queda mantener una lucidez implacable".Grippo, 1998.
"Revelar a si mesmo através da linguagem - a linguagem é constituinte e não só comunicativa" .Eu-Outro.
"A seriedade é o único refúgio da leviandade".Oscar Wilde - Idiota.
"O objetivo de uma anedota não é degradar o ser humano, mas lembrá-lo de que ele foi sempre degradado".George Orwel.
"A população mais afastada dos gregos, tem a melhor visão e mais justa dos gregos".Autor desconhecido.
"Le bonheur n'est pas chose aisée; il est trés difficile de le trouver en nous, et impossible de le trouver ailleurs"Chamfort.
"Porque nada tem valor para um ser humano, como ser humano, se não poder fazê-lo com dedicação apaixonada"Max Weber. A ciência como Vocação (1989).
"O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente".Carlos Drummond de Andrade. Sentimento do Mundo.
"Onde há uma misão a ser realizada e ninguém se apresenta, assuma-a você".Autor Desconhecido.
"A verdade não está em apenas um sonho, mas em muitos sonhos".Mil e Uma Noites. Sheerazade.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Conversa para lugar nenhum

Ando tão irritado com a babaquice reinante. Alias até ai nenhuma novidade né. Mas é que cada vez mais me irrito com o tanto de besteira e baboseira que é dita na TV, no rádio, no jornal e na net essa lata que aceita tudo. Tudo vendido com a idéia de novidade e ar de superioridade. E para piorar as raras excessões dessas mesmas mídias só servem para confirmar a idiotice reinante. Por exemplo, a música, a uma decada atrás reclamava da música mas hoje percebo que aquilo é que era música, um dia desses me peguei a adimirar algumas canções do Só para Contrariar ... isso por que as músicas atuais são bem piores e, assim por diante nas demais mídias. Tá difícil. Um dia desse numa dessas poucas raridades no deserto (por equanto, a Record News) vi uma entrevista com o Jerry Adriani e em determinado momento a entevista virou uma grande homenagem ao Raulzito, os dois eram grandes amigos, Raul chegou a morar na casa da mãe do Jerry. Após esse programa, as coisas ditas por Jerry a respeito do Raulzito ficaram martelando e martelando em minha cabeça e; ai começei a pensar em rever alguns conceitos: o que é terrível não é a ignorância e a burrice (e sim o seu culto como verdade mais digna do que as outras verdades, dito de outro modo, como se fosse feio e vulgar ser um pouco mais afetado- uso propositalmente essa palavra- exatamente para afrontar os poucos afetados) mas sim a caretice. EIS o grande problema de nossa época a maldita CARETICE. É isso, a caretice é tão virulenta que nos vende a idéia de que somos livres, quando não somos; que somos independentes quando somos cada vez mais dependentes; de que somos avançado quando somos caretas; de que somos espertos quandos somos otários; de que somos liberados quando na verdade somos mais travados que os europeus dos anos 20 (digo europeus pois toda essa desgraça judaíco-cristã foi gestado lá, lá e seus Bentos XVI e sua ecologia humana ... a única ecologia que não aceita a natureza tal como ela é... aliás o bentinho é a imagem do scientist ou como dizem os seus compatriotas do espírito de nossa época). Essa caretice toda se transmuta em cretinice e ai temos que aguentar toda essa porcaria. A cretinice por sua vez se transmuta nas certezas. Sim elas, sempre elas, as certezas.
"Ah Ah Ah!Ah Ah Ah!Ah Ah Ah!...Prefiro serEssa metamorfose ambulanteEu prefiro serEssa metamorfose ambulanteDo que ter aquela velha opiniãoFormada sobre tudoDo que ter aquela velha opiniãoFormada sobre tudo...Eu quero dizerAgora o opostoDo que eu disse antesEu prefiro serEssa metamorfose ambulanteDo que ter aquela velha opiniãoFormada sobre tudoDo que ter aquela velha opiniãoFormada sobre tudo...Sobre o que é o amorSobre o que euNem sei quem souSe hoje eu sou estrelaAmanhã já se apagouSe hoje eu te odeioAmanhã lhe tenho amorLhe tenho amorLhe tenho horrorLhe faço amorEu sou um ator...É chato chegarA um objetivo num instanteEu quero viverNessa metamorfose ambulanteDo que ter aquela velha opiniãoFormada sobre tudoDo que ter aquela velha opiniãoFormada sobre tudo...Sobre o que é o amorSobre o que euNem sei quem souSe hoje eu sou estrelaAmanhã já se apagouSe hoje eu te odeioAmanhã lhe tenho amorLhe tenho amorLhe tenho horrorLhe faço amorEu sou um ator...Eu vou desdizerAquilo tudo que euLhe disse antesEu prefiro serEssa metamorfose ambulanteDo que ter aquela velha opiniãoFormada sobre tudoDo que ter aquela velha opiniãoFormada sobre tudoDo que ter aquela velha opiniãoFormada sobre tudo...Do que ter aquela velha, velhaVelha, velha, velhaOpinião formada sobre tudo..."
Cabe a pergunta: estamos vivendo efetivamente a miséria da filosofia, da crítica, da literatura, da música, da ciência? O chamado silêncio dos intelectuais? Ou melhor seria o medo dos intelectuais? Ou seria o fracasso dos intelectuais de 60, pois sim são eles que estão no poder. Será que a geração 60 não foi uma grande ilusão, melhor seria a geração pré-60. Só para lembrar Sartre, Simone, a Escola de Frankfurt, os neo-marxistas franceses, italianos, alemães e mais para trás Freud, Gramsci, etc,etc todos eles são pré-60. Aliás os hippies, a contracultura, os direitos civis, os beat são todos pré-60. Aliás os ismos todos são pré-60, os ismos que os 60 tantam tentaram que enfim conseguiram destruir. Não vivemos o fim da história, uma das cretinices - caretices -certezas imbecis e imbecilizantes que foi comprada pela inteligencia pós 60; mas sim vivemos o fim das ideologias, a era do que tudo é possível. e ai de novo o canto da sereia cretina-careta e cheia de certezas, ao contrário do que vende o canto da sereia, onde tudo é possível nada é permitido. Enfim ... texto confuso e angustiado, sem pé nem cabeça, que começou com um assunto e mudou para outro...um pouco retrato de seu autor ou retrato dessa época ... de vazios e mediocridades, inclusive daqueles que ousam nomear a mediocridade. Afinal dessa não escapo, eu também sou a mistura entre cretinice, caretice e burrice, com a pequena e única desvantagem da soberba transformada em dúvidas e de não gostar de certezas... mas que no final de nada valem, pois continuo aqui paralisado como diria Belchior"no medo Belo Horizonte, no medo Minas Gerais..." Ps1: falta, falta ao Brasil de hoje Raulzito, Cazuza, Renato Russo, Stanislaw Ponte Preta e tantos e tantos outros, Carolina de Jesus, Carlos Drumond de Andrade e tantos Sérgio Buarque, Celso Furtado, Florestan Fernandes, Nelson Werneck, Caio Prado e tantos outros que ousaram ...
Contra tudo isso, contra todo esse FEBEAPÁ recordemos Stanislaw Ponte Preta (e assim mato saudades das aulas no saudoso Estadual Central, já que o livro didático do primeiro grau era recheado de texto dele..aliás saudosa época em que li todos os grandes da literatura brasileira).
O fabuloso Stanislaw Ponte Preta
Mais carioca que ele, impossível
Lu Gomes
O cenário é um café. Um alemão "forte pra cachorro" está tomando umas e outras. De repente, ele provoca: "Aqui dentro não tem homem pra mim!" Um turco, igualmente forte, se apresenta, leva um murro e vai ao chão. Então um português, ainda mais forte, parte pra cima do alemão. A mesma coisa: um murro e o lusitano tomba sem sentidos.Depois foi a vez do inglês, do francês, do norueguês apanharem. E sempre depois de nocautear um desafiante, o alemão repetia que ali não tinha homem pra ele. Até que um brasileiro magrinho levantou-se lá no fundo, perguntou "é comigo?", o alemão disse "pode ser", e o brasileiro foi chegando cheio de ginga pro lado do teutônico, parou perto, balançou o corpo e... PIMBA! O alemão deu-lhe uma traulitada na cabeça que o deixou arrebentado.A história acaba aí "que é pros brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que são mais malandros do que os outros".Este é um resumo da crônica "Vamos acabar com esta folga", do Stanislaw, a fina flor dos Ponte Preta, publicada em Tia Zulmira e Eu, seu primeiro livro. Ele não suportava esse defeito do brasileiro de ser assim tão folgado.
Tem coisa que contando ninguém acredita, e o carioca Stanislaw Ponte Preta é uma. Ele nasceu robusto de zombaria e irreverência em 1951, na redação do Diário Carioca. Jacinto de Thormes deixara vaga a coluna social do jornal e Sérgio Porto foi convidado a ocupá-la. Sérgio não aceitou, mas criou (com uma ajuda do Rubem Braga, dizem) o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta (inspirado no Serafim Ponte Grande, livro de Oswald de Andrade), para que "Stan não prejudicasse o Sérgio. Isto é, eu, Sérgio, queria escrever coisas sérias; o Stanislaw deveria abordar assuntos inconseqüentes".
Começou assimTremei, cronistas menores, moçoilas que volitais em nossas ribaltas, regozijai-vos! Eis que cá está o mais vivo dos Ponte Preta, o mais fero dos colunistas, o mais noticioso dos noticiadores. Nada puderam contra mim as manobras golpistas que tramavam a derrubada daquele que representa a vontade popular. Stanislaw, exilado em si mesmo, para evitar despesas de viagem, esperou o momento oportuno e aqui está, para gáudio de seus leitores, empunhando sempre em defesa do interesse comum, a sua intemerata e brilhante pena: uma intimorata Remington semiportátil! E após esse intróito tão impregnado de modéstia, no estilo dos colunistas modernos, Stanislaw passa, muito a contragosto, a falar dos outros!E como falou! Desancou todo mundo. O Lalau era fogo na jacutinga. Ele se dizia um "humorista a sério" e definia seu estilo como "lírico-espinafrativo". Falava tudo na bucha e não fazia prisioneiros. Gozava até dos "coleguinhas" de imprensa. O colunista social Ibrahim Sued era seu alvo favorito e Lalau não perdia a chance de espinafrar o "famoso escritor líbano-carioca":Imaginem vocês que Ibrahim - agora em viagem pela Europa, para desmentir definitivamente a máxima "quem viaja aprende" - vem de publicar uma notinha das mais importantes.Diz o mestre de Jeff Thomas, o inspirador de Pouchard, que andou conversando com o Duque de Windsor. Para castigar um pouco de modéstia no seu escrito, o famoso "dramaturco" explicou que não conversou em português, o que, aliás, deve ser verdade, pois o duque fala um pouquinho de português, mas Ibrahim não.Quanta besteira!O Festival de Besteira que Assola o País - FEBEAPÁ, para os íntimos - começou a ser anotado no livro Garoto Linha Dura, de 1964, o ano da "redentora", que era como Stanislaw chamava a revolução militar, que deu um grande impulso ao Festival. Dois anos depois, o febeapá ganhava um livro próprio. As notas foram recolhidas da sua coluna "Fofocalizando", na Última Hora, e editados "na base da bagunça, pra respeitar a atual conjuntura", como ele explicou no prefácio.
Eis alguns tópicos:Ibrahim Sued, que já era do Festival antes de sua oficialização, estreava um programa de televisão e avisava ao público: "Estarei aqui diariamente às terças e quintas".
Em Belo Horizonte, um delegado espalhou espiões pelas arquibancadas dos estádios porque "daqui pra frente quem disser mais de três palavrões, torcendo pelo seu clube, vai preso".
Quando se desenhou a perspectiva de uma seca no interior cearense, as autoridades dirigiram uma circular aos prefeitos, solicitando informações sobre a situação local depois da passagem do equinócio. Um prefeito enviou a seguinte resposta à circular: "Doutor Equinócio ainda não passou por aqui. Se chegar será recebido como amigo, com foguetes, passeata e festas".
Em sua luta contra a burrice reinante, Stanislaw combatia entrincheirado nas areias de Copacabana, que ainda era a "Princesinha do Mar". Era onde lia os jornais, pescando notícias para comentar em sua coluna. Enquanto teve fôlego, foi o goleiro do Lá Vai Bola, time da praia que na linha tinha João Saldanha e Heleno de Freitas. Adorava futebol, inclusive o de botão, e torcia pelo Fluminense.Na Copa do Mundo de 1962 a Fatos & Fotos queria matérias "diferentes" e mandou Stanislaw para o Chile. O embate é contra o México. Sente o drama:Começa o pega. (...) O Brasil está nervoso. Tá parecendo o misto do Campo Grande em dia de treino. (...) Só no segundo tempo Pelé se lembrou que era Pelé: apanhou a leonor no meio do campo, puxou todos os mexicanos para a direita (vieram todos, de Juarez ao Trio Los Panchos) e deu um passe a Zagalo lá na esquerda, que só teve o trabalho de testar para o véu da noiva. Depois Pelé dava outro passeio pela vereda tropical e da entrada da área venceu o goleiro Carbajal. E foi só.
Que delícia, heim? Vamos então relembrar, com narração do Lalau, os melhores momentos desta conquista, pois vale a pena:Brasil 2x1 EspanhaOs espanhóis (estão) encolhidos, e não é por causa do frio, é tática mesmo. Do lado da equipe brasileira a bola só vai no fim do mês, pra receber o ordenado. Mas o que a gente pensava que ia ser um carnaval carioca virou uma fiesta brava. (...) Bola no peito de Zagalo, que estica, o lotação Vavá-Largo da Abolição entra no seu itinerário e atropela um pedestre com a camisa da Espanha. O major Puskas dá uma cipoada em Mauro e é advertido. Mas estava escrito e o major apanha a bola, estica pelo meio, Mauro ainda estava pensando numa bobeada anterior e deixa o número 18 deles entrar livre e abrir a contagem. Foi chato. (...) Os nossos estão fazendo o possível, mas pra ganhar este jogo melhor seria fazer o impossível... e é gol! Zagalo foi genial. Depois eu explico, agora de jeito nenhum. Melhorou o Brasil, até Mauro faz uma jogada certa. (...) Garrincha vai devagarzinho, de repente vira foguete, é João pra tudo quanto é lado. Ele centra, Amarildo dá de testinha. É gol, meninada!
Brasil 3x1 InglaterraBate Zagalo, pula seu Mané, pequenino, no meio de diversas Torres de Londres. E é gol dele! (...) Didi come Norman por cima, à la Dominguin, e dá o melhor passe do campeonato para Amarildo. (...) Garrincha oferece um cocktail party no meio da área deles e por pouco não coloca a leonor lá dentro. (...) Greaves dá de balãozinho para dentro da janela de Gilmar, a bola bate na veneziana, volta para Hitchins e é gol. Deles. (...) No segundo tempo, Garrincha continuou garrinchando e deu um gol pra Vavá fazer e parar de gritar pedindo a bola. O jogo tá tão fácil que vovô Nilton Santos sai passeando com os netinhos pela alameda de Sausalito.
Brasil 2x1 Tcheco-EslováquiaOs tchecos não chegaram à final por acaso, eles dominam a leonor com a mesma facilidade com que o Cartola da Mangueira domina o telecoteco. (...) E lá vai Manuel, o Venturoso. Tem quatro cercando ele, mas é pouco. (...) Mauro bobeou e Masoputz botou o camarada do placar pra trabalhar. E é gol, Amarildo, nem bem eu tinha acabado de escrever a frase acima e Amarildo... ah, menino bom! (...) Zito de vez em quando diz pro Didi güenta aí que vou ali mas já volto e seu Mané dá o primeiro grito de carnaval da tarde. Chutou raspando. (...) Seu Mané escorregou e caiu. Nervoso não é, porque Garrincha só fica nervoso nas peladas de Pau Grande. (...) Amarildo foi à linha de fundo e com calma impressionante esperou que um se colocasse. Quando Zito chegou foi só alçar a infiel por cima da muralha eslava. O sol atrapalhou e o lotação Vavá-Largo da Abolição botou a juriti pra cantar. (...) Os chilenos vinham vaiando o maior craque deste campeonato do mundo, mas agora seu Mané ficou com a bola no pé uns 30 segundos. Palmas do estádio inteiro. E acabou. O Brasil é bicampeão mundial de futebol!(Entra a musiquinha do Canal 100: "Que bonito é...")
Trabalha, trabalha, nêgo...Stanislaw atacava em todas: rádio, televisão, teatro, cinema. É dele o roteiro e os diálogos da chanchada E o Bicho Não Deu, de 1959. Mais tarde, histórias do livro As Cariocas (assinado por Sérgio Porto) também viraram filme. No rádio, escrevia humorísticos para a Mayrink Veiga, como Miss Campeonato, sobre futebol. Os livros com coletâneas de suas crônicas eram best-sellers instantâneos.
Acima de tudo, era um mulherólogo. Mulherengo, também. Mulher era sua principal motivação. Quando Jacinto de Thormes, "no tempo em que se dedicava a essa bobagem de escriba de soçaite, defeito que ele felizmente já corrigiu", publicou na Manchete sua lista das "Dez Mais Bem Vestidas do Ano", Stan, também colaborador da revista - cobrindo (modo de dizer) o teatro rebolado -, pra não ficar por baixo inventou as "Dez Mais Bem Despidas". Depois, quando seu pai Aurélio, com ele certo dia no ponto de ônibus, comentou "olha que moça mais certa", as "Mais Bem Despidas" viraram "As Certinhas do Lalau". E que certinhas, distinto leitor - beldades de qualidade superior, como Aizita Nascimento, Gina Le Feu, Rose Rondelli, Esmeralda Barros, Virgínia Lane, Zélia Martins, Carmem Verônica, só para citar algumas das eleitas. Que belas coxas! (Convém lembrar que este era um tempo em que as pernas femininas eram o grande fetiche e as vedetes mostrando as coxas naqueles maiôs cavados eram o máximo que podíamos admirar da anatomia feminina na imprensa daqueles anos dourados.)Em 1956 Sérgio Porto ficou famoso em São Paulo ao participar, por 16 semanas, do programa O Céu é o Limite, da TV Tupi, respondendo - absolutamente certo! - as complicadas perguntas de Aurélio Campos sobre música brasileira. O homem era uma enciclopédia musical. Faturou o maior prêmio dado pelo programa até então: 300 mil cruzeiros (quanto isso valeria hoje?). Tinha adoração por Pixinguinha. Sua discoteca era imensa, falava-se em 30 mil discos, entre LPs e 78 rotações. Foi ele quem inventou o termo bossa-nova. O jazz era sua outra grande paixão musical, até escreveu um livreto sobre sua história. Gostava de trabalhar ouvindo música e de vez em quando tocava um trombone imaginário.O filho da dona Dulce era um "boêmio que adorava ficar em casa" e trabalhava feito louco, o que, segundo os médicos, provocou seu primeiro infarto em 1959, aos 36 anos.
Dois anos mais tarde, em carta à mulher Dirce, temporariamente ausente do Rio, ele listava o que andava fazendo:Hoje fui gravar na televisão e antes foi aquela batalha contra as teclas. Estou trabalhando demais, outra vez. Só para esta semana: seis Stanislaws, um Fatos & Fotos, um final apoteótico para o novo programa do Chico Anísio, roteiro e script para aquela bosta chamada Espetáculos Tonelux, depois quadros humorísticos para a TV Rio, Miss Campeonato, Da Boca Pra Fora, o programa de rádio Atrações A-9, além da revisão do livro O Homem ao Lado que será reeditado no próximo mês e da gravação do programa Qual É o Assunto.Detalhe: Sérgio ainda era funcionário do Banco do Brasil (Jaguar, que ilustrava seus livros, era outro). Pegava às 7 da manhã, tinha um expediente especial, sem obrigação de horário integral - quanto mais rápido ele terminasse sua tarefa, mais cedo saía. Demitiu-se em 1965, depois de 23 anos de serviço, dizem que por perseguição da "redentora".Perto do fim da vida, afastou-se da televisão e foi escrever revistas para o teatro rebolado. Numa delas - Pussy Pussy Cats, produzida por Carlos Machado -, Lalau perpetrou um "Samba do Crioulo Doido", uma magistral paródia de samba-enredo. A gozação era em cima do Departamento de Turismo da Guanabara, que obrigava as escolas de samba a desfilarem apenas enredos baseados em fatos históricos.O samba extrapolou a ribalta e fez o maior sucesso na gravação do Quarteto em Cy. Sintetiza como a chamada "cultura carnavalesca" entende a nossa história:
Foi em Diamantina onde nasceu JKque a Princesa Leopoldina arresorveu se casáMas Chica da Silva tinha outros pretendentese obrigou a princesa a se casar com TiradentesLá iá lá iá lá iá... O bode que deu vou te contáJoaquim José, que também é da Silva XaviéQueria ser dono do mundo e se elegeu Pedro SegundoDas estradas de Minas seguiu pra São Pauloe falou com AnchietaO vigário dos índios aliou-se a Dom Pedroe acabou com a falsetaDa união deles dois ficou resolvida a questãoe foi proclamada a escravidão!Assim se conta essa históriaQue é dos dois a maior glóriaA Leopoldina virou treme Dom Pedro é uma estação tambémÔ-ô-ô-ô-ô-ôO trem tá atrasado ou já passou!
O samba originou o Show do Crioulo Doido, uma palestra musical que estreou no início de 1968 e teve mais de uma centena de apresentações pelo País, com um desinibido Stanislaw no palco, contando casos apoiado pelo Quarteto em Cy. Mas isso foi muito depois de ele dar um vexame daqueles na tevê. Foi quando o Brasil estava sendo atropelado pela modernidade e embora a televisão ainda fosse apenas um eletrodoméstico presente em poucas casas, já primava pelo mínimo denominador comum. Stanislaw a chamava de "máquina de fazer doido". E exemplifica: certa vez assistia ao ensaio de um programa cuja música-tema começava assim: "Times Square é uma esquina..." Ele alertou o diretor que Times Square era uma praça. Mas isso não tinha qualquer importância.Foi na máquina de fazer doido que Stanislaw teve seu único e retumbante fracasso. Isso em 1961. O programa que estreava na TV Rio chamava-se Noite de Gala, era ao vivo, e Stan era seu mestre-de-cerimônias. Acontece que ele morria de medo de encarar uma câmera de televisão e quando chegou a hora H ele simplesmente travou, emudeceu de tanto nervosismo. Dizem que foi um dos maiores desastres da história televisiva brasileira. Mas Noite de Gala foi em frente e fez tanto sucesso que acabou levando alguns cinemas do Rio a cancelarem as sessões nas noites de segunda-feira, quando o programa ia ao ar.
A FAMÍLIA PONTE PRETA
Tia Zulmira, a sábia ermitã do casarão da Boca do Mato.Nas crônicas, a veneranda tia Zuzu servia como porta-voz do Lalau, emitindo opiniões. Ex-vedete do Follies Bergère, ex-cozinheira da Coluna Prestes, deslumbrou a Europa com sua beleza. Com quase 90 anos, vivia modestamente com o lucro dos pastéis que ela mesma fazia e mandava vender na estação do Méier.
Primo Altamirando, o Mirinho. O nefando parente, um cretino pior que o Macunaíma. "Aos 15 anos era já um esplêndido entortado e ninguém mais tinha dúvidas que ele superaria o pai (Gumercindo Tenório) como inimigo figadal de todos os códigos, do civil ao penal, o de trânsito também". Pioneiro em plantar maconha em solo carioca. Nunca trabalhou.
Rosamundo das Mercês, o distraído.Veio ao mundo de dez meses, porque se esquecera de nascer aos nove. O rei da abstração, completamente desligado da tomada. Escreveu um livro intitulado O Crime Foi Suicídio, não publicado, pois esqueceu os originais num táxi.
Bonifácio, o patriota.Nasceu na Vila Militar, num 7 de setembro. Morava na rua Voluntários da Pátria. Não tinha cama, dormia em berço esplêndido.Lalau, claro, não era mais o apresentador.
Devido a este trauma de câmera surgiu a idéia de ele ser focalizado apenas por trás, eliminando assim a causa do problema - e então nasceu o segmento Stanislaw Ponte Preta de Costas para a Fama, com ele batucando uma "datilográfica" e tendo uma "Certinha" de maiô ao fundo, fazendo poses sensuais enquanto ele fazia seus comentários sarcásticos. Stanislaw escreveu alguns episódios para a série de tevê Alô Doçura, com John Herbert e Eva Wilma, e participou do Jornal de Vanguarda (que estreou na TV Excelsior, depois foi para a Tupi e em 1965 estava na Globo), comentando as notícias lidas por Cid Moreira ou Luiz Jatobá, comentários que invariavelmente levavam todos no estúdio a dar risada. Depois teve seu próprio programa, o Stanislaw Ponte Preta Show, na TV Tupi.
O pai d'O Pasquim - É provável que seu peculiar senso de humor tenha sido herdado de Aparício Torelly, o Barão de Itararé, cuja revista A Manha foi fechada pelo presidente-marechal Dutra em 1947 (fazer humor no Brasil sempre foi perigoso). Que frasista excepcional era o Barão: "o mundo é redondo mas está ficando chato", "o tambor faz barulho mas é vazio por dentro", "negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados". Torelly tentou recomeçar com o Jornal do Povo, e foi lá que Sérgio Porto deu início a sua carreira, fazendo crítica de cinema.Sua última peripécia foi o "semanário hepático-filosófico" A Carapuça, tablóide lançado em agosto de 1968. No título do editorial de primeira página, um cacófato proposital: "Fé de Ofício". No rodapé, o pensamento da semana: "Se Pilatos usasse luvas não teria lavado as mãos". Na seção "O bicho que está dando", ele comentava opiniões alheias. Seu amigo Paulo Francis havia dito que um tal político, que conseguiu seis milhões de votos, não se elegeria nem vereador, e isso só Freud explicaria. Lalau: "Não é só isso, Francis. Qualquer espiroqueta entendido em democracia explica isso com a mesma facilidade com que o Ibrahim gagueja nas proparoxítonas". O jornaleco morreu na quinta edição, em setembro, junto com Stanislaw, pouco antes do AI-5 dar o pontapé inicial nos anos de chumbo. Foi de infarto, o terceiro, aos 45 anos. Conta a lenda que morreu flertando com a enfermeira. "Tunica, eu tô apagando" foram suas últimas palavras.
O Pasquim, legítimo herdeiro de A Carapuça, foi para as bancas em junho de 1969. Seu primeiro número era dedicado à memória de Sérgio Porto, "o santo maior do nosso altar particular". O resto, como se diz, é história... Stanislaw Ponte Preta foi um inovador na imprensa brasileira. Sua prosa era cômica, concisa e popular, sem pedantismo ou empolação e sem concessões à mediocridade. Suas crônicas retratavam os hábitos e costumes de um Rio de Janeiro que não mais existe, de um tempo em que a favela ainda estava em processo de romantização, aquela demagogia do "barracão de zinco sem telhado, sem pintura, sinfonia de pardais anunciando o alvorecer". Era um Rio mais carioca, gozador, "cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz", como dizia a marchinha carnavalesca. Em sua breve vida, Lalau veio para nos divertir. Ah, como ele faz falta...
PÉROLAS INESQUECÍVEIS
As frases afiadas e imortalizadas de Stanislaw Ponte Preta
• Em mulher não se bate nem com uma flor, mesmo porque não adianta nada.• Mais por fora do que umbigo de vedete.• Estava tão mal que mais parecia reserva do Bonsucesso.• Era desses caras que cruzam cabra com periscópio para ver se conseguem um bode expiatório.• Basta ler meia página do livro de certos escritores para perceber que eles estão despontando para o anonimato. • A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento. • Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!• O primeiro nome de Freud era Segismundo. Aliás, não só seu primeiro nome como também seu primeiro complexo.• O sol nasce para todos, a sombra pra quem é mais esperto.
BIOGRAFIA
Stanislaw Ponte Preta
• Tia Zulmira e Eu – Editora do Autor, 1961• Primo Altamirando e Elas – Editora do Autor, 1962• Rosamundo e os Outros – Editora do Autor, 1963• Garoto Linha Dura – Editora do Autor, 1964• Febeapá 1 (Primeiro Festival de Besteira que Assola o País) – Editora do Autor, 1966• Febeapá 2 (Segundo Festival de Besteira que Assola o País) – Editora Sabiá, 1967• Na Terra do Crioulo Doido – Febeapá 3 – A Máquina de Fazer Doido – Editora Sabiá, 1968
Sérgio Porto
• Pequena História do Jazz – Serviço de Documentação do Ministério da Educação, 1953• O Homem ao Lado – Editora José Olympio, 1958 (Reeditado de forma ampliada em 1961, com o título de A Casa Demolida)• As Cariocas – Editora Civilização Brasileira, 1967

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Fernando Meirelles não é apenas um grande cineasta

Um jornal carioca deu a Fernando Meirelles o título de Homem do Ano. Ao aceitar, Meirelles informou que tinha um pedido a fazer a Papai Noel: que botasse Gilmar Mendes numa kombi e o levasse para a Lapônia.
Recentemente, a Revista Veja, a facista, também deu um prêmio a Fernando Meirelles. Meirelles preferiu entregar o prêmio ao juiz Fausto de Sanctis, que, segundo Meirelles, é quem deveria ser homenageado.

Um heroi com nome poético: Rosa Branca

Iria escrever sobre outra coisa. Mas ficou impossível desde o fim da tarde de hoje quando ouvi no rádio a notícia sobre o falecimento do grande Rosa Branca, mais uma derrota no nosso combalido basquete. Rosa foi um dos maiores jogadores de basquete de todos os tempo: técnico, habilidoso (o título de magic cabia a ele também, vi uma vez em um programa de tv o que ele fazia com a bola, foi umm legítimo antecessor de Jhonson) e decisivo. O grande Rosa Branca, garoto negro nascido no interior de São Paulo foi bi-campeão do Mundo, e duas vezes medalhistas olimpico entre outros feitos de uma época que o basquete brasileiro estava entre os melhores do mundo rivalizando com o basquete europeu, principalmente o basquete da cortina de ferro e dos EUA. Que descanse em PAZ e no Panteão dos nossos Hérois o grande: ROSA BRANCA que seu nome para o bem do basquete e dos amantes deste esporte (me incluo na lista dos grandes fãs desse esporte) não seja esquecido.
PS1: Que seu nome não caia no esquecimento como esta acontecendo com o nome do fabulosos Ademar Fereira da Silva peimeiro e até recentemente o único brasileiro bi-campeão olimpico. Fico a pensar se Ademar não fosse um príncipe africano se ele não seria melhor referenciado e homenageado. Para Você que não tem tanta intimidade com esse grande brasileiro vá no google e busque uma foto do grande Ademar para ver toda a beleza de um lord negro. Ademar e da turma de Didi. Dida, Moacir ou seja de uma estirpe de atletas de uma rara beleza e gaborsidade atlética.
PS2: ainda ontem li uma excelente notícia para o basquete brasileiro que contrasta com essa trsite notícia sobre o Rosa Branca, foi criada a liga nacional de basquete. Enfim os clubes brasileiros se livrarão da porcaria da CBB e da porcaria de seu dono, chamadoGrego. E melhor ainda para o basquete mineiro, o presidente da Liga é o Kouros ex-presidente minastenista e introdutor do basquete de competição em nosso azul e branco do Lourdes. Foi Kouros em sua paixão pelo basquete que introduziu junto aos já tradicionais volei, tenis, natação, judô, ginástica o basquete de competição no glorioso Minas Tênis.
Veja trecho de notícia do Jornal O Globo:
Carmo de Souza, o Rosa Branca, bicampeão mundial de basquete com a seleção brasileira em 1959 e 1963, morreu na manhã desta segunda-feira em São Paulo. O ex-jogador, que atuou como pivô, ala e armador e tinha 68 anos, sofreu uma parada cardíaca.

Rosa Branca estava internado no Hospital Metropolitano, em São Paulo, no bairro da Lapa,para cuidar de uma forte pneumonia. Ele era Diretor da Federação Paulista de Basquete (FPB). Deixou a esposa Odete Sant’Ana Souza e três filhos (Samanta, Samara e Saulo). Rosa Branca defendeu a seleção brasileira durante 12 anos, marcou 539 pontos em 78 jogos. Além disso, chegou a ser convidado duas vezes para jogar no lendário Harlem Globetrotters.

O atleta paulista teve muitas conquistas ao longo de sua carreira como jogador. Além do título de bicampeão mundial, em 1959 e 1963, ganhou duas medalhas olímpicas de bronze, em Roma (1960) e Tóquio (1964). Também conquistou duas medalhas nos Jogos Pan-Americanos (bronze em 1955 e prata em 1963), além de quatro títulos sul-americanos (1958, 1960, 1961 e 1968). Rosa Branca encerrou sua carreira em 1971, pelo Corinthians (SP).

sábado, 20 de dezembro de 2008

Prêmio Dardos, redes de blog e agradecimento


Um querido amigo e um dos três ou quatro elitores desse blog indicou o mesmo para ser membro do PRÊMIO DARDOS. Ficamos bastante feliz e liosonjeado já que para participar de tal rede (network) blogueira é necessário atender aos seguintes requisitos:

"Com o Prêmio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web".

Como diz esse amigo no seu próprio blog (http://peramblogando.blogspot.com/) algo que já discutimos aqui e também no blog do grande Barba, o Savoir-faire, a responsabilidade de se escrever ainda que em um instrumento que inicialmente deveria funcionar mais como um diário eletrônico. No nosso caso, esta responsabilidade aumenta mais ainda pelo tema que normalmente tratamos (por isso assumo aqui e agora um compromisso de tentar revisar os textos e torná-los mais claros e obejtivos- algo que já assumo ser dificil para mim). Por uma dessas coincidências e que só reforça essa nossa conversa, ontem mesmo estava pesquisando sobre o domínio: quilombos e blog (já que também somos um dos mediadores de um blog dedicado somente a esse tema) e eis que me deparo ainda na primeira página do google com um link para o site Overmundo e, qual não foi minha maior supresa, que a tal notícia no Overmundo enviado por uma pessoa de S. Paulo era nada mais ou nada menos de que um texto de minha autoria (devidamente creditando, inclusive com minhas credenciais acadêmicas). Por isso mesmo devemos ficar sempre atentos ao que postamos.

Ps: o Overmundo em si é um belo exemplo das maravilhas da rede mundial, trata-se de um dos projetos colaborativos mais interessantes e inovadores que conheço. Na qual cada autor pode postar sua própria contribuição ou então postas (com os devidos créditos) a contribuição de um terceiro que se considera importante. Foi o que aconteceu com meu texto. No momento, não tenho enérgia para uma discussão mais aprofundada sobre o próprio conceito de autoria, mas acredito que até este esta posto em jogo nas novas mídias. Veja nesse caso só por acaso fiquei sabendo dessa re-publicação de meu texto em um site visitado por milhares de indíviduos.

Nos cabe agora indicar 15 blogs para receber o selo e

1) Você deve exibir a imagem do selo em seu blog

2) Você deve linkar o blog pelo qual você recebeu a indicação

3) Escolher outros 15 blogs a quem entregar o Prêmio Dardos

4) Avisar os escolhidos, claro!


Nossas indicações(preferimos não indicar aqueles blogs que já são bastante badalados):













quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

LAMENTÁVEL, mais uma morte de um quilombola

Lamentável e os canalhas continuam por ai rindo da nossa cara.
TOMBOU HOJE A PRINCIPAL LIDERANÇA QUILOMBOLA DO RECÔNCAVO BAIANO
Sr. Altino da Cruz faleceu hoje pela manhã, aos 60 anos de idade,enquanto trabalhava na sua roça. Ele não resistiu à notícia de que ojuiz Fábio Rogério França, da 11ª vara da justiça federal, concedeu umaliminar de reintegração de posse solicitada pela fazendeira Rita deCassia Salgado de Santana exigindo que este retire a roça que cultiva amais de 40 anos e foi herdada de seus pais. Utilizando-se de má fé, afazendeira levou o juiz a concluir que trata-se de uma ocupação recentequando é notória pela comunidade e pelos dados apresentados nos autosque trata-se de uma comunidade tradicional.Na Segunda e terça feira desta semana, o Sr. Altino da Cruz, acompanhadode outros membros da comunidade quilombola, esteve fazendo uma romariapor diversos órgãos públicos denunciando a situação e exigindoprovidências. Na segunda feira os representantes da comunidade estiveramno INCRA, na SEPROMI e no IBAMA. Na terça, voltaram ao INCRA eestiveram na Polícia Federal, entidade encarregada de cumprir areintegração de posse. Na quarta feira Altino voltou pra casavisivelmente abatido e inconformado com a ameaça de sair da roça queherdou dos pais e na qual trabalha por mais de 40 anos.Hoje pela manhã, enquanto trabalhava em sua roça, Sr. Altino da Cruz deuum forte grito e tombou no chão. Foi Levado em um carro de mão por seuscompanheiros até o posto de saúde da vila de São Francisco do Paraguaçue já chegou morto.QUEM MATOU ALTINO DA CRUZ?A comunidade de São Francisco do Paraguaçu é um grande sà­mbolo daresistência do povo quilombola no Brasil. Historicamente explorada porgrandes fazendeiros do Recôncavo Baiano, especialmente pela famíliaSantana, tem sido vítima dos mais violentos ataques desde que foireconhecida como comunidade remanescente de quilombo.As agressões são originadas também pela família Diniz que recentementeimplantou uma RPPN dentro do território da comunidade Remanescente deQuilombo. Esta família tem usado a RPPN para captar recursos de órgãosestaduais e federais e tem sido alvo de investigação sobreirregularidades, o que levou a suspensão de projetos em andamento eimpediu a liberação de mais recursos.Assim, as agressões e ataques foram concentrados sobre Sr. Altino daCruz, a principal liderança da comunidade remanescente de quilombo. Acomunidade foi vítima de várias ações de pistolagem e violênciapolicial como constatado em relatório oficial do Polà­cia Federal.Policiais armados invadiram a casa de Sr Altino da Cruz causandoconstrangimento e indignação a toda comunidade. A alianà§a entre osSantana e os Diniz, em conjunto com interesses ruralistas nacionais,articulou uma reportagem produzida pela rede globo de televisão que foiprovada ser fraudulenta através de sindicâncias de à³rgãos oficiais comoIBAMA, INCRA e Fundação Cultura Palmares. Desde então, a luta dacomunidade Remanescente de Quilombo Sà£o Francisco do Paraguaçuevidenciou-se como um símbolo da luta quilombola no Brasil e acomunidade tem sido alvo de freqüentes processos judiciais. A atualestratégia adotada pelos fazendeiros é impetrar sucessivas ações individuais de reintegração de posse para confundir o judiciário.O que o Movimento dos Pescadores e Quilombolas do Recôncavo tem a dizerpara Elba Diniz, Lu Cachoeira e sua família Santana que a morte de Sr.Altino da Cruz não trará desânimo para a luta do povo quilombola. Pelocontrário, fecundará a terra onde nascerão muitas flores para embelezara grande mesa no dia da festa da titulaçà£o no nosso território.

sábado, 13 de dezembro de 2008

AI 5 - 40 ANOS DEPOIS OU AINDA HOJE

Primeiramente o famigerado, por ele próprio:
O Presidente da República Federativa do Brasil, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e
Considerando que a Revolução brasileira de 31 de março de 1964 teve, conforme decorre dos Atos com os quais se institucionalizou, fundamentos e propósitos que visavam a dar ao País um regime que, atendendo às exigências de um sistema jurídico e político, assegurasse autêntica ordem democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade da pessoa humana, no combate à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso povo, na luta contra a corrupção, buscando, deste modo, "os. meios indispensáveis à obra de reconstrução econômica, financeira, política e moral do Brasil, de maneira a poder enfrentar, de modo direito e imediato, os graves e urgentes problemas de que depende a restauração da ordem interna e do prestígio internacional da nossa pátria" (Preâmbulo do Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964);
Considerando que o Governo da República, responsável pela execução daqueles objetivos e pela ordem e segurança internas, não só não pode permitir que pessoas ou grupos anti-revolucionários contra ela trabalhem, tramem ou ajam, sob pena de estar faltando a compromissos que assumiu com o povo brasileiro, bem como porque o Poder Revolucionário, ao editar o Ato Institucional nº 2, afirmou, categoricamente, que "não se disse que a Resolução foi, mas que é e continuará" e, portanto, o processo revolucionário em desenvolvimento não pode ser detido;
Considerando que esse mesmo Poder Revolucionário, exercido pelo Presidente da República, ao convocar o Congresso Nacional para discutir, votar e promulgar a nova Constituição, estabeleceu que esta, além de representar "a institucionalização dos ideais e princípios da Revolução", deveria "assegurar a continuidade da obra revolucionária" (Ato Institucional nº 4, de 7 de dezembro de 1966);
Considerando, no entanto, que atos nitidamente subversivos, oriundos dos mais distintos setores políticos e culturais, comprovam que os instrumentos jurídicos, que a Revolução vitoriosa outorgou à Nação para sua defesa, desenvolvimento e bem-estar de seu povo, estão servindo de meios para combatê-la e destruí-la;
Considerando que, assim, se torna imperiosa a adoção de medidas que impeçam sejam frustrados os ideais superiores da Revolução, preservando a ordem, a segurança, a tranqüilidade, o desenvolvimento econômico e cultural e a harmonia política e social do País comprometidos por processos subversivos e de guerra revolucionária;
Considerando que todos esses fatos perturbadores, da ordem são contrários aos ideais e à consolidação do Movimento de março de 1964, obrigando os que por ele se responsabilizaram e juraram defendê-lo, a adotarem as providências necessárias, que evitem sua destruição,
Resolve editar o seguinte
ATO INSTITUCIONAL
Art 1º - São mantidas a Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições estaduais, com as modificações constantes deste Ato Institucional.
Art 2º - O Presidente da República poderá decretar o recesso do Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereadores, por Ato Complementar, em estado de sitio ou fora dele, só voltando os mesmos a funcionar quando convocados pelo Presidente da República.
§ 1º - Decretado o recesso parlamentar, o Poder Executivo correspondente fica autorizado a legislar em todas as matérias e exercer as atribuições previstas nas Constituições ou na Lei Orgânica dos Municípios.
§ 2º - Durante o período de recesso, os Senadores, os Deputados federais, estaduais e os Vereadores só perceberão a parte fixa de seus subsídios.
§ 3º - Em caso de recesso da Câmara Municipal, a fiscalização financeira e orçamentária dos Municípios que não possuam Tribunal de Contas, será exercida pelo do respectivo Estado, estendendo sua ação às funções de auditoria, julgamento das contas dos administradores e demais responsáveis por bens e valores públicos.
Art 3º - O Presidente da República, no interesse nacional, poderá decretar a intervenção nos Estados e Municípios, sem as limitações previstas na Constituição.
Parágrafo único - Os interventores nos Estados e Municípios serão nomeados pelo Presidente da República e exercerão todas as funções e atribuições que caibam, respectivamente, aos Governadores ou Prefeitos, e gozarão das prerrogativas, vencimentos e vantagens fixados em lei.
Art 4º - No interesse de preservar a Revolução, o Presidente da República, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e sem as limitações previstas na Constituição, poderá suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais.
Parágrafo único - Aos membros dos Legislativos federal, estaduais e municipais, que tiverem seus mandatos cassados, não serão dados substitutos, determinando-se o quorum parlamentar em função dos lugares efetivamente preenchidos.
Art 5º - A suspensão dos direitos políticos, com base neste Ato, importa, simultaneamente, em:
I - cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função;
II - suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais;
III - proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política;
IV - aplicação, quando necessária, das seguintes medidas de segurança:
a) liberdade vigiada;
b) proibição de freqüentar determinados lugares;
c) domicílio determinado,
§ 1º - o ato que decretar a suspensão dos direitos políticos poderá fixar restrições ou proibições relativamente ao exercício de quaisquer outros direitos públicos ou privados.
§ 2º - As medidas de segurança de que trata o item IV deste artigo serão aplicadas pelo Ministro de Estado da Justiça, defesa a apreciação de seu ato pelo Poder Judiciário.
Art 6º - Ficam suspensas as garantias constitucionais ou legais de: vitaliciedade, mamovibilidade e estabilidade, bem como a de exercício em funções por prazo certo.
§ 1º - O Presidente da República poderá mediante decreto, demitir, remover, aposentar ou pôr em disponibilidade quaisquer titulares das garantias referidas neste artigo, assim como empregado de autarquias, empresas públicas ou sociedades de economia mista, e demitir, transferir para a reserva ou reformar militares ou membros das polícias militares, assegurados, quando for o caso, os vencimentos e vantagens proporcionais ao tempo de serviço.
§ 2º - O disposto neste artigo e seu § 1º aplica-se, também, nos Estados, Municípios, Distrito Federal e Territórios.
Art 7º - O Presidente da República, em qualquer dos casos previstos na Constituição, poderá decretar o estado de sítio e prorrogá-lo, fixando o respectivo prazo.
Art 8º - O Presidente da República poderá, após investigação, decretar o confisco de bens de todos quantos tenham enriquecido, ilicitamente, no exercício de cargo ou função pública, inclusive de autarquias, empresas públicas e sociedades de economia mista, sem prejuízo das sanções penais cabíveis.
Parágrafo único - Provada a legitimidade da aquisição dos bens, far-se-á sua restituição.
Art 9º - O Presidente da República poderá baixar Atos Complementares para a execução deste Ato Institucional, bem como adotar, se necessário à defesa da Revolução, as medidas previstas nas alíneas d e e do § 2º do art. 152 da Constituição.
Art 10 - Fica suspensa a garantia de habeas corpus , nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular.
Art 11 - Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato institucional e seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos.
Art 12 - O presente Ato Institucional entra em vigor nesta data, revogadas as disposições em contrário.
Brasília, 13 de dezembro de 1968; 147º da Independência e 80º da República.
Arthur da Costa e Silva

O HOJE, A BESTA CONTINUA SOLTA
deu na folha de s.paulo

Oito em cada dez brasileiros nunca ouviram falar do AI-5
Editado há 40 anos pelo general Costa e Silva, o AI-5, o principal símbolo da ditadura militar, é totalmente ignorado por 82% dos brasileiros a partir dos 16 anos. E, dos 18% que ouviram falar algo sobre ele, apenas um terço (32%) respondeu corretamente que a sigla se referia ao Ato Institucional nº 5.
Editado em 13 de dezembro de 1968 pelo então presidente, o general Costa e Silva, o AI-5 autorizava o Executivo a fechar o Congresso, cassar mandatos, demitir e aposentar funcionários de todos os poderes. O governo podia legislar sobre tudo, e suas decisões não podiam ser contestadas judicialmente. Em dez anos, o AI-5 serviu de base para a cassação de mais de cem congressistas. A censura atingiu cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e 500 canções.
Passados quase 30 anos de sua extinção, a lembrança do AI-5 vem se desvanecendo. Como observa o cientista político Marcus Figueiredo, do Iuperj, isso resulta do fato de que boa parte da população nasceu após 1968: "O fato tem 40 anos e não faz parte do calendário das datas nacionais". Mas mesmo no estrato de pessoas com 60 anos ou mais (indivíduos que tinham ao menos 20 anos quando o AI-5 foi editado), só 26% dizem ter ouvido falar dele.
O conhecimento sobre o AI-5 cresce à medida que avança a escolaridade formal. Só 8% das pessoas com ensino fundamental ouviram falar do AI-5. A taxa sobe para 53% entre quem tem nível superior, mas só 12% desse grupo se diz bem informado.
MAS A BESTA CONTINUA MAIS ATIVA DO QUE NUNCA, VEJA A MENSAGEM ABAIXO E MEU COMENTÁRIO DEPOIS:
Mensagem contendo ameaças, inclusive de morte, recebida por Viveiros de Castro em função de
Ameaças por mail...

Begin forwarded message:
From: http://br.mc657.mail.yahoo.com/mc/compose?to=marcus.sig@pop.com.br
Date: 12 December 2008 13:23:38 GMT-02:00
To: http://br.mc657.mail.yahoo.com/mc/compose?to=eduardo.viveiros@pq.cnpq.br
Subject: TRAIÇÃO À NAÇÃO É SEMPRE PERIGOSO!

Prezado Sr. Eduardo Viveiros;

RAPOSA-SERRA DO SOL: O QUE ESTÁ POR TRÁS


Todos sabem que nem o governo federal e nem as ONGs (bancadas pelos EUA e Europa) como o CIMI, entre outras de Roraima, estão realmente interessadas nos índios, que servem apenas de disfarce e massa de manobra dos verdadeiros interesses envolvidos.
Todos sabem que o real interesse é a enorme riqueza mineral estratégica daquela área; a qual teria sido previamente negociada in off pelo governo Lula, em troca de apoio dos países interessados para com o seu governo, e pela não divulgação na mídia nacional e internacional dos diversos crimes perpetrados por sua quadrilha petista contra o Brasil.
Sabemos que agora esses países do G7 mandam à conta, cobrando de Lula a acordada entrega da soberania brasileira sobre aquele território cobiçado, a qual vem de encontro com o plano dos EUA, em desmembrar o território dos grandes Estados nacionais, conforme é ensinado em suas academias militares desde os anos 80.
Todos sabemos que o plano das ONGs é o de, após a demarcação contínua, formando um enorme latifúndio mineral (e feito por socialistas! !) aproveitando a traidora e irresponsável assinatura da Declaração Internacional dos Direitos Indígenas na ONU por esse governo (Amorim), fomentar uma declaração de independência dos indígenas com apoio imediato da ONU e o envio de uma força militar internacional de apoio à nova “nação”, composta pelos EUA e países que poderão explorar as jazidas do território independente, no qual até então, o Brasil estaria impedido de explorar por lei internacional, como as grandes jazidas de Nióbio, Ouro, Ítrio, Urânio e até Petróleo da reservas Yanomâni, Raposa-Serra do Sol e Bacia do Takutu.
É sabido de longa data que o Instituto Chico Mendes recebe verbas dos EUA e Inglaterra, o qual servirá de fachada nacional, para que essas nações governem de fato a área da Raposa-Serra do Sol. Além de ter sido criado para destruir o Ibama, ou ser um “Ibama” impregnado pela ideologia ditatorial e falida do socialismo, e facilitar negócios espúrios da atual cúpula petista que nos governa.
No acordo desse governo com os países do G7, está embutido o sucateamento das nossas forças armadas e a prorrogação ad infinitum da compra de material bélico moderno e eficaz para as mesmas.
O que no mínimo soa como mais uma traição à Nação.
Como também favorece ao inimigo externo, o controle intimidativo da mídia televisiva e escrita no Brasil feito pelo governo Lula, visando a alienar o povo sobre o que realmente se passa e o que se pretende em Roraima; e de outros temas vitais. Ou seja, a Raposa-Serra do Sol é uma questão entre credores e seu cliente Lula e PT; cujo desfecho combinado foi até o momento, impedido pelas forças nacionalistas brasileiras e pelo clamor de boa parte da população consciente de nosso país.
Está em jogo sim, o futuro da integridade territorial do Brasil.
Os EUA seguem à risca para com o Brasil, a estratégia:
“UMA POTÊNCIA SÓ SE SUSTENTA, SOBRE AQUELA QUE DESTRÓI” - Ronald Reagan, 1992
O que dá serenidade aos setores nacionalistas e patrióticos do Brasil, é o fato inquestionável de que todos nós somos mortais, e que os brasileiros inimigos da soberania brasileira, que por hora se articulam e se mancomunam com poderes estrangeiros contra nossa Nação, e seus simpatizantes, possam ser eliminados a qualquer momento, dentro e fora do território nacional, independente do cargo e grau de influência que possuam, dependendo apenas das dimensões dos danos que causem ao País.
É a serenidade de quem sabe cortar o mal pela raiz; e desconhecer esse fato é um total desprezo para com a própria existência.
Brasil acima de tudo!

Cel.Inf.R1 Marcus Siegfried de Moura
3 coisas a respeito dessa carta

1- não é bem assim de ele ser julgado em um tribunal militar. Crimes comuns são submetidos a justiça comum. Nesse caso se trataria de um.

2- que o cara é um demente não há dúvida, se bem que sei lá é sempre necessário não dividirmos o mundo entre bonzinhos e malzinhos. O problema é que como Marisa lembra tem pessoas que compram essas baboseiras... por exemplo quem viu o voto louco do Cesar Peluso percebeu isso, louco pq o cara votou a favor de Serra do Sol quando argumentou seu voto inteiro contra, o tipo de covarde comum no Brasil que não teve a coragm de assumir ser contra terras indigenas ... agora faz sentido a parte em que ele fica quase metade do voto fazendo uma defesa veemente das forças armadas e do direito delas de aculturar quem quer que seja.... aliás o voto do Peluso merece ser lido, afinal atéoutros ministros se assustaram como os termos.

3- agora para mim o principal, hoje se comemora os 40 anos do glorioso AI 5 quando a reedentora enfim conseguiu nos livrar dos terríveis comedores de criancinhas. Sim, a culpa é do governo Lula realmente e seus aliados, afinal somo o único país que não abrimos os arquivos da ditadura e não processamos nenhum criminoso daquela época. Repito o único país da América Latina, ai eu tenho que concordar com o Coronel no Brasil eles têm mesmo o direito de eliminar quem quer que seja e onde quer que seja, afinal Brasil Ame-o ou Deixe-o.
Para finalizar, um artigo bem ilustrativo de Ronaldo Costa Couto para o blog do Noblat;
Artigo
AI-5 - O segundo golpe militar
Brasília, 2 de setembro de 1968, Câmara dos Deputados. O jovem deputado carioca Márcio Moreira Alves, indignado com truculenta invasão policial da Universidade de Brasília cinco dias antes, bate forte na ditadura. Fragmentos: “Quando pararão as tropas de metralhar nas ruas o povo? Quando uma bota, arrebentando uma porta de laboratório, deixará de ser a proposta de reforma universitária do governo? ”
É agora o inimigo público nº 1 do regime. Apesar da imunidade parlamentar, o governo decide processá-lo por ofensa às Forças Armadas. Encaminha pedido de licença ao Supremo Tribunal Federal, que opta por submetê-lo à Câmara. O clima político é pesado, tenso, ameaçador. Mesmo assim, em 12 de dezembro de 1968, a licença é negada por 216 votos contra 141, com 12 abstenções. Momento de densa emoção, brio e brilho do Congresso.
Tempo de rebeldia e radicalização política. A linha-dura militar, já preparada para golpear, tem agora o pretexto. Dia seguinte, sexta-feira 13 de dezembro de 1968, no Palácio das Laranjeiras, Rio de Janeiro, sob a presidência de Costa e Silva, o Conselho de Segurança Nacional, aprova euforicamente o sombrio Ato Institucional nº 5 - AI-5. Primeiro sem data para acabar, é o segundo golpe militar. O mais arbitrário, abrangente e emblemático instrumento de repressão da ditadura.
Márcio Moreira Alves consegue sair do país. Dele, muito depois: “Fui um protagonista pretextual. Me pegaram como pretexto para um golpe que estava planejado pelo menos desde julho de 68, quando se tornou claro que havia uma guerrilha urbana agindo em alguns lugares do país, embora sem muita força”.
A prepotência e a arrogância ganham as ruas. Censura da imprensa, dúzias de prisões, insensibilidade e insensatez à luz do sol e nos porões da repressão. Detiveram até os jovens Caetano Veloso e Gilberto Gil, simpáticos ídolos da Tropicália. Políticos, jornalistas, artistas, intelectuais, estudantes, alguns militares e outros mais. Quartéis viraram cadeia.
Aprofunda-se a radicalização política, a liberdade agoniza. O AI-5 choca, amedronta, agride, envergonha. Concentra o poder no governo federal, atropela a federação. Debilita a representação política e o Judiciário. Permite a cassação de mandatos e direitos políticos, fechar o Congresso Nacional, as assembléias legislativas estaduais e as câmaras municipais, decretar intervenção nos estados e municípios. E também censurar rádio, jornal e televisão, suspender franquias constitucionais de liberdade de reunião e expressão, rever direitos e garantias dos magistrados, negar garantia de habeas corpus em crimes políticos, exonerar ou aposentar servidores sumariamente, confiscar bens. Trevas.
Do Ato às ações: imprensa censurada e parcialmente autocensurada, Congresso fechado por tempo indeterminado, brutal escalada da repressão política, constrangimentos, delações, cassações, prisões arbitrárias, tortura, seqüestros políticos, mortes. O sistema de repressão cresce e se transforma em poderoso e violento poder paralelo. Sem canais e espaço de diálogo e protesto, jovens optam pela luta armada, o que fortalece a linha-dura. Guerra de guerrilhas, luta fratricida, desigual, estúpida como todas as guerras.
Costa e Silva não queria passar à história como mais um ditador latino-americano. Formou grupo de juristas notáveis, coordenado pelo vice-presidente Pedro Aleixo, para elaborar constituição liberalizante. Pretendia outorgá-la em 7 de setembro de 1969, revogando os atos institucionais e reabrindo o Congresso.
O projeto sai. Mas o velho marechal sofre grave acidente vascular cerebral em agosto, deixa a cena política, morre no final do ano. Os ministros da Guerra, Marinha e Aeronáutica usurpam o poder, formam uma junta, impedem a posse de Pedro Aleixo, impõem um emendão à Constituição de 1967, enfiam o AI-5 dentro dele. Mais: com a cúpula das três Armas, escolhem e fazem eleger presidente da República o então comandante do III Exército, general Emilio Garrastazu Médici, defensor sincero do AI-5, empossado em 30 de outubro.
Os radicais dão as cartas. Auge do autoritarismo, da repressão política, da censura e da intolerância. Na economia, forte política desenvolvimentista e cenário externo favorável permitem espetaculares taxas de crescimento da renda interna e do emprego. Densa e bem cuidada propaganda oficial, em ambiente de censura, tornam o presidente popular.
O general Ernesto Geisel, obstinado, centralizador e mandão, assume em 15 de março de 1974. A eclosão da primeira crise do petróleo tornara inviável o dinâmico modelo nacional de desenvolvimento. Hora de crise, grandes dificuldades, endividamento, inflação em alta, ditadura em baixa, nova estratégia política.
Ele lança política de distensão lenta, gradual e segura. Governa com o AI-5 sempre à mão, utilizado para punir pessoas e muito mais. Até mesmo para fechar temporariamente o Congresso. Apesar da estranha trajetória de avanços e recuos, a abertura política vai ganhando força e musculatura, com progressiva liberalização e participação crescente da sociedade. Em outubro de 1978, a Emenda Constitucional nº 11 decreta a morte do AI-5 a partir de 1º de janeiro de 1979. Durou mais de 10 anos.

Ronaldo Costa Couto, escritor, economista, doutor em história pela Sorbonne (Paris IV), foi ministro do Interior, governador de Brasilia e ministro-chefe do Gabinete Civil da Presidência da República (governo Sarney). É autor, entre outros, do clássico História indiscreta da ditadura e da abertura, Ed. Record, Rio de Janeiro, 1998. O artigo acima foi escrito especialmente para o blog.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Ainda sobre o fim da Tribuna da Imprensa

Sobre o post abaixo. Um texto bem explicativo do ótimo Argemiro Ferreira, fiel soldado da Tribuna.
Ainda o passado patético da mídia golpista

(A manchete acima e as demais reproduzidas abaixo escancaram o coro unânime dos jornalões em 2006, no desespero para impedir a reeleição de Lula - exatamente o contrário da submissão dócil aos ditadores)
Há mais reflexões a fazer sobre os quase 60 anos da Tribuna da Imprensa e o papel submisso da imprensa golpista, que se acha valente hoje na trama contra um governo democrático apoiado por 80% da população mas nos 20 anos da ditadura militar, depois do golpe de 1964 contra um presidente legítimo, aplaudiu cada um dos cinco ditadores que matavam e torturavam (além de censurar a própria mídia).
Da mesma forma como hoje chega ao cinismo de denunciar inexistentes ameaças à liberdade de imprensa, naquele passado sinistro recebia visitas diárias de censores militares à redação e jurava ao mundo, em suas primeiras páginas, haver no Brasil um regime democrático com imprensa livre. Por festejar o falso milagre brasileiro dos ditadores, como foi lembrado antes, essa mídia covarde ganhou seus atuais impérios.
Os primeiros jornais a desaparecerem depois de 1964 foram Última Hora e Correio da Manhã. Ousaram desafinar no coro da submissão aos novos donos do poder. O caso da Última Hora - a cadeia de jornais criada por Samuel Wainer - foi expressivo ter sido a única grande empresa jornalística a repudiar o golpe, já que apoiara o governo João Goulart, derrubado pelos generais.
Da resistência à promiscuidade
O Correio, ao contrário, era duro na crítica, tendo dado um “Basta!” e gritado “Fora!” em dois editoriais históricos. Mas teve o mérito de se indignar contra os excessos e abusos do novo regime, inclusive a primeira onda de torturas. Com o dono da UH exilado em Paris - até inclinado, inicialmente, a fazer concessões para retornar - a responsabilidade da resistência ficou para o Correio.
O cronista Carlos Heitor Cony agigantou-se no desafio, apoiado pela equipe - Edmundo Moniz, Otto Maria Carpeaux, Márcio Moreira Alves, Hermano Alves, etc, Niomar Moniz Sodré à frente. Esgotada sua fase inicial, o regime reciclou-se com o Ato Institucional 2 (fim dos partidos e cassações em seguida à derrota eleitoral de 1965) e o AI-5 de 13 de dezembro de 1968, já sob o segundo ditador (Costa e Silva).
Por causa de sua resistência consequente, o Correio passou a viver sua agonia lenta nas mãos de empreiteiros ligados ao regime (os irmãos Alencar-Bobagem), que o arrendaram para obter favores oficiais e adoçar negociatas. Na mesma data do Ato 5, o Jornal do Brasil lançou então seu desafio histórico, a edição do dia 14, pessoalmente ordenada pela condessa Pereira Carneiro.
Com a prisão do editor Alberto Dines e do diretor José Sette Câmara, o JB recuou. O preço da libertação dos dois foi a rendição do jornal. Encerrou-se então o único desafio real do JB à ditadura. Para a Tribuna, determinada a resistir, o 13 de dezembro significou o início de 10 anos de censura - e da sucessão de prisões e confinamentos de Helio Fernandes.
Prédios novos e Brasil grande
O diretor da Tribuna fora impedido três anos antes de ser candidato ao Congresso - na mesma eleição que dera cadeiras a dois jornalistas do Correio na Câmara e a mais dois na Assembléia do Rio. E enquanto tudo isso acontecia, O Globo nada tinha a reclamar, ao contrário. O seu novo canal de televisão ia muito bem, obrigado - em intimidade promíscua com a ditadura militar.
Foi a fase das definições, cada um vendia a alma ao diabo como podia. A Veja começava. O Globo, empurrado pelo parceiro Time-Life, engordava sua TV, porta-voz oficiosa da ditadura. A Folha de S. Paulo preparava-se para descobrir a vocação para o poder, através de um dedo-duro residente. O concorrente Estado de S. Paulo tinha sua facção no regime, apesar de prejudicado pelas ligações com Carlos Lacerda, em desgraça.
Sob censura, a Tribuna ficou isolada - sem qualquer solidariedade dos outros, expectadores omissos. Alternativos novos nasciam e morriam (Folha da Semana, Politika, Crítica, etc.), sem falar no miraculoso Pasquim, que apostou no ridículo do regime ao nascer, deu um salto para 200, 300 mil exemplares e recuou a menos da metade ao ser vítima de censura e repressão.
Opinião nasceu no fim de 1972, quando os jornalões festejavam em seus prédios novos a euforia do Brasil Grande do ditador Garrastazu Médici e omitiam as informações sobre torturas e abusos. Previa-se uma venda de 20 mil exemplares, mas ela cresceu imediatamente para 40 mil, tal era a fome de notícias verdadeiras da parte dos leitores e a sonegação delas pelos jornalões.
A intimidação pelo exemplo
Como a circulação de Opinião, mesmo sob censura (imposta a partir de seu número 8), se mantinha, o jornal viu o castigo ampliar-se com censura mais devastadora - a cargo do Centro de Informações do Exército (CIEx), em Brasília. A receita serviria ainda, depois, para outros que se atrevessem a imitar o exemplo - Ex, Extra, Movimento, Reunião, Versus, Argumento, Coojornal, Em Tempo, Cadernos de Opinião, etc.
Os jornalões fizeram os piores papéis - deles, só Estado de S.Paulo e Veja chegaram a ter censura direta (por pouco tempo). O JB foi ao extremo de entregar à Polícia uma primeira página inteira para as “confissões” de um espião da CIA, Adauto Santos, infiltrado no PCB (até a diagramação viera pronta). E quando o ex-deputado Rubens Paiva morreu de tortura o JB fez ao regime o favor de assumir como sua a versão oficial de que ele tinha sido baleado ao tentar fugir.
O diretor-presidente M. F. Nascimento Brito não hesitou em sair pelo mundo a negar (até como diretor da Sociedade Interamericana de Imprensa) que havia censura no Brasil. Achava que em troca teria sua rede de TV para competir com a Globo. Mas foi impossível bater a subserviência dos Marinho, cuja façanha maior fracassou em 1982 - a fraude para derrotar Leonel Brizola no Rio e “eleger” o candidato da ditadura, Moreira Franco (escândalo Pro-Consult).

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Duas mortes

Bom a correria de sempre a me impedir de estar por aqui. Passo correndo por aqui só para relembrar uma data esquecida pela grande mídia e para lamentar o monopolio cada vez maior dessa mesma mídia corrompida.
Essa semana passou despercebido pela gande mídia se relembra os 20 anos de morte do grande Chico Mendes. Esquecimento oportuno, afinal quem quer se lembrar que o problema da terra (a grande concentração e o latifundio) continua sendo o principal problema desse país.
Por fim, a lamentar a morte essa semana do último Jornal de circulação média independente. Morre-se o Tribuna da Imprensa e um dos últimos espaços contra-hegêmonicos da mídia. Lamentável. Cada vez mais rumamos ao pensmento único e totalizante.